Mapa de questões · 1º dia
Questão 75 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
A estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de formas culturais.
HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 2009.
No contexto descrito, as transformações estéticas impactam a produção de bens por meio da
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geografia Econômica (fordismo, toyotismo e acumulação flexível)
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um texto teórico denso (David Harvey) e traduzir conceitos abstratos (efemeridade, espetáculo, mercadificação) em uma consequência concreta sobre a produção de bens.
- 🎯 Tema/Habilidade: Transição do modelo fordista para a acumulação flexível pós-moderna; leitura crítica de texto teórico e articulação entre processos culturais e produtivos.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual efeito sobre a produção de mercadorias decorre da estética pós-moderna — efêmera, mutável, voltada à moda e ao espetáculo — descrita por Harvey?"
- Palavras-chave decisivas: efemeridade, moda, mercadificação
- Armadilha típica: associar "instabilidade estética" a mais estoque, mais mão de obra fabril fixa ou menos logística — características que, na verdade, pertencem ao modelo fordista anterior, e não à acumulação flexível descrita no trecho.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que uma estética volátil e ditada pela moda pressiona os produtos a se tornarem obsoletos mais rápido, exigindo renovação e inovação constantes — e não a manutenção do padrão fordista de bens duráveis e estáveis.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Fordismo: modelo de produção em massa, padronizada e em larga escala, com linhas de montagem rígidas, grande contingente de operários fabris, produtos duráveis e de baixa variação estética ao longo do tempo.
- Acumulação flexível (pós-fordismo): conceito central de David Harvey para o capitalismo a partir dos anos 1970-80: produção em pequenos lotes diversificados, resposta rápida às mudanças de mercado e moda, giro acelerado do capital e da inovação.
- Estética pós-moderna: valorização do efêmero, da diferença, do espetáculo e da moda como estratégias de mercantilização da própria cultura — o "novo" se torna, em si, um valor de mercado.
- Obsolescência programada/percebida: redução deliberada da vida útil real ou da percepção de atualidade de um produto, para estimular sua substituição — mecanismo coerente com a necessidade de giro rápido de capital da acumulação flexível.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a estética relativamente estável do modernismo fordista" → mostra que, no modelo anterior, os produtos mudavam pouco e duravam mais, refletindo uma produção padronizada e de ciclo longo.
- Evidência 2: "cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna" → indica ruptura: a nova lógica cultural é volátil, passageira, em constante transformação.
- Evidência 3: "celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de formas culturais" → a efemeridade e a moda passam a orientar o consumo, tornando os bens rapidamente "ultrapassados" e forçando sua reposição.
- Síntese: se a estética que orienta o consumo é efêmera e mutável, os próprios produtos precisam ser renovados com frequência crescente para acompanhar essa lógica — ou seja, encurta-se o tempo de vida útil/desejável de cada mercadoria, e a inovação passa a ser constante para sustentar o ritmo de consumo exigido pela acumulação flexível.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o modelo de produção descrito no texto
Harvey contrapõe dois momentos do capitalismo. No fordismo (predominante entre 1940 e 1970), a estética era "relativamente estável": um mesmo modelo de produto podia permanecer praticamente inalterado por anos, refletindo uma produção em massa padronizada, voltada para durabilidade e economia de escala. Já na condição pós-moderna — que Harvey chama de acumulação flexível —, a estética se torna instável, fugidia, dominada pela moda e pelo espetáculo, isto é, pela troca constante de referências visuais e simbólicas.
