Mapa de questões · 1º dia
Questão 54 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
TEXTO I
Fazendeiro branco, escravo negro: a imagem icônica produz a ilusão de que a escravidão moderna foi um sistema de dominação racial. De fato, porém, foi um sistema econômico. A escravidão acompanhou a humanidade durante milênios. Nas mais diferentes sociedades, inclusive na África, gente de todas as cores escravizou gente de todas as cores. O capitalismo mercantil acelerou a produção e o comércio de incontáveis mercadorias — e, também, de escravos. Na sua moldura, o tráfico atlântico forneceu africanos escravizados para as Américas.
MAGNOLI, D. Uma ilusão de cor. Disponível em: www1.folha.uol.com.br.
Acesso em: 9 nov. 2021 (adaptado).
TEXTO II
O que nasceu primeiro, a escravidão ou o racismo? O tema é complexo, mas há consenso de que o racismo estrutural na Afro-América é consequência da escravidão atlântica. No Brasil, o racismo foi inscrito na própria linguagem, que definia o comércio de escravizados como tráfico “negreiro” e qualificava a maioria de livres não brancos como pessoas “de cor”. Existiam como sujeitos racializados mesmo quando conseguiam ter acesso a algum capital econômico e simbólico para lutar contra o racismo, até mesmo quando se tornavam senhores (ou senhoras) de escravos.
MATTOS, H. O negacionismo como erudição. Disponível em:
www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 9 nov. 2021 (adaptado).
No Texto II, o posicionamento crítico ao argumento presente no Texto I sobre a relação entre escravidão africana e racismo na América colonial baseia-se no seguinte aspecto:
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → historiografia da escravidão moderna e formação do racismo estrutural no Brasil colonial
- ⚡ Nível: Difícil — exige comparar dois argumentos historiográficos abstratos e identificar a categoria do argumento, não apenas o conteúdo da discordância entre os autores
- 🎯 Tema/Habilidade: Debate historiográfico sobre a relação entre escravidão atlântica e racismo estrutural; leitura crítica comparativa de textos
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Em que tipo de argumento Mattos se apoia para discordar de Magnoli sobre a relação entre escravidão africana e racismo?"
- Palavras-chave decisivas: posicionamento crítico, relação entre escravidão africana e racismo, aspecto
- Armadilha típica: confundir o CONTEÚDO da discordância ("Mattos acha que existe racismo, Magnoli acha que não") com a NATUREZA do argumento pedido. As alternativas não descrevem opiniões, mas categorias (histórica, filosófica, cultural, ética, espacial) — é preciso classificar o tipo de raciocínio usado por Mattos, não repetir o que ela disse.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a crítica de Mattos se sustenta num processo histórico específico e datado — a escravidão atlântica —, que produziu e fixou categorias étnico-raciais duradouras, e não em um juízo moral, cultural, filosófico ou espacial abstrato.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Escravidão moderna (atlântica): sistema de exploração de mão de obra escravizada implantado pelas potências europeias nas Américas a partir do século XVI, majoritariamente com africanos traficados pelo Atlântico.
- Racismo estrutural: práticas, normas e instituições que reproduzem hierarquias raciais de modo sistêmico, independentemente da intenção discriminatória de indivíduos isolados — enraíza-se nas estruturas sociais, econômicas e até na linguagem.
- Historicidade: qualidade de um fenômeno ser produto de um processo histórico específico e situado no tempo, e não algo natural, universal ou atemporal — o oposto de tratar algo como "sempre existiu e sempre será igual".
- Racialização: processo histórico pelo qual grupos humanos passam a ser classificados e tratados por marcadores étnico-raciais, marca que persiste mesmo quando o indivíduo ascende social ou economicamente.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (Texto I): "foi um sistema econômico [...] gente de todas as cores escravizou gente de todas as cores" → Magnoli universaliza a escravidão como fenômeno recorrente em toda a história humana, esvaziando-a de conteúdo racial específico no caso atlântico.
- Evidência 2 (Texto II): "o racismo estrutural na Afro-América é consequência da escravidão atlântica" → Mattos não nega que outras sociedades escravizaram, mas afirma que essa escravidão em particular gerou uma consequência histórica singular: o racismo estrutural nas Américas.
- Evidência 3 (Texto II): "Existiam como sujeitos racializados mesmo quando conseguiam ter acesso a algum capital econômico e simbólico [...] até mesmo quando se tornavam senhores (ou senhoras) de escravos" → a marca étnico-racial persistia independentemente da posição econômica, provando que o fator explicativo não é puramente econômico, mas um processo histórico que fixou a etnia/raça como categoria social duradoura.
