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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 11ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

A rua

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.

JOÃO DO RIO. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.

Nesse trecho, as metáforas usadas pelo narrador caracterizam a rua como um lugar que retrata a

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → crônica; figuras de linguagem (metáfora); literatura urbana da Belle Époque
  • ⚡ Nível: Médio — exige decodificar uma cadeia de metáforas e identificar o eixo semântico comum a todas elas, sem se distrair por detalhes secundários (como a menção ao canto)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido produzidos por figuras de linguagem em texto literário (competência de leitura e análise de recursos expressivos — Linguagens, ENEM)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que as metáforas do texto revelam sobre a natureza da rua?"
  • Palavras-chave decisivas: metáforas, caracterizam, retrata
  • Armadilha típica: prender-se a um único elemento vívido do texto — o canto dos pedreiros ("melopeia tão triste") — e concluir erroneamente que o tema é a música ou a emoção isolada, ignorando que esse detalhe está subordinado a uma ideia maior: o trabalho que constrói a cidade.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler metáforas não isoladamente, mas como uma rede de sentido que converge para um único eixo temático — nesse caso, o corpo trabalhador que ergue e humaniza o espaço urbano.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Metáfora: figura de linguagem que transfere sentido de um campo semântico a outro por semelhança implícita, sem conectivos comparativos ("como", "tal qual"). Em "a rua nasce, como o homem, do soluço" há símile explícita, mas em "suor humano na argamassa" e "miséria da criação" o cruzamento entre corpo humano e matéria de construção é metafórico e implícito.
  • Personificação: variante da metáfora em que se atribuem qualidades humanas a um elemento inanimado — aqui, a rua "nasce", "sente nos nervos", tem "miséria da criação": ela é tratada como um organismo vivo, gerado pelo esforço físico de quem a constrói.
  • Crônica urbana da Belle Époque: gênero praticado por João do Rio (pseudônimo de Paulo Barreto) no início do século XX, que retrata o Rio de Janeiro em transformação, dando voz literária a espaços e personagens populares — como operários, pedreiros e a própria rua — normalmente invisibilizados pela literatura oficial da época.
  • Trabalho como fundação do espaço urbano: conceito-chave do trecho — a cidade não é vista como um dado natural ou estético, mas como produto material do esforço físico coletivo: "cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres".

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Há suor humano na argamassa do seu calçamento" → a metáfora funde o corpo do trabalhador (suor) à própria matéria física da rua (argamassa), mostrando que a construção urbana é literalmente feita de esforço humano.
  • Evidência 2: "Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres" e "pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor" → reforça, com imagem concreta, que a edificação da cidade é um processo coletivo e fisicamente extenuante, protagonizado por trabalhadores anônimos.
  • Evidência 3: "A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas" → a personificação da rua como um corpo que "sente" o sofrimento do trabalho é o fecho argumentativo: por nascer do suor de todos, indistintamente, a rua se torna símbolo de igualdade — não porque exista disputa ou conflito, mas porque o esforço construtivo é comum a todos os que nela trabalham.
  • Síntese: as três evidências formam uma progressão coesa — do material (argamassa) ao humano (pedreiros suados) e daí ao simbólico (rua igualitária) —, e o elo que as une, do início ao fim, é o trabalho físico como força que constitui e dá sentido ao espaço urbano.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear o campo semântico dominante

Percorrendo o texto, praticamente todo substantivo e verbo de peso pertence ao campo semântico do labor físico: "soluço", "espasmo", "suor", "argamassa", "esforço exaustivo", "erguer as pedras", "cobertos de suor", "miséria da criação". Não há vocabulário de disputa (não há "luta", "rivalidade", "hierarquia"), nem vocabulário centrado em cultura, tradição ou música como eixo central — esses aparecem apenas como detalhe (a "melopeia" do canto dos operários), não como tema.

