Mapa de questões · 1º dia
Questão 49 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Para dar conta do movimento histórico do processo de inserção dos povos indígenas em contextos urbanos, cuja memória reside na fala dos seus sujeitos, foi necessário construir um método de investigação, baseado na História Oral, que desvelasse essas vivências ainda não estudadas pela historiografia, bem como as conflitivas relações de fronteira daí decorrentes. A partir da história oral foi possível entender a dinâmica de deslocamento e inserção dos índios urbanos no contexto da sociedade nacional, bem como perceber os entrelugares construídos por estes grupos étnicos na luta pela sobrevivência e no enfrentamento da sua condição de invisibilidade.
MUSSI, P. L. V. Tronco velho ou ponta da rama? A mulher indígena terena nos entrelugares da fronteira urbana. Patrimônio e Memória, n. 1, 2008.
O uso desse método para compreender as condições dos povos indígenas nas áreas urbanas brasileiras justifica-se por
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Historiografia e metodologia da História Oral
- ⚡ Nível: Médio — o texto é abstrato e conceitual, exigindo que o aluno traduza jargão acadêmico ("entrelugares", "invisibilidade", "fronteira urbana") para uma ideia central simples
- 🎯 Tema/Habilidade: A História Oral como método de resgate da memória de grupos sem registro escrito próprio — competência de análise de processos históricos e sociais a partir de fontes não convencionais
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a função/utilidade da História Oral no estudo da inserção de povos indígenas nas cidades?"
- Palavras-chave decisivas: memória reside na fala, desvelasse essas vivências ainda não estudadas pela historiografia, invisibilidade
- Armadilha típica: confundir "dar voz a quem não tem registro escrito" com "fazer um levantamento estatístico/censitário" (alternativa B) — a História Oral é qualitativa, não quantitativa
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que a História Oral é convocada exatamente porque esses sujeitos não produzem (ou não tiveram acesso a) fontes escritas tradicionais, e por isso sua história só pode ser recuperada pela fala
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- História Oral: metodologia historiográfica que usa entrevistas, depoimentos e narrativas orais como fonte primária, dando protagonismo a sujeitos e grupos que a historiografia tradicional (baseada em documentos escritos, arquivos oficiais) costuma silenciar.
- Historiografia tradicional x história vista de baixo: por muito tempo a história foi escrita a partir de documentos oficiais, produzidos por instituições e elites letradas; a "história vista de baixo" (ou história dos vencidos/subalternos) inverte esse olhar, buscando a experiência de camponeses, operários, mulheres, povos indígenas etc.
- Entrelugares e invisibilidade: conceitos da antropologia/sociologia da fronteira que descrevem a posição de grupos étnicos que não se encaixam totalmente nem na cultura de origem nem na sociedade urbana que os recebe, tornando-se socialmente "invisíveis" aos olhos do Estado e da historiografia oficial.
- Índios urbanos: povos indígenas que migraram ou nasceram em contextos urbanos, vivendo processos de deslocamento, adaptação e conflito de fronteira cultural — tema pouco documentado por fontes escritas convencionais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "cuja memória reside na fala dos seus sujeitos" → revela que a única fonte disponível para reconstruir essa história é o relato oral, pois não há registros escritos produzidos por esses grupos.
- Evidência 2: "desvelasse essas vivências ainda não estudadas pela historiografia" → confirma que a História Oral funciona como ferramenta para preencher uma lacuna documental — trazer à luz experiências que os documentos escritos tradicionais nunca registraram.
- Evidência 3: "enfrentamento da sua condição de invisibilidade" → reforça que esses sujeitos estavam ausentes não apenas dos registros escritos, mas do reconhecimento social e historiográfico como um todo.
- Síntese: o texto descreve, do início ao fim, um método criado para dar existência histórica a pessoas cuja trajetória nunca foi (nem poderia ser) registrada por escrito. A resposta correta precisa expressar exatamente essa função: registrar, pela oralidade, a trajetória de quem está fora das práticas de escrita.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o problema historiográfico apresentado
O texto de Mussi parte de uma constatação: a inserção de indígenas terena em contextos urbanos é um "movimento histórico" real, mas que a historiografia convencional nunca estudou. Por quê? Porque a historiografia tradicional se apoia em documentos escritos — atas, censos, cartórios, jornais, arquivos institucionais — e os povos indígenas urbanos, em sua maioria, não produziram esse tipo de registro sobre sua própria experiência. A "memória" desses sujeitos "reside na fala", ou seja, existe apenas na oralidade, transmitida de geração em geração ou guardada na lembrança viva das pessoas.
