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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 80ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

A corda puxada pelos devotos é, atualmente, um dos elementos mais característicos do Círio de Nazaré. Inserida na procissão de 1855, para que os devotos pudessem tirar a berlinda de um atoleiro, hoje ela perdeu seu significado prático original, embora seu aspecto simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado tenha permanecido ao longo dos anos.

Círio de Nazaré. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br.
Acesso em: 16 nov. 2021 (adaptado).

A reapropriação simbólica da corda apresentada no texto mostra como a festividade está marcada pela

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → religiosidade popular e patrimônio cultural imaterial
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir "prática popular ressignificada" de "doutrina católica oficial", nuance que confunde leitura apressada
  • 🎯 Tema/Habilidade: Ressignificação simbólica em manifestações culturais populares (compreensão de processos culturais e identidade coletiva)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que explica o fato de a corda ter ganhado um novo sentido, mesmo depois de perder sua função original?"
  • Palavras-chave decisivas: reapropriação simbólica, perdeu seu significado prático, aspecto simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado
  • Armadilha típica: associar "Círio de Nazaré" a "culto católico oficial" só porque a festa gira em torno de uma santa — o texto fala de um objeto ressignificado pelos devotos, não por decisão da hierarquia da Igreja.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que símbolos populares se transformam e ganham novos sentidos coletivos ao longo do tempo, de forma espontânea e independente de instituição formal.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Imaginário popular: representações e sentidos que um grupo social constrói coletivamente, de modo informal e ao longo de gerações, para objetos e práticas do cotidiano — sem depender de autoridade centralizada.
  • Ressignificação: processo em que um objeto muda de sentido sem mudar de forma — a corda continua a mesma, mas o que ela representa se transforma.
  • Religiosidade popular: fé vivida pelo povo em paralelo à doutrina oficial, com promessas e símbolos criados pela comunidade — caso do Círio, registrado pelo Iphan como Patrimônio Imaterial.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Inserida na procissão de 1855, para que os devotos pudessem tirar a berlinda de um atoleiro" → origem estritamente utilitária: um problema prático (carreta atolada) exigiu solução prática.
  • Evidência 2: "hoje ela perdeu seu significado prático original, embora seu aspecto simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado tenha permanecido" → a função original sumiu, mas o povo manteve e reforçou um sentido novo, construído coletivamente.
  • Síntese: o texto narra uma transição de sentido — do prático ao simbólico — promovida pelos próprios devotos, sem menção a instituição, origem indígena, conflito ou herança europeia. Isso é manifestação do imaginário popular.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Origem funcional do objeto

Em 1855, a corda entrou na procissão por motivo concreto: a berlinda com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré atolou, e os fiéis a puxaram com cordas. Nesse momento, a corda era ferramenta prática, sem carga simbólica especial.

Subpasso 4.2 — Processo de ressignificação

O problema que originou o uso (o atoleiro) deixou de existir, mas a prática de puxar a corda não desapareceu — cresceu e se tornou um dos maiores símbolos do Círio. O que a sustenta hoje não é mais a necessidade prática, e sim o sentido que os próprios devotos passaram a atribuir ao gesto: sacrifício físico, promessa cumprida, proximidade com o sagrado. Esse sentido não foi definido por autoridade eclesiástica — foi construído e sustentado pela crença coletiva do povo, isto é, pelo imaginário popular.

Subpasso 4.3 — Verificação

A resposta correta precisa dar conta de dois pontos do texto ao mesmo tempo: (1) perda do sentido prático original e (2) permanência/criação de sentido simbólico sustentado coletivamente. Só a alternativa que fala em reelaboração simbólica feita pelo povo — sem citar instituição, etnia indígena, conflito ou origem europeia — atende ao comando: a alternativa E.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) reprodução de culto católico.

❌ Incorreta: "reprodução" indicaria repetição de prática litúrgica definida pela Igreja institucional. O texto mostra o oposto — elemento fora da doutrina oficial, criado por acidente histórico e ressignificado pela vontade espontânea dos fiéis.

B) assimilação de ritual nativo.

❌ Incorreta: não há referência a povos indígenas ou rituais nativos. A origem da corda é datada (1855) e circunstancial — puxar uma berlinda atolada —, sem vínculo com tradições originárias.

C) contestação de signo cultural.

❌ Incorreta: "contestação" pressupõe disputa de um símbolo estabelecido. O texto mostra o contrário: permanência e fortalecimento do sentido simbólico da corda, sem conflito ou rejeição.

D) recuperação de costume europeu.

❌ Incorreta: não há menção a tradição europeia resgatada. A corda é elemento local, surgido em Belém do Pará em 1855, a partir de necessidade prática da própria procissão amazônica.

E) manifestação de imaginário popular

✅ Correta: o texto descreve um objeto que nasceu com função prática (tirar a berlinda do atoleiro) e, mesmo perdendo essa função, teve seu significado simbólico de sacrifício e aproximação do sagrado mantido e reforçado pela crença coletiva dos devotos ao longo do tempo — definição precisa de manifestação do imaginário popular.

🏆 Gabarito: E — a corda deixou de ser ferramenta e virou símbolo porque os próprios devotos, coletivamente e ao longo de décadas, atribuíram-lhe novo sentido sagrado — processo típico do imaginário popular, não de doutrina oficial, rito indígena, conflito simbólico ou tradição europeia recuperada.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa E capta o núcleo do texto — transformação de sentido de um objeto, de utilitário a sagrado, promovida pela crença coletiva e espontânea dos fiéis, sem instituição, etnia, conflito ou origem estrangeira envolvidos.
  • Padrão de cobrança: o ENEM explora com frequência manifestações culturais brasileiras (festas populares, folguedos, procissões) para testar se o estudante reconhece ressignificação e construção de identidade cultural "de baixo para cima".
  • Generalização: quando um texto descreve um objeto que "perdeu a função original, mas manteve sentido simbólico criado pela comunidade", a resposta remete a imaginário popular ou identidade coletiva — não a categorias que pressupõem autoridade centralizada ou conflito.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com "culto oficial"/"doutrina" quando o texto enfatiza espontaneidade popular; descarte grupos ou origens não citados (indígena, europeu); descarte termos de conflito ("contestação") quando o texto narra continuidade de sentido.
  • Conexões: patrimônio cultural imaterial (registro do Iphan); catolicismo popular e sincretismo no Brasil.

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