Subpasso 4.2 — Rastrear a lógica das metáforas

As metáforas do texto seguem uma lógica de equivalência: rua = corpo humano nascido do esforço (parto doloroso: "soluço", "espasmo"); calçamento = argamassa amassada com suor humano; casas = fruto do esforço exaustivo de muitos; e, por fim, a rua "sente" essa miséria da criação em seus "nervos" — ou seja, ela é o registro sensível de todo esse trabalho. Cada metáfora, isoladamente, já aponta para o mesmo referente: o processo de construção física da cidade pelo trabalho humano.

Subpasso 4.3 — Verificação

Se todas as metáforas apontam consistentemente para o mesmo referente — o suor, o esforço, a edificação —, a única alternativa que nomeia esse referente com precisão é aquela que fala em "dinâmica do trabalho na constituição do espaço urbano": o texto não descreve uma disputa por status, nem uma mudança de costumes, nem emoções contraditórias, nem uma tradição musical — descreve o processo (dinâmica) pelo qual o trabalho humano dá origem (constitui) à cidade.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) luta pelas posições sociais.

❌ Incorreta: o texto afirma exatamente o oposto de uma disputa — a rua é chamada de "a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas" justamente porque o trabalho iguala, e não separa, os que a constroem. Não há vocabulário de conflito ou hierarquia social no trecho.

B) transformação cultural da cidade.

❌ Incorreta: o texto não trata de mudança de costumes, valores ou práticas culturais ao longo do tempo; ele é estático no sentido de descrever uma condição permanente da rua (sua origem no trabalho), não um processo de transformação cultural.

C) expressão de emoções conflitantes.

❌ Incorreta: há dor associada ao esforço ("soluço", "espasmo", "miséria da criação"), mas não há conflito entre emoções distintas — a tristeza do canto dos operários e a dor da criação convergem para o mesmo sentimento: o peso do trabalho físico, sem contradição emocional entre si.

D) tradição musical presente em uma localidade.

❌ Incorreta: o canto dos pedreiros ("melopeia tão triste") é um detalhe pontual usado para ilustrar o sofrimento do trabalho, não o tema central do trecho; tomá-lo como eixo principal é confundir um exemplo com a ideia geral que ele serve para sustentar.

E) dinâmica do trabalho na constituição do espaço urbano.

✅ Correta: todas as metáforas — suor na argamassa, esforço exaustivo nas casas, pedreiros cobertos de suor, a rua que "sente" essa miséria — convergem para mostrar que o espaço urbano (ruas, casas, calçamento) é constituído pelo trabalho físico humano, e é exatamente esse processo, essa "dinâmica", que o narrador metaforiza do início ao fim do trecho.

🏆 Gabarito: E — as metáforas do texto (corpo, suor, argamassa, esforço) formam uma cadeia coesa que caracteriza a rua como produto direto do trabalho humano, tornando-a símbolo de igualdade entre os que a constroem.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra E é a única alternativa que nomeia com exatidão o referente comum a todas as metáforas do texto — o trabalho físico como força constituinte do espaço urbano —, enquanto as demais isolam detalhes secundários (canto, emoção, cultura) ou invertem o sentido do texto (disputa social).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos de cronistas do início do século XX (João do Rio, Lima Barreto, entre outros) que retratam a cidade sob a ótica do trabalho popular e da desigualdade social urbana; a pergunta costuma pedir a identificação do efeito de sentido de figuras de linguagem, não apenas seu reconhecimento formal.
  • Generalização: em questões sobre metáfora/figuras de linguagem, nunca analise a imagem isoladamente — procure o fio condutor que se repete em todas as ocorrências do recurso ao longo do trecho; a alternativa correta costuma nomear esse fio condutor, não um exemplo pontual dele.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que contradiga uma afirmação explícita do texto (aqui, "luta" contradiz "a mais igualitária... niveladora") e qualquer alternativa que transforme um detalhe ilustrativo (o canto) no tema central da questão.
  • Conexões: João do Rio e a crônica urbana carioca da Belle Époque; textos sobre desigualdade e trabalho na formação das cidades (compare com Lima Barreto e Euclides da Cunha, também recorrentes em provas de Linguagens do ENEM).

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