Subpasso 4.2 — Entender a solução metodológica proposta (História Oral)
Diante dessa lacuna, a pesquisadora recorre à História Oral: um método de investigação que coleta depoimentos, entrevistas e narrativas dos próprios sujeitos indígenas para reconstruir sua trajetória. O objetivo não é neutralizar vieses acadêmicos, nem fazer um censo demográfico, nem promover retorno migratório — é justamente criar um registro daquilo que nunca foi escrito. A História Oral, nesse sentido, transforma a fala em fonte histórica legítima, permitindo "entender a dinâmica de deslocamento" e os "entrelugares" vividos por esses grupos na cidade.
Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a função da História Oral com as alternativas
A pergunta pede a função geral da História Oral nesse contexto. Testando a ideia central ("dar voz/registro a quem não tem escrita própria") contra as cinco alternativas, apenas a opção E reproduz fielmente esse papel: "registrar as trajetórias de sujeitos distantes das práticas de escrita" é exatamente a tradução, em linguagem mais direta, da frase do texto "cuja memória reside na fala dos seus sujeitos". As demais alternativas introduzem elementos que o texto não menciona (emprego, censo oficial, neutralidade ideológica, retorno à origem), funcionando como distratores que soam plausíveis mas fogem do argumento central do trecho.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) focalizar a empregabilidade de indivíduos carentes de especialização técnica.
❌ Incorreta: o texto não trata de mercado de trabalho, qualificação profissional ou empregabilidade. Essa alternativa desvia o foco da questão historiográfica (memória e invisibilidade) para uma questão socioeconômica que não aparece no trecho.
B) permitir o recenseamento de cidadãos ausentes das estatísticas oficiais.
❌ Incorreta: recenseamento é um procedimento quantitativo e estatístico, típico de censos demográficos (como o IBGE realiza). A História Oral é um método qualitativo, voltado à narrativa e à experiência subjetiva, não à contagem populacional. Essa é a armadilha mais forte da questão, pois ambas tratam de "grupos não registrados", mas por caminhos opostos (contar x narrar).
C) neutralizar as ideologias de observadores imbuídos de viés acadêmico.
❌ Incorreta: a História Oral não tem como objetivo eliminar ou "neutralizar" a subjetividade do pesquisador — pelo contrário, ela reconhece a relação entre pesquisador e entrevistado como parte do processo. O texto fala em desvelar vivências dos sujeitos indígenas, não em corrigir vieses de observadores acadêmicos.
D) promover o retorno de grupos apartados de suas nações de origem.
❌ Incorreta: o texto descreve um processo de inserção urbana e deslocamento, não um movimento de retorno às terras/nações de origem. A História Oral aqui serve para compreender a permanência e adaptação dos indígenas na cidade, não para promover repatriação ou retorno territorial.
E) registrar as trajetórias de sujeitos distantes das práticas de escrita.
✅ Correta: essa alternativa expressa com precisão a função central da História Oral descrita no texto — construir um registro histórico para sujeitos (índios urbanos) cuja memória existe apenas na oralidade, justamente por estarem à margem das práticas de escrita e da historiografia tradicional.
🏆 Gabarito: E — a História Oral é convocada precisamente porque os povos indígenas urbanos não deixaram registros escritos de sua trajetória; o método serve para transformar a memória falada em fonte histórica válida, dando visibilidade a quem a historiografia convencional ignorou.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E capta o cerne do texto: a função da História Oral é registrar trajetórias de quem está fora das práticas de escrita — é a tradução direta de "memória que reside na fala".
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos sobre metodologias historiográficas alternativas (história oral, micro-história, história vista de baixo) aplicadas a grupos marginalizados — indígenas, quilombolas, mulheres, trabalhadores — sempre valorizando fontes não escritas e memórias subjetivas.
- Generalização: em questões sobre metodologia histórica, a resposta certa quase sempre valoriza a voz e a experiência do sujeito estudado, e não instrumentos de controle estatístico, neutralização de vieses ou soluções político-administrativas (como censo, retorno migratório ou políticas de emprego).
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que fale em "estatísticas", "censo", "neutralizar vieses" ou "retorno/repatriação" — nenhuma dessas ideias aparece no texto-base; o texto fala apenas em fala, memória, vivência e invisibilidade.
- Conexões: compare com questões sobre "história vista de baixo" (E. P. Thompson), historiografia da Escola dos Annales e políticas de reconhecimento de povos originários e comunidades tradicionais no Brasil.
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