Mapa de questões · 1º dia
Questão 37 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Prezada senhorita,
Tenho a honra de comunicar a V. S. que resolvi, de acordo com o que foi conversado com seu ilustre progenitor, o tabelião juramentado Francisco Guedes, estabelecido à Rua da Praia, número 632, dar por encerrados nossos entendimentos de noivado. Como passei a ser o contabilista-chefe dos Armazéns Penalva, conceituada firma desta praça, não me restará, em face dos novos e pesados encargos, tempo útil para os deveres conjugais.
Outrossim, participo que vou continuar trabalhando no varejo da mancebia, como vinha fazendo desde que me formei em contabilidade em 17 de maio de 1932, em solenidade presidida pelo Exmo. Sr. Presidente do Estado e outras autoridades civis e militares, bem assim como representantes da Associação dos Varejistas e da Sociedade Cultural e Recreativa José de Alencar.
Sem mais, creia-me de V. S. patrício e admirador,
Sabugosa de Castro
CARVALHO, J. C. Amor de contabilista. In: Porque Lulu Bergatim não atravessou o Rubicon. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.
A exploração da variação linguística é um elemento que pode provocar situações cômicas. Nesse texto, o tom de humor decorre da incompatibilidade entre
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística e Adequação do Registro ao Contexto Comunicativo
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não é perceber que o texto é engraçado, mas nomear com precisão os DOIS elementos que entram em choque para gerar esse humor.
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido decorrentes da inadequação entre variedade linguística e situação de interação social.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O tom cômico da carta nasce do choque entre quais dois elementos do texto?"
- Palavras-chave decisivas: incompatibilidade, tom de humor, interlocutores
- Armadilha típica: achar que o riso vem só do "português antiquado" (V. S., outrossim) ou só do excesso de formalidade em si — isso é sintoma, não a causa.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a comicidade resulta de aplicar um registro de um domínio (burocrático-empresarial) a um domínio ao qual ele não pertence (o afetivo-pessoal), considerando quem fala e para quem fala.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística: a língua muda conforme a situação comunicativa em que é usada, não só região ou grupo social.
- Registro linguístico: o nível de formalidade escolhido — vocabulário e fórmulas de tratamento adequados (ou não) ao contexto.
- Papéis sociais dos interlocutores: o lugar que cada participante ocupa na interação (funcionário/chefe, noivo/noiva). Cada papel carrega uma expectativa própria de linguagem.
- Adequação linguística: o ajuste entre o registro usado e o papel social dos falantes. Quando esse ajuste falha de propósito, nasce o estranhamento cômico.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Tenho a honra de comunicar a V. S." → abertura de correspondência empresarial/administrativa, como se falasse com um superior, não com a própria noiva.
- Evidência 2: "dar por encerrados nossos entendimentos de noivado" → o noivado, vínculo afetivo, é tratado como negociação comercial encerrada.
- Evidência 3: "tempo útil para os deveres conjugais" → o casamento vira "encargo" de relatório profissional, não sentimento.
- Evidência 4: "trabalhando no varejo da mancebia" → até o flerte informal ganha jargão comercial ("varejo").
- Síntese: o assunto continua sendo o fim íntimo de um noivado, mas a linguagem pertence ao universo profissional. O riso nasce dessa distância entre linguagem e papel social real de quem fala (ex-noivo) com quem (ex-noiva).
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o registro linguístico do texto
A carta reúne marcas de linguagem formal-burocrática: o pronome "V. S." (Vossa Senhoria, próprio de ofícios comerciais/oficiais), o conectivo "Outrossim" (típico de textos jurídico-administrativos), a citação protocolar de nomes, cargos e endereços completos, e o fechamento cerimonioso "Sem mais, creia-me...". É o repertório de quem redige um memorando de negócios, não uma carta de amor.
Subpasso 4.2 — Confrontar esse registro com o papel social dos interlocutores
Quem escreve e quem recebe não têm entre si uma relação profissional: são (ou foram) noivos, vínculo que pressupõe linguagem afetiva e delicada. Ao usar o registro de um comunicado empresarial de desligamento, Sabugosa de Castro trata a ex-noiva como cliente recebendo um aviso formal. Esse descompasso entre "como se fala" e "para quem, socialmente, se fala" produz o efeito cômico.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se o humor dependesse só do vocabulário arcaico ou só do rigor formal somado à profissão, o texto seria igualmente engraçado endereçado a um cliente dos Armazéns Penalva — e não seria. O que o torna cômico é estar endereçado à noiva, papel incompatível com esse registro. A resposta precisa unir os dois termos — linguagem empregada + papéis sociais dos interlocutores —, o que só a alternativa B faz.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o objetivo de informar e a escolha do gênero textual.
❌ Incorreta: não há contradição — a carta informa o fim do noivado, e o gênero "carta" é plenamente compatível com esse objetivo informativo.
B) a linguagem empregada e os papéis sociais dos interlocutores.
✅ Correta: nomeia o par em conflito — o registro burocrático-empresarial aplicado a uma relação afetiva entre ex-noivos. É essa inadequação, mostrada nas evidências do Passo 3, que gera o humor.
C) o emprego de expressões antigas e a temática desenvolvida no texto.
❌ Incorreta: "V. S." e "outrossim" são formais, compatíveis com a época retratada (1932); não há choque entre essas expressões e o tema (rompimento), e sim entre a linguagem e quem fala com quem.
D) as formas de tratamento utilizadas e as exigências estruturais da carta.
❌ Incorreta: as formas de tratamento estão alinhadas às exigências estruturais de uma carta formal — não há incompatibilidade interna aí. O problema é essa estrutura ser usada com a pessoa errada.
E) o rigor quanto aos aspectos formais do texto e a profissão do remetente.
❌ Incorreta: um contabilista-chefe escrever com rigor formal é coerente, não incongruente. A verdadeira incongruência está entre esse rigor (típico do trabalho dele) e o papel social de noivo, não entre rigor e profissão.
🏆 Gabarito: B — O humor da carta resulta da incompatibilidade entre a linguagem burocrático-empresarial empregada e os papéis sociais reais dos interlocutores (ex-noivo se dirigindo à ex-noiva sobre um assunto pessoal), gerando um desencontro de registro que o leitor identifica como cômico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B combina os dois termos realmente contraditórios — a linguagem usada e a relação social entre remetente e destinatária. As demais emparelham elementos internamente coerentes (gênero e objetivo, tratamento e estrutura, rigor e profissão), por isso não explicam o riso.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra variação linguística com frequência via textos humorísticos (tirinhas, crônicas, cartas) em que o riso nasce de um registro "errado" para a situação.
- Generalização: quando a questão perguntar "de onde vem o humor/ironia" num texto com choque de registros, procure o par (linguagem usada) x (situação/relação social esperada).
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que juntam elementos naturalmente coerentes entre si (ex.: "profissão e rigor formal") — pares coerentes não geram incongruência. Sobra a opção que contrapõe linguagem a contexto social.
- Conexões: tema ligado a "preconceito linguístico" e a "ironia em textos literários".
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