Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 86ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

Eis o ensinamento de minha doutrina: “Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever —, pois, em todo caso, você reviverá! Aquele que ama antes de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba para o que dirige sua preferência, e não recue diante de nenhum meio! É a eternidade que está em jogo!”.

NIETZSCHE apud FERRY, L. Aprender a viver: filosofia para os
novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010 (adaptado).

Qual conduta se mostra alinhada à proposta nietzscheana apresentada no texto?

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Nietzsche, niilismo e afirmação da vida
  • ⚡ Nível: Difícil — exige reconhecer, dentro de um vocabulário técnico da filosofia (trágico, utópico, resignado, transcendente, saudosista), qual noção corresponde ao conceito nietzschiano de eterno retorno e amor fati
  • 🎯 Tema/Habilidade: Eterno retorno e afirmação trágica da existência — competência de reconhecer posições filosóficas a partir da leitura de um fragmento de texto
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que tipo de conduta diante da vida o texto de Nietzsche está defendendo?"
  • Palavras-chave decisivas: "desejar reviver", "você reviverá", "eternidade"
  • Armadilha típica: confundir "eternidade" com uma promessa religiosa de vida após a morte (alternativa D) ou "reviver" com um apego nostálgico ao passado (alternativa E) — Nietzsche está falando de outra coisa: da repetição do presente, não de um além ou de uma volta ao que já passou.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que o eterno retorno é um teste existencial sobre o presente vivido, e que a resposta afirmativa a esse teste é uma atitude trágica, não passiva nem escapista.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eterno retorno: hipótese (ora cosmológica, ora ético-existencial) de que tudo o que existe se repetirá infinitas vezes, exatamente do mesmo modo. Nietzsche a converte em critério de ação: viva cada instante como se ele fosse se repetir para sempre — só assim ele se torna digno de ser revivido.
  • Amor fati ("amor ao destino"): a atitude de dizer sim à totalidade da existência, incluindo dor, perda e finitude, sem negar ou reformular a realidade para torná-la mais suportável.
  • Concepção trágica da existência: herdada da leitura que Nietzsche faz da tragédia grega (em especial em O Nascimento da Tragédia), é a capacidade de afirmar a vida mesmo reconhecendo seu caráter de sofrimento e impermanência — o oposto de negar o mundo em nome de um ideal, de um paraíso ou de uma vida futura.
  • Crítica nietzschiana à metafísica e à religião: Nietzsche rejeita qualquer doutrina que desvalorize o presente terreno em favor de um "mundo verdadeiro" transcendente (o platonismo e o cristianismo, na leitura dele, fazem isso). Por isso sua ética é radicalmente imanente: o valor da vida se decide aqui e agora, não em outro plano.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever" → isto é o próprio enunciado do eterno retorno como imperativo ético: a vida deve ser vivida de modo que sua repetição idêntica seja algo desejável, não temido.
  • Evidência 2: "em todo caso, você reviverá!" → não há escolha sobre a repetição em si (ela é dada como certeza), o que está em jogo é a qualidade da vida que será repetida — logo, o texto empurra o leitor para o presente concreto, não para um ideal futuro nem para uma saudade do passado.
  • Evidência 3: "É a eternidade que está em jogo!" → a eternidade aqui não é um paraíso metafísico, mas a repetição infinita deste mesmo instante presente — Nietzsche reencaminha o conceito de eternidade, tradicionalmente ligado ao transcendente religioso, para dentro da própria vida terrena.
  • Síntese: as três evidências convergem para uma única exigência: assumir o presente, com tudo o que ele tem de duro e definitivo, como digno de ser eternamente repetido. Essa é a definição precisa de uma conduta trágica pela afirmação do presente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo filosófico do fragmento

O trecho é um excerto célebre em que Nietzsche formula o eterno retorno não como uma tese cosmológica a ser debatida cientificamente, mas como um teste prático de vida: "e se você tivesse de viver este mesmo instante, exatamente assim, infinitas vezes?". A pergunta funciona como um filtro ético — só passa por ele quem vive de modo intenso, presente e sem arrependimento, porque só essa vida suporta ser desejada em repetição eterna.

