Mapa de questões · 1º dia
Questão 71 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
É amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. Frequentemente, essa diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Assim, no início do século, os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Os índios kaapor discriminam os timbiras chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas variadas, mas também pela maneira que agem à mesa. Como utilizamos garfos, surpreendemo-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos de nossa sociedade.
LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. São Paulo: Jorge Zahar, 2001 (adaptado).
O processo de estranhamento citado, com base em um conjunto de representações que grupos ou indivíduos formam sobre outros, tem como causa o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → conceitos de cultura, alteridade e etnocentrismo
- ⚡ Nível: Fácil — o texto de Roque Laraia dá exemplos diretos e a resposta é um conceito clássico de sociologia/antropologia recorrente no ENEM
- 🎯 Tema/Habilidade: Etnocentrismo e relativismo cultural — competência de reconhecer o papel dos valores culturais na formação de estereótipos e preconceitos entre grupos
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a causa do estranhamento entre povos que classificam os hábitos alimentares e comportamentais uns dos outros de forma depreciativa?"
- Palavras-chave decisivas: estranhamento, representações que grupos formam sobre outros, classificações depreciativas
- Armadilha típica: confundir o fenômeno descrito com "hostilidade em zonas de conflito" (alternativa C) ou com uma suposta "agressividade natural" do ser humano (alternativa D), ignorando que o texto fala de julgamento cultural, não de violência física ou de instinto biológico
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o julgamento negativo dos hábitos alimentares e comportamentais alheios nasce da tendência de cada grupo tomar sua própria cultura como parâmetro de normalidade e superioridade
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Etnocentrismo: tendência de avaliar outras culturas a partir dos valores, costumes e crenças do próprio grupo, tomando-os como referência universal de "certo" e "normal" — o que leva a rotular o diferente como estranho, inferior ou risível.
- Relativismo cultural: conceito antropológico oposto ao etnocentrismo, segundo o qual cada cultura deve ser compreendida a partir de seus próprios códigos internos, sem julgamentos de valor externos — é essa perspectiva que Roque Laraia defende ao denunciar o preconceito alimentar.
- Alteridade: a percepção do "outro" como diferente de si; é matéria-prima tanto do etnocentrismo (quando gera desprezo) quanto do relativismo (quando gera compreensão).
- Identidade cultural via alimentação: hábitos alimentares funcionam como marcadores identitários fortes — por isso apelidos como "comedores de rã", "comedores de cobra" e "comedores de camarão" viram xingamentos entre grupos vizinhos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "essa diversidade é utilizada para classificações depreciativas" → mostra que a diferença cultural, por si só, não gera o problema; o problema é o julgamento negativo que se projeta sobre ela.
- Evidência 2: "os americanos denominavam os franceses de 'comedores de rãs'", "os índios kaapor discriminam os timbiras" → cada grupo usa seus próprios hábitos como régua para depreciar o hábito alheio, prova concreta de que o padrão do "eu" vira critério de julgamento do "outro".
- Evidência 3: "surpreendemo-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos de nossa sociedade" → reforça que o estranhamento nasce da comparação com a própria norma cultural (o garfo), não de uma característica objetivamente "errada" do outro costume.
- Síntese: em todos os exemplos, o grupo A rotula negativamente o grupo B porque toma os próprios costumes como referência de normalidade — essa é a definição-modelo de etnocentrismo, e é exatamente o processo de "representações que grupos ou indivíduos formam sobre outros" mencionado no comando.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno central do texto
Laraia descreve um padrão que se repete em contextos culturais muito distintos (americanos x franceses, kaapor x timbira, europeus x potiguaras, ocidentais x japoneses): um grupo usa apelidos ou reações de espanto para depreciar os hábitos alimentares e à mesa de outro grupo. Não há relato de conflito armado, de instinto violento ou de "reconhecimento mútuo" — há, isso sim, comparação valorativa entre "nós" e "eles".
