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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 68ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia

O conhecimento é sempre aproximado, falível e, por isso mesmo, suscetível de contínuas correções. Uma justificação pode parecer boa, num certo momento, até aparecer um conhecimento melhor. O que define a ciência não será então a ilusória obtenção de verdades definitivas. Ela será antes definível pela prevalência da utilização, por parte dos seus praticantes, de instrumentalidades que o campo científico forjou e tornou disponíveis.  Ou seja, cada progressão no conhecimento que mostre o caráter errôneo ou insuficiente de conhecimentos anteriores não remete estes últimos para as trevas exteriores da não ciência, mas apenas para o estágio de conhecimentos científicos historicamente ultrapassados.

ALMEIDA, J. F. Velhos e novos aspectos da epistemologia das ciências sociais.
Sociologia: problemas e práticas, n. 55, 2007 (adaptado).

O texto desmistifica uma visão do senso comum segundo a qual a ciência consiste no(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Epistemologia / Teoria do Conhecimento (natureza do conhecimento científico)
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é denso e abstrato; exige identificar, por dedução, a crença de senso comum que o autor está desmontando, sem que ela apareça de forma explícita no enunciado.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Caráter provisório e falível do conhecimento científico — competência de área 3 (comparar diferentes explicações sobre a realidade e a natureza do saber científico)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual ideia equivocada, típica do senso comum, sobre o que é a ciência, esse texto derruba?"
  • Palavras-chave decisivas: falível, contínuas correções, ilusória obtenção de verdades definitivas
  • Armadilha típica: confundir o alvo da crítica do autor. O texto não fala em "consenso entre áreas" nem em "teses antagônicas convivendo" — fala em teorias que se sucedem no tempo porque nenhuma delas é definitiva. Quem lê rápido tende a marcar B ou C por associação solta com "ciência" e "conhecimento", sem checar se o texto realmente trata desses temas.
  • O que a resposta precisa demonstrar: entender que o autor rejeita a ideia de que a ciência produz verdades fixas e eternas, e que essa é justamente a crença ingênua que ele desmistifica.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Falibilismo científico: corrente epistemológica (associada a Karl Popper) segundo a qual nenhuma teoria científica é comprovada de forma absoluta e definitiva; toda teoria está sujeita a testes, refutações e revisões futuras.
  • Provisoriedade do saber científico: uma teoria é aceita enquanto explica melhor os fenômenos do que as alternativas disponíveis, não porque alcançou uma "verdade final". Quando surge explicação melhor, a anterior é superada, não destruída como "não ciência".
  • Historicidade da ciência: teorias ultrapassadas continuam pertencendo à história da ciência (ex.: física newtoniana após a relatividade); elas não se tornam "crendice", apenas um estágio anterior do conhecimento.
  • Senso comum sobre ciência: fora do meio acadêmico, é frequente a crença de que "ciência" é sinônimo de certeza absoluta, de leis fixas e imutáveis — exatamente o contrário do que a epistemologia contemporânea descreve.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O conhecimento é sempre aproximado, falível e, por isso mesmo, suscetível de contínuas correções." → o autor define o conhecimento científico pela sua instabilidade e revisão constante, não pela fixidez.
  • Evidência 2: "O que define a ciência não será então a ilusória obtenção de verdades definitivas." → o termo "ilusória" é a chave: o autor nomeia explicitamente como ilusão a crença de que a ciência chega a verdades definitivas — é exatamente essa ilusão que o senso comum costuma sustentar.
  • Evidência 3: "cada progressão no conhecimento [...] não remete estes últimos para as trevas exteriores da não ciência, mas apenas para o estágio de conhecimentos científicos historicamente ultrapassados." → reforça que teorias antigas seguem sendo ciência, só que superada — prova de que a ciência nunca foi, para o autor, um bloco de verdades estáticas.
  • Síntese: o texto define ciência pelo uso de métodos e instrumentos válidos de investigação, e não pela posse de teorias fixas e definitivas. Logo, a visão de senso comum desmistificada é justamente a de que a ciência seria um conjunto de teorias imutáveis.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese central do texto

O autor, tratando de epistemologia das ciências sociais, defende que todo conhecimento científico é aproximado e corrigível. Essa é a marca de uma epistemologia pós-positivista: a ciência avança por sucessivas aproximações e revisões — nunca por acúmulo definitivo de certezas absolutas.

