Mapa de questões · 1º dia
Questão 87 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
O quilombo serviu para o desbravamento das florestas além da zona de penetração dos brancos e para a descoberta de novas fontes de riquezas. Na capitania e depois província do Rio de Janeiro, as fontes documentais sugerem que os quilombolas de Iguaçu mantinham um intenso comércio de madeira com a Corte e também empregavam-se como trabalhadores nas fazendas de proprietários que contratavam negro fugido.
REIS, J. J. Quilombos e revoltas escravas no Brasil.
Revista USP, n. 28, dez.-fev. 1996 (adaptado).
De acordo com o texto, qual estratégia de resistência e sobrevivência foi utilizada por indivíduos quilombolas?
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História do Brasil → escravidão, quilombos e resistência negra no século XIX
- ⚡ Nível: Médio — exige articular um trecho historiográfico específico a um conceito amplo (inserção mercantil), fugindo do estereótipo do quilombo isolado
- 🎯 Tema/Habilidade: Estratégias de resistência escrava e revisão historiográfica sobre quilombos (competência de leitura e interpretação de fonte histórica em História)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto de João José Reis, que estratégia os quilombolas usaram para resistir e sobreviver?"
- Palavras-chave decisivas: "intenso comércio de madeira com a Corte", "empregavam-se como trabalhadores nas fazendas"
- Armadilha típica: associar quilombo automaticamente a isolamento total e confronto armado, ignorando que o texto descreve troca comercial e trabalho assalariado
- O que a resposta precisa demonstrar: que a sobrevivência quilombola de Iguaçu se deu por vínculos econômicos com a sociedade escravista, e não por enfrentamento direto ou fuga do sistema produtivo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Quilombo como espaço de resistência plural: a historiografia recente (João José Reis, Flávio Gomes) superou a visão de Palmares isolado como modelo único; mostra quilombos próximos a fazendas, que negociavam e vendiam produtos, combinando autonomia com dependência econômica.
- Economia mercantil imperial: o Rio de Janeiro do século XIX, sede da Corte, demandava madeira, alimentos e mão de obra; quilombolas de Iguaçu (Baixada Fluminense) aproveitaram essa demanda para se inserir como fornecedores e trabalhadores.
- Fazendeiro que "contratava negro fugido": revela cumplicidade entre senhores de terra e quilombolas — o proprietário lucrava com mão de obra barata e o quilombola garantia sobrevivência, driblando a vigilância oficial.
- Resistência além da fuga e da revolta: negociar, vender excedente e alugar força de trabalho também são formas de resistir, pois garantem a permanência do grupo livre da captura e da fome.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "mantinham um intenso comércio de madeira com a Corte" → mostra que os quilombolas vendiam ativamente um recurso extraído por eles mesmos ao principal centro de consumo do Império
- Evidência 2: "empregavam-se como trabalhadores nas fazendas de proprietários que contratavam negro fugido" → revela que parte da sobrevivência do quilombo dependia de trabalho assalariado informal dentro do próprio sistema escravista
- Síntese: comércio de madeira e trabalho assalariado apontam na mesma direção: os quilombolas de Iguaçu garantiam sua permanência livre articulando-se à economia de mercado da região
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito e o contexto histórico
O texto trata dos quilombolas de Iguaçu, na então capitania/província do Rio de Janeiro, região de mata próxima à Corte (capital do Império). João José Reis descreve uma prática documentada: esses grupos não viviam isolados nem em guerra permanente contra a sociedade à sua volta; ocupavam a fronteira entre a mata e as áreas cultivadas, extraindo madeira e mantendo contato com fazendas vizinhas.
Subpasso 4.2 — Ligar as ações descritas a uma estratégia de resistência
Duas ações concretas aparecem no texto: (1) vender madeira à Corte, produto de alto valor no Rio de Janeiro em expansão urbana; (2) trabalhar como jornaleiros em fazendas cujos donos sabidamente empregavam fugidos. Ambas são formas de inserção na economia mercantil — o quilombola participa do mercado como fornecedor e força de trabalho, obtendo renda e tolerância de fazendeiros interessados em mão de obra barata. Essa articulação econômica é, ela mesma, a estratégia de resistência: ao se tornar útil na economia local, o quilombo aumenta suas chances de sobrevivência sem depender só do confronto.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando com as alternativas, apenas a que fala em "articulação à economia mercantil" traduz com precisão comércio de madeira + trabalho assalariado em fazendas. Nenhuma das demais corresponde às ações citadas no texto (não há menção a indígenas, ocupação de terra senhorial, bandeirantes ou compra formal de alforria). O resultado converge para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Combate à cultura indígena.
❌ Incorreta: o texto não menciona povos indígenas em nenhum momento; a relação descrita é entre quilombolas, a Corte (compradora de madeira) e fazendeiros (empregadores).
B) Apropriação da terra senhorial.
❌ Incorreta: o texto fala em desbravamento de florestas "além da zona de penetração dos brancos", ou seja, os quilombolas ocupavam mata ainda não incorporada à propriedade senhorial; não há relato de tomada de terras.
C) Repúdio às forças bandeirantes.
❌ Incorreta: bandeirantes foram agentes coloniais dos séculos XVI-XVIII (como na destruição de Palmares); o texto trata do Rio de Janeiro do século XIX e não menciona bandeirantes.
D) Compra da emancipação definitiva.
❌ Incorreta: o texto não fala em alforria comprada nem em processo formal de emancipação jurídica; a sobrevivência descrita é econômica e informal (comércio e trabalho).
E) Articulação à economia mercantil.
✅ Correta: o comércio de madeira com a Corte e o trabalho assalariado em fazendas comprovam exatamente essa inserção dos quilombolas na lógica de mercado da época.
🏆 Gabarito: E — o texto descreve, de forma explícita, quilombolas vendendo madeira e trabalhando em fazendas, ou seja, inserindo-se na economia mercantil da região como forma de garantir sua permanência livre.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa E descreve com fidelidade as duas ações do texto (venda de madeira e trabalho em fazendas), formas de participação na economia de mercado — não de confronto, ocupação de terra ou alforria formal.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de historiadores como João José Reis para desconstruir a visão do quilombo isolado, cobrando a percepção de que a resistência escrava tinha múltiplas faces: fuga, revolta, negociação, comércio e trabalho assalariado.
- Generalização: em questões sobre quilombos, volte ao texto-base e identifique o verbo de ação (vender, negociar, trabalhar, aliar-se, fugir, combater) — ele indica diretamente o tipo de estratégia cobrada, sem exigir conhecimento decorado.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que cite sujeitos ausentes do texto (indígenas, bandeirantes, terra senhorial, alforria formal) — nenhum deles aparece nas evidências do enunciado, restando apenas a opção sobre inserção mercantil.
- Conexões: historiografia de Palmares e revisão sobre quilombos; economia escravista urbana do Rio de Janeiro joanino e imperial.
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