Subpasso 4.2 — Classificar o tipo de conduta exigida

Para Nietzsche, a resposta correta a esse teste não é fugir do presente (nem para um futuro idealizado, nem para um passado saudoso, nem para um além religioso), mas afirmá-lo tal como ele é, com toda a sua dureza e finitude. Essa afirmação da existência mesmo diante do sofrimento e da ausência de garantias é o que a tradição filosófica chama de "visão trágica" — trágica não porque é triste, mas porque olha de frente para o caráter irrecuperável e não idealizado da vida e, ainda assim, diz sim a ela. É o famoso amor fati.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando a conduta identificada ("trágica, pela afirmação do presente") com as cinco alternativas, apenas a opção B nomeia exatamente esse par conceitual: tipo de conduta = trágica; justificativa = afirmação do presente. Nenhuma outra alternativa combina corretamente o adjetivo com sua justificativa à luz do texto, o que confirma a convergência com o gabarito.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Utópica, pela projeção do ideal.

❌ Incorreta: a conduta utópica projeta um ideal a ser alcançado no futuro, uma vida melhor ainda por vir. O texto de Nietzsche faz exatamente o oposto — recusa qualquer fuga para um ideal e exige que o valor da vida seja decidido no instante presente, tal como ele já é.

B) Trágica, pela afirmação do presente.

✅ Correta: o eterno retorno funciona como critério para uma ética da afirmação: viver de modo a desejar reviver cada instante é assumir, sem retoques nem fugas, a vida presente em sua totalidade — inclusive o sofrimento e a finitude. Essa aceitação ativa e afirmativa da existência, sem negar sua dureza, é o que caracteriza a concepção trágica nietzschiana, associada ao conceito de amor fati.

C) Resignada, pela aceitação da realidade.

❌ Incorreta: resignação é aceitação passiva, conformada, quase derrotista diante do que não se pode mudar. A proposta nietzschiana é o contrário disso: é vontade de potência, afirmação ativa e desejante ("ter de desejar reviver"), não mera resignação diante do inevitável.

D) Religiosa, pela conexão ao transcendente.

❌ Incorreta: Nietzsche é um crítico contundente da metafísica religiosa e da ideia de um mundo transcendente que desvaloriza a vida terrena. A "eternidade" do texto não remete a um além, a uma alma imortal ou a uma salvação divina, mas à repetição infinita do próprio mundo imanente e presente.

E) Saudosista, pela vinculação às reminiscências.

❌ Incorreta: saudosismo é apego ao passado, desejo de reviver o que já se foi por nostalgia. O texto não olha para trás: ele projeta a repetição do presente vivido agora, tornando irrelevante qualquer lamento ou idealização de tempos anteriores.

🏆 Gabarito: B — a conduta alinhada à proposta nietzschiana é trágica, pois consiste em afirmar o presente em sua totalidade, sem fuga para o ideal (A), sem passividade resignada (C), sem apelo ao transcendente (D) e sem nostalgia do passado (E).

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra B é a única que une corretamente o rótulo filosófico ("trágica") à sua justificativa textual ("afirmação do presente"), espelhando com precisão o teste do eterno retorno proposto no fragmento.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer Nietzsche associado aos conceitos de eterno retorno, vontade de potência, amor fati e crítica à moral e à metafísica tradicionais (platonismo e cristianismo), sempre pedindo que o candidato reconheça a valorização da vida terrena e presente em oposição a qualquer ideal transcendente.
  • Generalização: sempre que um texto nietzschiano falar em "reviver", "eternidade" ou "instante", desconfie de alternativas que remetam a futuro idealizado, passado nostálgico ou plano religioso — a chave de leitura nietzschiana é quase sempre a afirmação radical do aqui e agora.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que fale em "transcendente" (D) ou "ideal projetado no futuro" (A), pois Nietzsche é justamente o filósofo da crítica à transcendência; em seguida, descarte "resignação" (C) e "saudade" (E), que descrevem posturas passivas ou voltadas ao passado, incompatíveis com a vontade afirmativa que move o eterno retorno.
  • Conexões: Assim Falou Zaratustra (a doutrina do eterno retorno e do super-homem); O Nascimento da Tragédia (a origem do conceito de trágico em Nietzsche, a partir da tragédia grega e da dupla apolíneo/dionisíaco).

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.