Mapa de questões · 1º dia
Questão 33 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Num mundo ideal, o cronista funcionaria como o paciente de Lacan. Ficaria por aí, tocando sua vida, indo ao banco, almoçando no quilo, olhando vitrines atrás de um presente de Dia das Mães, até que surgisse uma ideia. Imediatamente, ele encontraria uma praça, se acomodaria num banco — se possível fosse, até alugaria um quartinho de hotel —, tiraria o laptop da mochila e escreveria seu texto, com todos os ingredientes colhidos na hora.
Um romancista não precisa levar o laptop na mochila. Suas ideias podem amadurecer antes de ir pro papel. Ele está contando uma longa história, é bom que tenha algumas pistas de para onde está indo. Já o cronista, quanto mais cego ao iniciar seu passeio, maiores as chances de conhecer lugares novos no caminho.
Nesse texto, a reflexão acerca dos processos de elaboração que resultam em crônica ou em romance baseia-se na
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → gêneros literários (crônica e romance); processo de criação textual
- ⚡ Nível: Médio — exige comparar dois processos de composição descritos de forma metafórica, sem que o texto nomeie diretamente o critério de comparação
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento das especificidades de gêneros literários a partir da forma como cada um constrói (ou "dá corpo a") sua matéria temática
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Em que aspecto se apoia a comparação entre o modo de compor uma crônica e o modo de compor um romance?"
- Palavras-chave decisivas: "até que surgisse uma ideia", "ideias podem amadurecer antes de ir pro papel", "com todos os ingredientes colhidos na hora"
- Armadilha típica: confundir o eixo da comparação com "personalidade do escritor" (impacto psicológico) ou com "técnica narrativa idêntica" (semelhança formal), quando na verdade o texto fala do momento e do modo de gestação da ideia, não da psicologia do autor nem da estrutura do texto pronto
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que o cronista e o romancista partem de temporalidades de criação opostas — uma temática que nasce e se resolve no ato da escrita versus uma temática que é planejada e amadurecida antes da escrita — e que essa oposição é o próprio fio condutor do texto
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica: gênero literário breve, geralmente publicado em jornais ou revistas, marcado pela captura do cotidiano e por uma composição rápida, quase improvisada, em que o autor parte de um flagrante do dia a dia e escreve "com todos os ingredientes colhidos na hora"
- Romance: narrativa longa, de maior fôlego, que costuma exigir planejamento prévio de enredo, personagens e desfecho — por isso o texto diz que o romancista "está contando uma longa história" e precisa ter "pistas de para onde está indo"
- Processo de criação (elaboração composicional): conjunto de etapas mentais e práticas pelas quais um autor transforma uma ideia em texto; no caso da crônica esse processo é instantâneo e reativo ao acaso do passeio, no caso do romance é deliberado e antecipado
- Metáfora do "paciente de Lacan": recurso de linguagem que compara o cronista a alguém em livre associação — deixa a mente vagar sem roteiro até que um estímulo do cotidiano dispare a ideia, reforçando a ideia de espontaneidade
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ficaria por aí, tocando sua vida [...] até que surgisse uma ideia [...] escreveria seu texto, com todos os ingredientes colhidos na hora" → mostra que, na crônica, o tema não é escolhido antes: ele emerge da observação do cotidiano e é transformado em texto quase simultaneamente ao momento em que aparece
- Evidência 2: "Suas ideias podem amadurecer antes de ir pro papel [...] é bom que tenha algumas pistas de para onde está indo" → mostra que, no romance, o tema é trabalhado mentalmente antes da escrita, com planejamento de rumo e desenvolvimento
- Síntese: as duas evidências não falam de técnica de linguagem, nem de emoção do autor, nem de imitação de estilos alheios — falam do momento e do modo como a ideia (a temática) se transforma em obra: instantânea e não planejada na crônica, amadurecida e antecipada no romance. Esse é exatamente o critério "forma como as temáticas ganham corpo na obra"
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o objeto da comparação
O texto não compara crônica e romance quanto à extensão, ao vocabulário ou à técnica narrativa (foco, narrador, tempo verbal etc.). Ele compara os dois gêneros quanto ao processo pelo qual a ideia — a temática — se converte em texto. Repare que o autor usa duas imagens muito específicas: o cronista comparado ao "paciente de Lacan" (associação livre, sem roteiro) e o romancista como alguém que precisa de "pistas de para onde está indo" (planejamento). Ambas as imagens giram em torno de quando e como o tema aparece e se desenvolve, não em torno de características formais do texto finalizado.
