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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensArtesMédio

Questão 25ENEM 2024 PPLCaderno azul · 1º Dia

TEXTO I
Lá no bairro que eu moro
É tão triste os dias meus
Por eu ser um violeiro
Muita gente me ofendeu
Me chamam de vagabundo
Muita tristeza me deu
Mas eu sou encorajado
Eu rezo pra São Mateus
Cantando eu não faço mal
Porque estou louvando a Deus

TEXTO II
USP tem primeiro curso de Viola Caipira do mundo. Os alunos que prestaram o vestibular 2005 para o curso de Música na Escola de Comunicações e Artes da USP, em Ribeirão Preto, tiveram mais uma opção: o bacharelado em Viola Caipira. Segundo o professor do curso, Ivan Vilela, existe um interesse cada vez maior pela viola caipira, pois “as pessoas se voltam para suas origens. Hoje encontramos a viola não só na música de raiz, mas na música erudita, na música pop e até mesmo em bandas de rock”.

A maneira como a viola caipira é abordada nos dois textos revela que esse instrumento cordófono dedilhado

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Artes → música brasileira, cultura popular e identidade regional (viola caipira)
  • ⚡ Nível: Médio — exige comparar dois textos de gêneros diferentes (canção popular e reportagem) para captar um contraste de sentido que nenhum dos dois, isoladamente, entrega
  • 🎯 Tema/Habilidade: Relações de sentido entre textos de gêneros distintos sobre um mesmo objeto cultural
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que os dois textos, lidos em conjunto, revelam sobre o lugar da viola caipira na cultura brasileira?"
  • Palavras-chave decisivas: abordada nos dois textos, cordofone dedilhado, revela
  • Armadilha típica: responder com base em apenas um dos textos — em geral só o Texto II, mais "informativo" e explícito — ignorando que a pergunta exige a leitura conjunta e contrastiva dos dois.
  • O que a resposta precisa demonstrar: percepção de que o mesmo instrumento é retratado de formas opostas nos dois textos — estigmatizado no Texto I, valorizado e institucionalizado no Texto II — e não uma simples continuidade, substituição ou extinção.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Cordofone dedilhado: classificação organológica de instrumentos de corda que soam por dedilhação (e não por arco ou percussão). A viola caipira tem dez cordas em cinco pares, afinações próprias (como "rio abaixo" ou "cebolão") e raiz ibérica adaptada à zona rural do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil.
  • Cultura caipira e estigma social: historicamente, o violeiro e sua música foram associados por parte da sociedade urbana a atraso, pobreza e marginalidade — daí a recorrência de termos como "vagabundo" e "matuto" na fala popular sobre o gênero.
  • Institucionalização da cultura popular: movimento, sobretudo a partir dos anos 1990–2000, de reconhecimento acadêmico de manifestações populares — cursos universitários, pesquisa etnomusicológica, presença em salas de concerto —, do qual o bacharelado da USP citado no Texto II é exemplo concreto.
  • Ivan Vilela: violeiro, professor e pesquisador, referência nos estudos sobre viola caipira no Brasil; sua fala no Texto II atesta a expansão do instrumento para a "música de raiz", a música erudita, o pop e o rock.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Muita gente me ofendeu... Me chamam de vagabundo" (Texto I) → o eu lírico, violeiro, relata ser socialmente estigmatizado por tocar viola; o instrumento aparece associado à marginalização.
  • Evidência 2: "USP tem primeiro curso de Viola Caipira do mundo" / "encontramos a viola não só na música de raiz, mas na música erudita, na música pop e até mesmo em bandas de rock" (Texto II) → o mesmo instrumento aparece agora com prestígio acadêmico e presença ampliada em diversos gêneros musicais, do popular ao erudito.
  • Síntese: um mesmo objeto cultural — a viola caipira — recebe tratamentos opostos nos dois textos: símbolo de exclusão social no Texto I, símbolo de reconhecimento cultural e acadêmico no Texto II. Esse contraste é o cerne da resposta correta.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o que cada texto diz sobre a viola caipira

No Texto I, de tom confessional e popular (uma moda de viola), o eu lírico narra a própria experiência: ser violeiro lhe trouxe ofensas e tristeza ("Tão triste os dias meus"), sendo chamado de "vagabundo". Ele resiste apoiando-se na fé — "Eu rezo pra São Mateus" — e afirma que cantar não faz mal, pois está "louvando a Deus". A defesa é pessoal e emocional: o instrumento surge ligado ao preconceito social sofrido por quem o toca.

