Mapa de questões · 1º dia
Questão 51 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Os pesquisadores que trabalham com sociedades indígenas centram sua atenção em documentos do tipo jurídico-administrativo (visitas, testamentos, processos) ou em relações e informes e têm deixado em segundo plano as crônicas. Quando as utilizam, dão maior importância àquelas que foram escritas primeiro e que têm caráter menos teórico e intelectualizado, por acharem que estas podem oferecer informações menos deformadas. Contrariamos esse posicionamento, pois as crônicas são importantes fontes etnográficas, independentemente de serem contemporâneas ao momento da conquista ou de terem sido redigidas em período posterior. O fato de seus autores serem verdadeiros humanistas ou pouco letrados não desvaloriza o conteúdo dessas crônicas.
PORTUGAL, A. R. O ayllu andino nas crônicas quinhentistas: um polígrafo na literatura brasileira do século XIX (1885-1897). São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009.
As fontes valorizadas no texto são relevantes para a reconstrução da história das sociedades pré-colombianas porque
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Historiografia, crítica de fontes e metodologia da pesquisa histórica
- ⚡ Nível: Médio — exige interpretar um argumento acadêmico abstrato sobre o valor das fontes, e não apenas localizar informações explícitas
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica documental e ampliação do conceito de fonte histórica (competência de leitura e análise de processos históricos)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o efeito historiográfico de tratar as crônicas quinhentistas como fontes tão válidas quanto os documentos jurídico-administrativos no estudo das sociedades indígenas?"
- Palavras-chave decisivas: fontes etnográficas, contrariamos esse posicionamento, não desvaloriza
- Armadilha típica: confundir o tema do texto — que é sobre metodologia de pesquisa histórica e hierarquia de fontes — com o conteúdo específico das crônicas (catequese, colonização, arqueologia), levando a marcar alternativas que citam elementos ausentes do trecho.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto defende a equivalência de valor entre crônicas e documentos oficiais, o que implica questionar a autoridade exclusiva destes últimos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crítica documental (heurística das fontes): procedimento pelo qual o historiador avalia origem, autoria, contexto de produção e limites de cada tipo de documento antes de utilizá-lo como fonte de conhecimento histórico.
- Documentos jurídico-administrativos: visitas, testamentos e processos produzidos por instituições coloniais (Coroa, Igreja, justiça); tradicionalmente vistos como "objetivos" por terem função burocrática e institucional.
- Crônicas: narrativas escritas por indivíduos — humanistas eruditos ou colonizadores pouco letrados — que registram costumes, eventos e observações; historicamente desvalorizadas por serem consideradas mais "subjetivas" ou "literárias".
- Relativização historiográfica: operação de questionar a pretensão de uma única fonte (no caso, a oficial) deter a verdade completa, reconhecendo que toda fonte — oficial ou não — é uma construção parcial e situada.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Contrariamos esse posicionamento, pois as crônicas são importantes fontes etnográficas, independentemente de serem contemporâneas ao momento da conquista ou de terem sido redigidas em período posterior." → o autor rejeita a hierarquia que privilegia documentos oficiais e crônicas "mais antigas", afirmando que o valor documental da crônica não depende da época em que foi escrita.
- Evidência 2: "O fato de seus autores serem verdadeiros humanistas ou pouco letrados não desvaloriza o conteúdo dessas crônicas." → reforça que nem mesmo o grau de instrução do cronista compromete a validade da fonte, rompendo com a lógica de que só documentos produzidos por instâncias formais (oficiais) merecem crédito.
- Síntese: ao equiparar crônicas — fontes informais, plurais e por vezes tardias — aos documentos jurídico-administrativos — fontes formais, institucionais, tidas como "fiéis" à realidade —, o autor desconstrói a ideia de que o registro oficial é a medida única e definitiva da verdade histórica sobre as sociedades indígenas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o argumento que está sendo combatido
O texto começa descrevendo uma prática comum entre pesquisadores: privilegiar documentos jurídico-administrativos (vistos como mais confiáveis por sua natureza institucional) e, quando recorrem às crônicas, dar preferência às mais antigas e "menos intelectualizadas", por supostamente trazerem informações "menos deformadas". Essa é a posição tradicional que o autor vai contestar.
