Mapa de questões · 1º dia
Questão 82 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Tomemos o exemplo de Sócrates: é precisamente ele quem interpela as pessoas na rua, os jovens no ginásio, perguntando: “Tu te ocupas de ti?” O deus o encarregou disso, é sua missão, e ele não a abandonará, mesmo no momento em que for ameaçado de morte. Ele é certamente o homem que cuida do cuidado dos outros: esta é a posição particular do filósofo.
FOUCAULT, M. Ditos e escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
O fragmento evoca o seguinte princípio moral da filosofia socrática, presente em sua ação dialógica:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Filosofia Antiga / Ética Socrática
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um trecho filosófico de Foucault sobre Sócrates e identificar o princípio moral implícito, sem que a resposta esteja escrita literalmente no texto.
- 🎯 Tema/Habilidade: O "cuidado de si" e o exame da própria vida na filosofia socrática; leitura e interpretação de texto filosófico.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual princípio moral da filosofia de Sócrates o fragmento de Foucault evoca?"
- Palavras-chave decisivas: "Tu te ocupas de ti?", "cuida do cuidado dos outros", "missão"
- Armadilha típica: confundir o método dialógico de Sócrates (ironia, indução ao impasse) com o princípio ético que orienta sua ação; alternativas como "ironizar o oponente" e "debater visando a aporia" soam familiares a quem estudou Sócrates, mas descrevem apenas técnicas, não o fim moral de sua missão.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a pergunta insistente de Sócrates — "cuidas de ti?" — expressa a exigência de que cada indivíduo examine e reflita sobre a própria vida antes de tudo.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Cuidado de si (epimeleia heautou): conceito central da ética socrática, retomado por Foucault, segundo o qual o indivíduo deve dedicar-se a conhecer e aperfeiçoar a própria alma antes de buscar riqueza, poder ou reputação.
- Vida examinada: na Apologia de Sócrates, de Platão, Sócrates declara que "uma vida sem exame não merece ser vivida" — é essa mesma convicção que move o Sócrates do fragmento a interpelar cidadãos e jovens.
- Método socrático (ironia + maiêutica): conjunto de recursos dialógicos (fingir ignorância, encadear perguntas) usados para conduzir o interlocutor à reflexão; são instrumentos do diálogo, não o princípio moral em si.
- Missão délfica: Sócrates se apresentava como incumbido por um deus — referência ao oráculo de Delfos e ao preceito "conhece-te a ti mesmo" — de despertar as pessoas para o autoexame, missão que ele mantém mesmo sob ameaça de morte.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "é precisamente ele quem interpela as pessoas na rua, os jovens no ginásio, perguntando: 'Tu te ocupas de ti?'" → revela que a ação socrática consiste em provocar cada pessoa a voltar-se sobre si mesma e avaliar como conduz a própria existência.
- Evidência 2: "Ele é certamente o homem que cuida do cuidado dos outros: esta é a posição particular do filósofo." → mostra que o papel do filósofo não é vencer debates nem humilhar adversários, mas incitar terceiros a cuidarem de si próprios, isto é, a examinarem sua vida.
- Síntese: as duas evidências convergem para o mesmo ponto — a missão moral do filósofo socrático é levar cada pessoa a examinar a própria vida; esse é o "cuidado de si" foucaultiano, distinto de ironia, sofisma, busca de aporia ou desprezo pelo outro.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do fragmento
O texto de Foucault descreve Sócrates como alguém investido de uma "missão": abordar pessoas comuns — na rua, no ginásio — e perguntar-lhes se elas "se ocupam de si". Essa pergunta não é uma armadilha lógica nem um jogo retórico; é um convite direto ao autoexame, ou seja, à reflexão sobre a própria conduta, os próprios valores e a própria alma.
Subpasso 4.2 — Relacionar a pergunta socrática ao princípio filosófico
Esse gesto de perguntar "tu te ocupas de ti?" traduz na prática o preceito délfico "conhece-te a ti mesmo" e a tese, defendida por Sócrates na Apologia, de que a vida não examinada não vale a pena ser vivida. Logo, o princípio moral evocado é o exame da própria vida: antes de correr atrás de riqueza, fama ou poder, o indivíduo deve investigar racionalmente como vive, o que pensa e o que valoriza.