Subpasso 4.2 — Relacionar a tese à "visão de senso comum" citada no comando

A questão pede a crença popular que o texto desconstrói. Fora da reflexão epistemológica, é comum imaginar a ciência como um corpo estável de leis já comprovadas e definitivas — "verdades científicas" tratadas como fatos permanentes e inquestionáveis, como se, uma vez publicada uma teoria, ela fosse verdade para sempre. É exatamente essa crença ingênua em teorias fixas e definitivas que o texto ataca ao afirmar que o conhecimento é "sempre aproximado, falível" e "suscetível de contínuas correções".

Subpasso 4.3 — Verificação

Procurando, entre as alternativas, aquela que descreve "a crença de que a ciência é um corpo de verdades fixas, que não mudam" — a alternativa A, "conjunto de teorias imutáveis", corresponde exatamente ao oposto do que o texto defende (teorias revisáveis, provisórias, históricas). Como a questão pede a visão de senso comum que o texto desmistifica, e o texto nega justamente a imutabilidade das teorias científicas, a resposta correta é a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) conjunto de teorias imutáveis.

✅ Correta: é exatamente a concepção de senso comum que o texto desconstrói. O autor afirma que o conhecimento científico é "sempre aproximado, falível" e sujeito a "contínuas correções" — o oposto de teorias fixas e definitivas. Ao chamar de "ilusória" a "obtenção de verdades definitivas", o texto nega diretamente que a ciência seja um conjunto de teorias imutáveis.

B) consenso de áreas diferentes.

❌ Incorreta: o texto não discute concordância ou diálogo entre diferentes áreas do conhecimento (interdisciplinaridade). Ele trata da natureza interna do saber científico — seu caráter provisório e corrigível —, e não de relações de consenso entre campos distintos do saber.

C) coexistência de teses antagônicas.

❌ Incorreta: o texto descreve uma sucessão histórica de teorias — conhecimentos "ultrapassados" sendo substituídos por conhecimentos melhores —, e não a convivência simultânea de teses opostas dentro da ciência. A lógica do texto é de substituição/superação, não de coexistência de antagonismos.

D) avanço das pesquisas interdisciplinares.

❌ Incorreta: interdisciplinaridade (integração entre disciplinas diferentes) não é o tema do texto. O foco é epistemológico: como se define a cientificidade de um saber e por que teorias antigas não deixam de ser ciência ao serem superadas — nada relacionado à integração entre áreas de conhecimento.

E) preeminência dos saberes empíricos.

❌ Incorreta: o texto não afirma que o conhecimento empírico (observacional, prático) prevalece sobre outros tipos de saber. Ele discute o estatuto epistemológico da ciência como um todo — sua provisoriedade —, sem contrapor saberes empíricos a saberes teóricos ou de outra natureza.

🏆 Gabarito: A — O texto desmistifica a crença de que a ciência é um conjunto fechado de teorias definitivas e imutáveis, mostrando que o conhecimento científico é falível, aproximado e está em permanente revisão histórica.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa A capta a ideia central do texto — a rejeição da crença de que ciência é sinônimo de verdades fixas e definitivas. As demais alternativas trazem temas (consenso entre áreas, teses antagônicas, interdisciplinaridade, empirismo) que simplesmente não são discutidos no trecho.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de epistemologia — muitas vezes parafraseando ou inspirados em Popper, Kuhn ou Bachelard — que contrastam a visão "cientificista" popular (ciência = verdade absoluta e definitiva) com a visão epistemológica contemporânea (ciência = processo falível, provisório e histórico).
  • Generalização: em questões de filosofia da ciência, desconfie de alternativas que descrevem "certeza", "verdade definitiva" ou "imutabilidade" como características da ciência quando o texto-base fala em revisão, correção ou provisoriedade — normalmente é justamente essa crença que está sendo negada ou desmistificada.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que o texto usar palavras como "falível", "aproximado", "correções" ou "provisório", elimine de cara qualquer alternativa que descreva algo fixo, consensual ou definitivo como se fosse afirmado pelo autor — a resposta certa costuma nomear justamente esse "fixo/definitivo" como a crença que está sendo desconstruída.
  • Conexões: compare com textos sobre os "paradigmas" de Thomas Kuhn (revoluções científicas) e sobre o critério de falseabilidade de Karl Popper — ambos aparecem com frequência no ENEM tratando do caráter não definitivo do conhecimento científico.

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