Mapa de questões · 1º dia
Questão 31 — ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia
Recado
Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar, mais eu falo
Mas se me der a mão claro aperto
Se for franco direto e aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto
Mas preste bem atenção seu moço
Não engulo a fruta e o caroço
Minha vida é tutano é osso
Liberdade virou prisão
Se é amor, deu e recebeu
Se é suor, só o meu e o seu
Verbo eu, pra mim já morreu
Quem mandava em mim nem nasceu
É viver e aprender
Vá viver e entender, malandro
Vá compreender,
Vá tratar de viver
Nessa letra de canção, há um tom de ameaça que é evidenciado na recorrência de
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto e efeitos de sentido de recursos linguísticos (orações condicionais) em letra de canção
- ⚡ Nível: Fácil — basta perceber a repetição do padrão "Se... eu..." espalhado pela letra e relacioná-lo ao efeito de ameaça
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer o recurso sintático-semântico recorrente que constrói um efeito de sentido específico (tom de ameaça/advertência) em texto poético-musical
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso linguístico, repetido ao longo da letra, é responsável por criar o clima de ameaça no texto?"
- Palavras-chave decisivas: recorrência, tom de ameaça, evidenciado
- Armadilha típica: confundir a oração condicional (relação lógica "se... então...") com o paralelismo sintático (repetição da mesma forma frasal), já que na letra as duas coisas coexistem — as condicionais também formam frases parecidas entre si. É preciso identificar qual dos dois recursos é a causa do sentido de ameaça, e qual é apenas consequência formal.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ligar um recurso gramatical específico ao efeito de sentido (ameaça) que ele produz no texto, e não apenas descrever uma característica estrutural genérica da letra.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Oração subordinada adverbial condicional: período em que a oração iniciada por "se" expressa uma hipótese da qual depende o fato da oração principal. Fórmula: "Se [hipótese], [consequência]."
- Tom de ameaça/advertência (ultimato): nasce quando se anuncia, de antemão, uma reação forte condicionada a uma atitude do interlocutor — o clássico "se você fizer isso, eu farei aquilo".
- Paralelismo sintático: repetição da mesma estrutura gramatical em frases sucessivas, usada para dar ritmo ou ênfase ao texto. É recurso de forma, podendo ocorrer em frases condicionais ou não.
- Diferença-chave: o paralelismo explica por que as frases soam parecidas; a condicional explica por que o texto ameaça. O enunciado pergunta pelo segundo efeito.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Se me der um beijo eu gosto / Se me der um tapa eu brigo / Se me der um grito não calo / Se mandar calar, mais eu falo" → quatro orações condicionais em sequência, cada uma opondo uma ação do interlocutor (beijo, tapa, grito, ordem de silêncio) a uma reação do eu lírico, crescendo em tensão — do afeto ao confronto aberto.
- Evidência 2: "Mas se me der a mão claro aperto / Se for franco direto e aberto" → o mesmo padrão condicional se mantém mesmo quando o discurso passa da ameaça para a reciprocidade, provando que a lógica "se X, então Y" é o fio condutor de toda a argumentação do eu lírico: "sua atitude determina a minha reação".
- Síntese: a cada nova estrofe, o eu lírico usa a fórmula "se você fizer/for X, eu reajo com Y" para deixar claro, antecipadamente, que reações de confronto (brigar, não calar, revidar) estão sempre condicionadas a uma provocação do outro. Essa lógica de causa e consequência, repetida à exaustão, é o que sustenta o tom de aviso/ameaça da canção.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapeando a recorrência estrutural
Percorra a letra verso a verso e marque toda ocorrência da partícula "se" no início do período: "Se me der um beijo", "Se me der um tapa", "Se me der um grito", "Se mandar calar", "se me der a mão", "Se for franco". São seis ocorrências apenas nas duas primeiras estrofes — repetição que não é acidental. O eu lírico constrói, verso a verso, uma espécie de "tabela de comportamento": para cada atitude possível do interlocutor, ele já declara qual será sua resposta.