- Síntese: Mattos rebate Magnoli mostrando que o racismo não é traço universal e atemporal da escravidão em geral, mas resultado de um processo histórico específico — a escravidão atlântica —, que inscreveu a raça na linguagem e na estrutura social brasileira. Esse é o aspecto pedido: a historicidade étnica.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear a controvérsia entre os textos
O Texto I defende uma tese "descolorida" da escravidão: como o fenômeno existiu em incontáveis sociedades, com pessoas de todas as cores escravizando pessoas de todas as cores, a escravidão atlântica seria apenas mais um capítulo de um sistema econômico universal — a dimensão racial seria incidental. O Texto II isola a escravidão atlântica como processo histórico particular, com efeitos próprios: racismo estrutural inscrito até na língua ("negreiro", "de cor") e capaz de manter indivíduos como "sujeitos racializados" mesmo quando alcançavam poder econômico.
Subpasso 4.2 — Isolar o "aspecto" pedido
O comando pergunta sobre qual base categórica o argumento de Mattos se apoia, não sobre o conteúdo da sua opinião. As alternativas oferecem cinco categorias: histórica/étnica, filosófica, cultural, ética e espacial/patrimonial. O argumento de Mattos combina um processo histórico datado (o tráfico atlântico) com a produção de uma categoria étnica/racial fixa que sobrevive à mobilidade econômica — combinação que corresponde apenas à "historicidade étnica".
Subpasso 4.3 — Verificação
O trecho central — "sujeitos racializados [...] mesmo quando se tornavam senhores de escravos" — confirma o argumento histórico: a racialização gerada pela escravidão atlântica virou marca social autônoma, que não desaparece com a ascensão econômica. Isso invalida a explicação puramente econômica de Magnoli e aponta para a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Historicidade étnica.
✅ Correta: a crítica de Mattos se apoia no caráter histórico específico — não universal, não atemporal — do processo de racialização desencadeado pela escravidão atlântica. A raça/etnia tornou-se marca social fixada por um processo histórico determinado, presente até na linguagem ("negreiro", "de cor"), e que perdurava mesmo com a ascensão econômica e social do indivíduo. É esse duplo caráter — histórico e étnico — que sustenta o contra-argumento ao Texto I.
B) Veracidade filosófica.
❌ Incorreta: o embate entre os dois textos não é uma discussão filosófica sobre a natureza da verdade ou categorias abstratas do pensamento; é uma discussão historiográfica sobre causa e consequência de um processo social concreto.
C) Similaridade cultural.
❌ Incorreta: Mattos não compara culturas em busca de semelhanças; ao contrário, destaca a especificidade do caso atlântico/brasileiro em relação às demais formas históricas de escravidão citadas por Magnoli.
D) Responsabilidade ética.
❌ Incorreta: embora o tema tenha implicações morais, o argumento de Mattos não se constrói sobre "quem é eticamente culpado", mas sobre como um processo histórico produziu e perpetuou categorias raciais — é explicação histórico-estrutural, não juízo de responsabilidade moral individual.
E) Espacialidade patrimonial.
❌ Incorreta: não há no Texto II discussão sobre território, propriedade ou herança de bens; "senhores (ou senhoras) de escravos" refere-se à posição social dentro de uma hierarquia racializada, não a espaço ou patrimônio.
🏆 Gabarito: A — a crítica de Mattos ao argumento de Magnoli se sustenta na historicidade étnica: o racismo estrutural é apresentado como fruto de um processo histórico específico (a escravidão atlântica), que fixou a raça como categoria social persistente, independentemente da posição econômica dos indivíduos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: Somente a alternativa A identifica corretamente a base do argumento de Mattos: um processo histórico datado que produziu uma marca étnico-racial duradoura, distinta de fatores econômicos, filosóficos, culturais, éticos ou espaciais.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o debate sobre a origem do racismo brasileiro — se decorre da escravidão atlântica (leitura histórico-estrutural, associada a autoras como Hebe Mattos e Lilia Schwarcz) ou se é tratado como fenômeno universal e independente da raça (leituras que minimizam a dimensão racial da escravidão, como a de Demétrio Magnoli).
- Generalização: em questões que comparam textos historiográficos e perguntam "sobre qual aspecto se baseia o argumento", identifique a NATUREZA da explicação (histórica, econômica, cultural, moral, filosófica), não apenas o conteúdo da opinião defendida.
- Dica de eliminação rápida: elimine as categorias ausentes dos textos (espaço/patrimônio em E, filosofia em B, comparação cultural em C); entre as restantes, escolha a que reúne o par central do Texto II — processo histórico + fator étnico/racial.
- Conexões: racismo estrutural (Silvio Almeida); formação da identidade racial brasileira (Lilia Schwarcz); crítica ao mito da democracia racial (Gilberto Freyre versus revisão historiográfica contemporânea).
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