Mapa de questões · 1º dia
Questão 36 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
As cores
Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de cheiros, de sons, todas aquelas palavras eram a perpétua renovação dos mistérios em cujo seio sua imaginação se perdia. […] Como seria cor e o que seria? […]. Era, com certeza, a nota marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles olhos que tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam, quando os tocava, sensíveis como pássaros assustados, palpitantes de vida, sob seus dedos trêmulos, que diziam ser claros. Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco. […]
E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo que lá conhecera. […]. Lembrava-se da ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se adivinhavam entre dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se encontrado… De como um dia seus pais haviam surgido inesperadamente no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se haviam queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E de como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que pretendia se despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado:
— Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca!
Mulato era cor. Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente restara o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão parecido com a vida dos outros, tão cheio de cores…
LESSA, O. Seleta de Orígenes Lessa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.
No texto, a condição da personagem e os desdobramentos da narrativa conduzem o leitor a compreender o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de texto narrativo (conto) e leitura de recursos simbólicos
- ⚡ Nível: Médio — o texto não afirma nada diretamente; o candidato precisa costurar pistas espalhadas ao longo de todo o conto até a frase final que fecha o sentido
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de recursos expressivos (metáfora) e da relação entre literatura e crítica social — competência de leitura que articula linguagem verbal e contexto sociocultural
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a construção do texto de Orígenes Lessa evidencia, considerando o modo como a personagem Maria Alice lida com a ideia de cor?"
- Palavras-chave decisivas: cor, mulato, cega
- Armadilha típica: confundir o tema real da questão com a cegueira de Maria Alice em si — como se o texto tratasse "da falta de visão" como assunto central, quando na verdade a cegueira é o recurso que o narrador usa para chegar a outro assunto
- O que a resposta precisa demonstrar: que o leitor entendeu por que o narrador insiste tanto em explicar o conceito de "cor" para uma personagem que nunca a viu — e o que essa insistência revela quando a palavra "cor" reaparece, no fim, ligada à palavra "mulato"
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Foco narrativo sensorial: o narrador em 3ª pessoa filtra a realidade pela percepção tátil e auditiva de Maria Alice, personagem cega — cor, para ela, é conceito abstrato, "aprendido", nunca visto.
- Metáfora literária: figura de linguagem em que um elemento concreto (a cor) passa a representar, no plano do sentido, uma questão abstrata e mais ampla (o preconceito racial).
- Contexto sócio-histórico da palavra "mulato": termo usado no Brasil para classificar pessoas por ascendência racial mista, historicamente carregado de hierarquia e preconceito.
- Composição em anel (retomada temática): o conto abre discutindo o que é "cor" e fecha definindo "mulato" como "cor" — a estrutura circular é o que entrega o sentido da narrativa.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Como seria cor e o que seria? [...] Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco." → Maria Alice trata a cor como um dado intelectual, memorizado, não sentido — o texto planta, desde o início, que "cor" é o fio condutor da narrativa, mesmo (e principalmente) para quem não a enxerga.
- Evidência 2: "— Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! [...] Mulato era cor." → a revelação final conecta explicitamente o motivo da separação do casal (a rejeição do pai) à categoria racial "mulato", e o narrador resume essa categoria com uma única palavra: cor.
- Síntese: o conto usa a cegueira de Maria Alice para construir, do início ao fim, uma reflexão sobre o que é "cor" — e essa reflexão só se completa quando o leitor descobre que a cor que ela nunca viu é justamente a cor que destruiu seu relacionamento. A cor deixa de ser um dado visual e passa a funcionar como metáfora do preconceito racial que separou o casal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear a insistência temática em "cor"
Releia o primeiro parágrafo: Maria Alice questiona o que é "cor", o que é "o claro", associa esses conceitos a algo aprendido — "ser igual ao branco" — e não sentido. Repare que o texto não trata disso de passagem: dedica todo o parágrafo inicial a esse questionamento, o que sinaliza ao leitor que "cor" não é um detalhe decorativo, mas o eixo temático do conto.