Subpasso 4.2 — Identificando o efeito de sentido gerado
Repare na assimetria das reações dentro de cada condicional: a um beijo, "gosto" (reação positiva); a um tapa, "brigo"; a um grito, "não calo"; a uma ordem para calar, "mais eu falo" (a reação não recua, intensifica). Esse crescendo — sempre embutido na estrutura "se X, eu Y" — é o mecanismo que produz o tom de ameaça: cada condicional funciona como um aviso prévio, do tipo "se você fizer isso, saiba desde já qual será minha resposta". É a lógica de qualquer discurso de ultimato ou desafio no cotidiano.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confronte a conclusão com as alternativas: o recurso que se repete sistematicamente e carrega, em seu próprio significado, a ideia de "aviso do que vai acontecer caso o outro aja de determinada forma" é a estrutura condicional. O paralelismo sintático até está presente como traço formal (as orações têm formato semelhante), mas é efeito colateral da repetição das condicionais — não é ele que gera o sentido de ameaça, e sim a relação lógica hipótese → consequência que cada condicional expressa.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) estruturas condicionais.
✅ Correta: a letra usa repetidamente a fórmula "Se [ação do outro], [reação do eu lírico]", estabelecendo uma relação de causa e consequência preditiva. É esse mecanismo de "aviso antecipado da reação" que constrói o tom de ameaça/desafio percebido ao longo de toda a canção.
B) paralelismo sintático.
❌ Incorreta: é verdade que as orações condicionais têm estrutura semelhante entre si, o que tecnicamente configura um paralelismo — mas o efeito de ameaça não nasce da semelhança de forma entre as frases, e sim do conteúdo lógico-condicional (hipótese + consequência) que cada uma carrega. O paralelismo é recurso de estilo; a condicionalidade é o recurso semântico que efetivamente ameaça.
C) verbos no infinitivo.
❌ Incorreta: a letra não é dominada pelo infinitivo como recurso de ameaça; os verbos centrais aparecem no presente do indicativo ("gosto", "brigo", "calo", "falo", "aperto"), pois o eu lírico descreve reações imediatas e reais. Infinitivos surgem só nos versos finais ("É viver e aprender", "Vá viver e entender"), de tom conclusivo, não ameaçador.
D) períodos curtos.
❌ Incorreta: os versos de fato são curtos e diretos, contribuindo para o ritmo da canção, mas a brevidade da frase, isoladamente, não gera sentido de ameaça — poderia expressar qualquer outra emoção. É o conteúdo condicional embutido nesses períodos curtos que produz a ameaça, não a extensão da frase.
E) vocativo.
❌ Incorreta: o vocativo aparece isoladamente, em "Mas preste bem atenção seu moço", usado uma única vez para chamar a atenção do interlocutor. Sem recorrência ao longo do texto, não pode ser apontado como o elemento repetido responsável pelo tom de ameaça.
🏆 Gabarito: A — a recorrência da estrutura condicional "Se [ação do outro], [reação do eu lírico]" cria uma cadeia de avisos que sustenta, do início ao fim, o tom de ameaça da canção.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a estrutura condicional aparece de forma sistemática na letra e carrega, em seu próprio significado lógico, a ideia de "aviso do que acontecerá se X for feito" — marca central de qualquer discurso de ameaça ou ultimato.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente pede para identificar o recurso linguístico responsável por um efeito de sentido específico em textos literários, letras de canção, tirinhas ou charges — sempre exigindo que o candidato ligue "forma" a "efeito", e não apenas reconheça a forma isoladamente.
- Generalização: quando o enunciado pergunta qual recurso "evidencia" ou "reforça" determinado efeito de sentido (ironia, humor, ameaça, ambiguidade), busque o recurso cujo significado tem relação lógica direta com esse efeito — não necessariamente o mais visualmente repetitivo do texto.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que descrevem recursos pontuais, sem recorrência real no texto (aqui, o vocativo aparece uma única vez — fora); em seguida, entre os recursos de fato recorrentes, escolha aquele cujo conteúdo explica o efeito pedido (condicional vence paralelismo).
- Conexões: orações subordinadas adverbiais; funções da linguagem (função conativa/apelativa); recursos estilísticos e efeitos de sentido em letras de canção.
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