No Texto II, de gênero jornalístico, a viola caipira é apresentada por meio de um dado institucional — a criação do bacharelado da USP em 2005 — e da fala de um especialista, Ivan Vilela, que descreve a expansão do instrumento para múltiplos contextos musicais: da "música de raiz" ao rock, passando pela música erudita e pelo pop.

Subpasso 4.2 — Comparar os dois tratamentos e testar a hipótese central

Colocando os textos lado a lado: no Texto I a viola é motivo de exclusão e estigma social; no Texto II ela é objeto de prestígio, pesquisa acadêmica e diversidade estética. Não se trata de uma simples "evolução linear" (como se antes fosse mal vista e agora, definitivamente, bem vista), mas da coexistência de leituras opostas sobre o mesmo instrumento, construídas em discursos diferentes — o que caracteriza precisamente "papéis antagônicos".

É esse antagonismo — marginalização de um lado, valorização e institucionalização de outro — que a leitura conjunta dos dois textos revela sobre a trajetória da viola caipira na música brasileira.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa síntese contra o comando ("a viola... revela que esse instrumento... assume papéis antagônicos na história da música brasileira"), a leitura combinada dos dois textos confirma exatamente essa tese: de instrumento estigmatizado (Texto I) a instrumento institucionalizado e plural (Texto II). Nenhuma outra formulação dá conta simultaneamente dos dois textos — o que aponta diretamente para a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) assume papéis antagônicos na história da música brasileira.

✅ Correta: é exatamente o contraste identificado — marginalização social no Texto I versus reconhecimento acadêmico e diversidade estilística no Texto II. Os dois textos, somados, mostram posições opostas ocupadas pelo mesmo instrumento ao longo do tempo.

B) substitui aqueles de uso tradicional em vários estilos musicais.

❌ Incorreta: nenhum dos textos menciona a viola caipira "substituindo" outro instrumento. O Texto II fala em presença da viola em vários gêneros — uma expansão, uma soma —, não em substituição de instrumentos já tradicionais nesses gêneros.

C) representa a extinta cultura tradicional de gerações passadas.

❌ Incorreta: contraria diretamente o Texto II, que mostra a viola caipira em plena expansão contemporânea, com um curso universitário criado em 2005 e presença crescente em vários gêneros — ou seja, tradição viva e em ascensão, não extinta.

D) depende de pesquisas para não desaparecer como tradição popular.

❌ Incorreta: generaliza indevidamente a partir de um único dado, o curso da USP. O Texto II não afirma que a sobrevivência da viola dependa de pesquisa acadêmica; a fala de Ivan Vilela descreve um interesse crescente e espontâneo ("as pessoas se voltam para suas origens"), não uma dependência de estudos para evitar o desaparecimento do instrumento.

E) subordina-se às manifestações musicais religiosas para continuar a ser tocado.

❌ Incorreta: generaliza um elemento presente apenas no Texto I — a fé do violeiro, "rezo pra São Mateus", "louvando a Deus" — como se fosse condição geral de sobrevivência do instrumento. O Texto II não menciona religião em nenhum momento; ali a viola aparece em contextos seculares (acadêmico, pop, rock, erudito).

🏆 Gabarito: A — a leitura conjunta dos dois textos revela um contraste, não uma continuidade, substituição, extinção ou dependência: a viola caipira ocupa, na história da música brasileira, tanto o lugar de símbolo estigmatizado quanto o de objeto de valorização acadêmica e artística — papéis antagônicos.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A dá conta, ao mesmo tempo, do estigma relatado no Texto I e do prestígio descrito no Texto II; as demais alternativas ou ignoram um dos textos, ou extrapolam informações que não estão neles.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente cruza um texto de expressão popular (cordel, canção, moda de viola, causo) com um texto jornalístico ou informativo sobre o mesmo tema, pedindo justamente o ponto de contraste ou de complementação entre os dois olhares.
  • Generalização: em comandos do tipo "os dois textos revelam que...", a resposta quase nunca está inteira em um dos textos — ela nasce do que muda, ou se opõe, entre um e outro. Desconfie de alternativas que só se sustentam com base em um único texto.
  • Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que dependa de um dado presente em apenas um dos dois textos — C e D só se apoiam no Texto II; E só se apoia no Texto I. Em questões comparativas, a resposta certa costuma exigir os dois textos para se sustentar.
  • Conexões: identidade cultural e preconceito de classe na música popular brasileira; institucionalização acadêmica de manifestações populares, como moda de viola, folia de reis e congado.

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