Subpasso 4.3 — Verificação
Relendo o fragmento com essa chave, tudo se encaixa: Sócrates "cuida do cuidado dos outros" justamente ao incitá-los a se examinarem; a "missão" que ele "não abandonará mesmo sob ameaça de morte" é continuar convocando as pessoas ao autoexame. Comparando com as cinco alternativas, apenas a opção que fala em examinar a própria vida expressa esse princípio moral central; as demais descrevem procedimentos do método dialógico ou atitudes que o texto simplesmente não sustenta.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) Examinar a própria vida.
✅ Correta: é exatamente o que a pergunta "Tu te ocupas de ti?" propõe — convocar cada pessoa a refletir sobre a própria existência, seus valores e suas ações. Esse é o núcleo da ética socrática retomada por Foucault sob o nome de "cuidado de si", e é o único princípio moral, entre as opções, compatível com a missão descrita no fragmento.
B) Ironizar o seu oponente.
❌ Incorreta: a ironia socrática (fingir não saber para desmontar a falsa certeza do interlocutor) é uma ferramenta do método dialógico, não um "princípio moral". O fragmento tampouco descreve Sócrates ridicularizando ou vencendo adversários — ele fala em "cuidar do cuidado dos outros", postura de zelo, não de confronto irônico.
C) Sofismar com a verdade.
❌ Incorreta: o sofisma é justamente o que Sócrates combatia. Os sofistas manipulavam a retórica para vencer debates independentemente da verdade; Sócrates, ao contrário, buscava a verdade por meio do diálogo racional voltado ao autoconhecimento. Atribuir-lhe o sofisma inverte seu papel histórico.
D) Debater visando a aporia.
❌ Incorreta: a aporia (impasse, reconhecimento da própria ignorância) pode surgir como consequência do método socrático, mas não é o objetivo moral declarado no texto. O fragmento não fala em gerar impasses lógicos; fala em uma missão de fazer as pessoas cuidarem de si — algo formativo, não a mera paralisia argumentativa.
E) Desprezar a virtude alheia.
❌ Incorreta: o texto afirma exatamente o oposto — Sócrates "cuida do cuidado dos outros", ou seja, valoriza e estimula a virtude e o autoconhecimento alheios. Desprezar a virtude do outro contraria frontalmente sua "posição particular de filósofo" descrita no fragmento.
🏆 Gabarito: A — o fragmento evoca o princípio do exame da própria vida (cuidado de si), pois a missão de Sócrates, segundo Foucault, é fazer cada pessoa questionar como vive e cuida de si mesma.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A traduz fielmente a pergunta central do fragmento ("Tu te ocupas de ti?") como um princípio ético — o convite ao autoexame permanente —, e não uma técnica de debate ou uma atitude de desprezo.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra Sócrates a partir de textos de comentadores (Foucault, Marilena Chauí, Giovanni Reale) que exigem do candidato distinguir o método socrático (ironia, maiêutica) do conteúdo ético de sua filosofia (cuidado de si, busca da virtude, vida examinada).
- Generalização: em questões de filosofia antiga, separe sempre "como o filósofo argumenta" (forma/método) de "o que ele defende" (conteúdo/princípio); comandos que pedem "princípio moral" ou "ética" indicam que a resposta está no conteúdo, não na técnica retórica.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa com verbo de conotação negativa ou agressiva ("ironizar", "sofismar", "desprezar") quando o texto-base descreve uma atitude de "cuidado"; Sócrates é, na tradição filosófica, símbolo de zelo racional pelo outro, não de desdém.
- Conexões: o tema dialoga com "conhece-te a ti mesmo" (oráculo de Delfos), com a Apologia de Sócrates de Platão e com A Hermenêutica do Sujeito, de Michel Foucault, que resgata o cuidado de si como prática filosófica antiga.
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