Subpasso 4.2 — Conectar o fenômeno ao conceito sociológico correspondente
Esse mecanismo de julgar o outro a partir dos próprios padrões culturais, tratando o hábito alheio como estranho, inferior ou motivo de chacota, é a definição clássica de etnocentrismo. O conceito é central na antropologia (o próprio livro citado, de Laraia, é referência canônica sobre cultura) exatamente porque explica por que grupos diferentes constroem representações negativas uns dos outros sem que haja, necessariamente, disputa territorial, violência ou hierarquia biológica envolvida.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando contra o comando: "processo de estranhamento... com base em um conjunto de representações que grupos ou indivíduos formam sobre outros". O etnocentrismo é justamente esse conjunto de representações — a crença implícita de que os próprios costumes são o padrão correto, o que faz o costume alheio parecer estranho ou depreciável. Isso bate integralmente com todos os exemplos do texto e aponta para a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reconhecimento mútuo entre povos.
❌ Incorreta: "reconhecimento mútuo" sugeriria aceitação e compreensão recíproca das diferenças — o oposto do que o texto narra. Os exemplos mostram rejeição e deboche, não reconhecimento.
B) etnocentrismo recorrente entre populações.
✅ Correta: os apelidos depreciativos e o espanto diante de hábitos alimentares e comportamentais diferentes nascem da tendência de cada povo tomar sua própria cultura como parâmetro universal de normalidade, julgando o outro a partir desse referencial — a definição exata de etnocentrismo, reforçada pela palavra "recorrente", já que o texto traz múltiplos exemplos históricos e geográficos distintos do mesmo padrão.
C) comportamento hostil em zonas de conflito.
❌ Incorreta: o texto não situa os exemplos em contextos de guerra ou disputa territorial; trata-se de julgamento cultural cotidiano sobre alimentação e etiqueta à mesa, não de hostilidade bélica.
D) constatação de agressividade no estado de natureza.
❌ Incorreta: essa alternativa remete a teorias contratualistas (como as de Hobbes) sobre a natureza humana pré-social, tema estranho ao trecho, que fala de cultura e costumes, não de um suposto instinto agressivo inato.
E) transmutação de valores no contexto da modernidade.
❌ Incorreta: o texto não descreve uma mudança histórica de valores ao longo do tempo (transmutação), mas sim um padrão estável e recorrente de julgamento intercultural, presente em diferentes povos e épocas.
🏆 Gabarito: B — o estranhamento descrito por Laraia decorre do etnocentrismo, mecanismo pelo qual cada grupo usa seus próprios costumes alimentares e de etiqueta como régua de normalidade para depreciar os costumes do outro.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: Só a alternativa B nomeia o conceito sociológico que explica, de forma unificada, por que grupos tão diferentes (americanos, kaapor, potiguaras, ocidentais) repetem o mesmo padrão de depreciar hábitos alheios: julgar o outro pela régua da própria cultura.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra etnocentrismo com frequência em textos de viajantes, cronistas coloniais, antropólogos ou relatos de choque cultural (culinária, vestimenta, religião, língua), sempre pedindo que o candidato nomeie o mecanismo por trás do preconceito cultural descrito.
- Generalização: sempre que o enunciado narrar um grupo julgando negativamente os costumes de outro grupo com base nos próprios costumes, a resposta tende a ser etnocentrismo; se o texto elogiar a compreensão das diferenças sem hierarquizar culturas, o conceito é relativismo cultural.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que mencionem violência física, conflito armado ou "estado de natureza" (fogem do campo cultural do texto) e as que sugiram harmonia ou aceitação mútua (contradizem o "estranhamento" citado no comando) — sobra o conceito que nomeia o julgamento cultural em si.
- Conexões: relativismo cultural (conceito antagônico) e identidade cultural/alteridade (temas que frequentemente aparecem juntos em textos sobre choque cultural no ENEM).
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.