Subpasso 4.2 — Identificar a operação historiográfica proposta pelo autor
O autor inverte essa lógica: afirma que TODAS as crônicas — independentemente da data de produção ou do grau de instrução do autor — são fontes etnográficas legítimas. Ao fazer isso, ele não está dizendo que as crônicas são "mais verdadeiras" que os documentos oficiais, nem que devem substituí-los; está dizendo que a autoridade que se atribui automaticamente aos registros oficiais (por serem institucionais) não é absoluta. Em outras palavras, ampliar o leque de fontes válidas tem o efeito direto de relativizar — colocar em perspectiva, tirar da posição de verdade única — os registros oficiais, que deixam de ser o critério exclusivo de veracidade histórica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando essa conclusão contra as alternativas, apenas a opção que usa o verbo "relativizar" aplicado aos "registros oficiais" traduz com precisão o movimento argumentativo do texto: reconhecer o valor das crônicas não elimina os documentos oficiais, mas retira deles o monopólio da verdade histórica, submetendo-os à mesma crítica documental aplicada a qualquer outra fonte. Essa é exatamente a alternativa D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sintetizam os ensinamentos da catequese.
❌ Incorreta: o texto trata de metodologia de pesquisa histórica e da hierarquia entre tipos de fontes, não do conteúdo religioso ou catequético transmitido pelas crônicas — esse tema simplesmente não aparece no trecho.
B) enfatizam os esforços de colonização.
❌ Incorreta: o argumento não avalia se as crônicas exaltam ou registram o processo colonizador; o foco é exclusivamente sobre a legitimidade das crônicas enquanto fonte de pesquisa, independentemente do que narram sobre a colonização.
C) tipificam os sítios arqueológicos.
❌ Incorreta: crônicas são fontes textuais, escritas por cronistas; "tipificar sítios arqueológicos" remete a uma metodologia da Arqueologia, campo distinto e não mencionado no texto, que trata de fontes escritas (documentos e crônicas).
D) relativizam os registros oficiais.
✅ Correta: ao defender que crônicas — sejam elas contemporâneas ou tardias, escritas por humanistas ou por pouco letrados — têm o mesmo valor etnográfico dos documentos jurídico-administrativos, o autor retira dos registros oficiais o estatuto de fonte única e inquestionável, relativizando sua autoridade e ampliando a base documental legítima para o estudo das sociedades indígenas.
E) substituem as narrativas orais.
❌ Incorreta: o texto não menciona narrativas orais indígenas em nenhum momento; a comparação estabelecida é entre dois tipos de fonte escrita — crônicas e documentos jurídico-administrativos —, e não entre fontes escritas e orais.
🏆 Gabarito: D — o texto defende que valorizar as crônicas como fontes etnográficas legítimas, independentemente de sua data ou autoria, relativiza a autoridade exclusiva dos registros oficiais no estudo das sociedades indígenas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa coerente com o argumento central do texto, pois nenhuma outra opção descreve corretamente a relação de equivalência crítica que o autor estabelece entre crônicas e documentos oficiais.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos historiográficos que discutem a natureza e os limites das fontes históricas — sejam elas escritas, orais, iconográficas ou materiais —, testando se o aluno entende que nenhuma fonte é neutra ou absoluta.
- Generalização: quando um texto acadêmico afirma "contrariar" uma visão tradicional sobre hierarquia de fontes, a alternativa correta costuma usar verbos como "relativizar", "problematizar" ou "questionar" — e não "substituir", "sintetizar" ou "comprovar" de forma definitiva.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato qualquer alternativa que traga um substantivo ausente do texto-base (aqui: "catequese", "sítios arqueológicos", "narrativas orais") — em textos historiográficos densos, essas alternativas costumam ser "iscas" temáticas que soam plausíveis mas não têm respaldo textual.
- Conexões: o tema dialoga com a Nova História e a Escola dos Annales, que ampliaram o conceito de fonte histórica para além dos documentos oficiais, e com a etno-história, campo que combina fontes escritas, orais e materiais para reconstituir a trajetória dos povos indígenas.
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