Subpasso 4.2 — Isolar o critério comum às duas descrições
Ao ler as duas descrições lado a lado, o padrão que se repete é: "a temática surge no exato momento da escrita" (crônica) versus "a temática é elaborada antes da escrita" (romance). Esse é um raciocínio sobre a gênese e o amadurecimento da matéria temática dentro do processo de composição — ou seja, sobre "a forma como as temáticas ganham corpo na obra". Não se trata de comparar impacto psicológico, nem semelhança de estrutura, nem imitação de outros autores: o único fio que sustenta a comparação inteira é o momento/modo de elaboração do tema.
Subpasso 4.3 — Verificação
Basta reler a frase de fechamento do texto: "Já o cronista, quanto mais cego ao iniciar seu passeio, maiores as chances de conhecer lugares novos no caminho." Essa frase reforça, mais uma vez, que o eixo é o processo temático — "cego ao iniciar" (sem tema definido) versus "pistas de para onde está indo" (tema definido antes). Confirma-se, portanto, que a alternativa que fala em "forma como as temáticas ganham corpo na obra" (C) é a única que descreve com precisão esse eixo comparativo.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) semelhança formal dos elementos narrativos.
❌ Incorreta: o texto não trata de elementos formais (narrador, foco narrativo, estrutura de capítulos, tempo verbal). Pelo contrário, ele evidencia uma diferença — não uma semelhança — no processo de composição dos dois gêneros.
B) força do impacto psicológico sobre o cronista.
❌ Incorreta: embora o texto use a imagem do "paciente de Lacan" (referência à psicanálise), essa comparação é usada apenas como metáfora do método de associação livre de ideias, não para discutir o efeito psicológico que a escrita causa no cronista. Não há qualquer menção a sofrimento, catarse ou impacto emocional resultante do ato de escrever.
C) forma como as temáticas ganham corpo na obra.
✅ Correta: é exatamente esse o critério explorado ao longo de todo o texto — como o tema da crônica nasce e se resolve no instante do passeio (colhido "na hora"), enquanto o tema do romance é planejado e amadurecido antes de chegar ao papel. A comparação inteira gira em torno do processo de elaboração temática.
D) conformidade com estilos de outros escritores.
❌ Incorreta: o texto não faz nenhuma referência a outros autores, escolas literárias ou tradições estilísticas a serem seguidas ou imitadas. A comparação é interna, entre os dois gêneros descritos, sem menção a modelos externos.
E) organização prévia dos recursos expressivos.
❌ Incorreta: essa organização prévia é característica apenas do romance ("pistas de para onde está indo"); a crônica é definida justamente pela ausência de organização prévia — o cronista começa "cego", sem planejamento. Generalizar essa ideia para os dois gêneros contraria o próprio texto.
🏆 Gabarito: C — a reflexão do texto se sustenta inteiramente na oposição entre uma temática que emerge e se resolve no instante da escrita (crônica) e uma temática que é planejada e amadurecida antes dela (romance), ou seja, na forma como as temáticas ganham corpo na obra.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa C nomeia o critério real da comparação — o processo pelo qual o tema se transforma em texto —, enquanto as demais alternativas introduzem elementos (forma narrativa, psicologia, imitação de estilo, organização válida para os dois gêneros) que o texto não sustenta.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra questões que pedem para identificar as especificidades de gêneros literários (crônica, conto, romance, poema) a partir de textos que descrevem o processo de criação ou as convenções de cada gênero, e não apenas suas características formais isoladas.
- Generalização: sempre que um texto compara dois gêneros ou dois processos de escrita, procure o verbo e o momento da ação (quando a ideia surge, quando é planejada, quando é escrita) — esse costuma ser o critério real de comparação, mais confiável do que impressões subjetivas sobre estilo ou emoção.
- Dica de eliminação rápida: descarte de cara qualquer alternativa que fale de "outros autores" (o texto compara só dois gêneros entre si) e qualquer alternativa que fale de "emoção/psicologia" quando a metáfora psicanalítica for apenas recurso de estilo, não o assunto central do texto.
- Conexões: gêneros literários (crônica × conto × romance); metalinguagem sobre o processo de criação literária; interpretação de metáforas em textos argumentativos/dissertativos.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.