Subpasso 4.2 — Traduzir a mudança estética em efeito econômico-produtivo
Se a lógica cultural que rege o consumo passa a valorizar a efemeridade e a mudança contínua (moda), as empresas precisam lançar novos modelos, coleções e versões com frequência cada vez maior, para manter o consumo aquecido e o capital girando rapidamente — característica central da acumulação flexível segundo Harvey. Na prática, isso significa que cada mercadoria específica passa a ter um ciclo de vida mais curto no mercado: ela se torna "fora de moda" ou tecnicamente superada rapidamente, sendo substituída por versões "inovadoras". É exatamente o fenômeno da obsolescência programada/percebida associado a um ritmo acelerado de inovação em design, funcionalidades e tecnologia.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando esse raciocínio com as alternativas, a única que descreve corretamente essa cadeia causal — estética efêmera → produtos de vida útil mais curta → inovação crescente — é a que menciona "redução do tempo de vida dos produtos, acompanhada da crescente inovação". Nenhuma outra alternativa capta essa relação; todas as demais descrevem, na verdade, características do modelo fordista anterior ou invertem a lógica da acumulação flexível.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) promoção de empregos fabris, integrada às linhas de montagem.
❌ Incorreta: descreve o modelo fordista — grande contingente de operários fixos em linhas de montagem rígidas —, exatamente o modelo que o texto afirma ter sido superado ("cedeu lugar a"). A acumulação flexível caminha para a flexibilização, automação e até precarização do trabalho fabril, não para sua expansão nos moldes fordistas.
B) ampliação dos custos de fabricação, impulsionada pelo consumo.
❌ Incorreta: a acumulação flexível busca reduzir custos e acelerar o giro do capital, adaptando a produção rapidamente às variações de demanda e moda — a lógica é de eficiência e resposta ágil, não de encarecimento sistemático da fabricação.
C) redução do tempo de vida dos produtos, acompanhada da crescente inovação.
✅ Correta: é a consequência direta da estética efêmera descrita por Harvey. Produtos guiados pela moda e pelo espetáculo tornam-se obsoletos (real ou simbolicamente) em ciclos cada vez mais curtos, o que exige inovação constante para sustentar o consumo — o cerne da acumulação flexível.
D) diminuição da importância da organização logística, utilizada pelos fornecedores.
❌ Incorreta: ocorre justamente o oposto. Na acumulação flexível, a logística (produção just-in-time, resposta rápida à demanda, cadeias de suprimento ágeis) ganha importância crescente, pois é ela que viabiliza a renovação constante de produtos exigida pela estética pós-moderna.
E) expansão de mercadorias estocadas, aliada a maiores custos de armazenamento.
❌ Incorreta: a acumulação flexível tende a reduzir estoques, produzindo sob demanda e em pequenos lotes diversificados (lógica just-in-time), ao contrário do fordismo, que operava com grandes estoques e produção em massa contínua.
🏆 Gabarito: C — a estética pós-moderna efêmera, fugidia e ditada pela moda, ao substituir a estabilidade fordista, encurta o ciclo de vida dos produtos e obriga as empresas a inovar constantemente para manter o ritmo de consumo exigido pela acumulação flexível.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que traduz corretamente a relação de causa e efeito apresentada por Harvey: mudança estética (efemeridade, moda) → mudança produtiva (produtos de vida útil mais curta, inovação constante). As demais alternativas ou descrevem o modelo fordista superado, ou invertem a lógica da acumulação flexível.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a oposição fordismo × toyotismo/acumulação flexível, frequentemente por meio de textos teóricos de autores como David Harvey, associando transformações culturais e estéticas a mudanças no processo produtivo capitalista.
- Generalização: sempre que "moda", "efemeridade" ou "espetáculo" aparecerem associados à produção de bens, pense em redução do ciclo de vida do produto e aceleração da inovação/consumo — é a marca da acumulação flexível.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato as alternativas que descrevem características típicas do fordismo (grande emprego fabril fixo, estoques altos, produção estável) e as que reduzem a importância da logística — o texto deixa claro que esse modelo "cedeu lugar" a outro, mais flexível e dependente de cadeias logísticas ágeis.
- Conexões: toyotismo e produção just-in-time, sociedade de consumo e cultura do descarte, fast fashion e obsolescência programada na indústria de eletrônicos.
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