Subpasso 4.2 — Identificar a virada narrativa
No segundo bloco, o texto recupera a lembrança do Instituto (espaço de convívio entre pessoas com deficiência visual) e do amor vivido por Maria Alice. A cena central é a chegada inesperada dos pais, a acusação de "falta de vigilância e moralidade" e, no ápice, a fala horrorizada do pai ao saber que a filha pretendia se casar com um homem que ele designa como "mulato". O verbo "exclamara" e o advérbio "horrorizado" marcam o tom de repúdio — não é uma objeção qualquer, é rejeição racial categórica ("Nunca!").
Subpasso 4.3 — Verificação: fechar o sentido com a frase-síntese
A frase seguinte — "Mulato era cor" — é a chave de leitura de todo o conto. Ela retoma, em uma oração curtíssima e definitiva, o questionamento do início ("Como seria cor?"). O leitor entende, então, que a "cor" que Maria Alice nunca pôde ver com os olhos é a mesma "cor" que, sob os olhos preconceituosos do pai, foi motivo suficiente para acabar com seu amor. A cegueira física da personagem contrasta ironicamente com a "visão" do pai, que enxerga a cor do outro antes de qualquer outra coisa. Esse contraste é o que caracteriza a cor como metáfora da discriminação racial — exatamente o que descreve a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) percepção das cores como metáfora da discriminação racial.
✅ Correta: o conto constrói, do início ao fim, uma reflexão sobre o conceito de cor a partir da perspectiva de uma personagem cega, para culminar na revelação de que "mulato era cor" — ou seja, a categoria racial que o pai usa para vetar o casamento. A cor deixa de ser um atributo visual e passa a representar o mecanismo de classificação e exclusão racial que a sociedade impõe.
B) privação da visão como elemento definidor das relações humanas.
❌ Incorreta: a cegueira de Maria Alice é recurso narrativo — o filtro sensorial pelo qual a história é contada —, mas não é ela que "define" a ruptura do relacionamento. Quem rompe a relação é o pai, movido por preconceito racial, e não por qualquer questão ligada à deficiência visual da filha ou do namorado.
C) contraste entre as representações do amor de diferentes gerações.
❌ Incorreta: o texto não desenvolve nenhuma comparação entre "como os jovens amam" e "como os mais velhos amavam". A fala do pai não expressa uma visão de amor diferente da de Maria Alice; expressa rejeição baseada em raça. Não há esse eixo geracional sobre o amor no conto.
D) prevalência das diferenças sociais sobre a liberdade das relações afetivas.
❌ Incorreta: essa alternativa generaliza o motivo da separação como "diferença social" — categoria ampla que inclui classe, status, etc. —, mas o texto é preciso: a palavra usada é "mulato", e a frase de fechamento é "mulato era cor". O conflito não é social em sentido amplo, é especificamente racial, e a alternativa dilui essa especificidade.
E) embate entre a ingenuidade juvenil e a manutenção de tradições familiares.
❌ Incorreta: não há no texto qualquer menção a "tradição familiar" como justificativa dos pais — a fala do pai é de horror diante da cor do pretendente, não de apego a costumes ou valores herdados. Rotular o preconceito racial explícito como simples "tradição" suaviza e distorce o que o texto denuncia.
🏆 Gabarito: A — o conto usa a experiência de uma personagem cega com o conceito de "cor" para, no desfecho, revelar que essa mesma cor — associada à palavra "mulato" — foi o motivo do preconceito paterno que destruiu seu amor, transformando a cor em metáfora da discriminação racial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A dá conta de toda a estrutura do texto — do questionamento inicial sobre "o que é cor" até a frase-síntese "mulato era cor" — como uma metáfora construída deliberadamente para expor o racismo do pai.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a fragmentos de contos e romances brasileiros que tratam de racismo, preconceito e exclusão social por meio de recursos indiretos — símbolos, metáforas, ironias — em vez de afirmações explícitas, testando se o candidato consegue captar o sentido não dito do texto.
- Generalização: em questões de literatura no ENEM, quando um elemento concreto (cor, objeto, espaço) é retomado do início ao fim do texto e ganha um sentido novo na última linha, ele quase sempre funciona como metáfora — e é aí que mora a resposta certa.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem apenas um aspecto superficial da história (como "cegueira" ou "tradição") sem explicar por que o texto insiste tanto na palavra "cor"; a alternativa correta é sempre a que amarra a frase final ("mulato era cor") ao restante do conto.
- Conexões: compare com outros textos do ENEM sobre racismo estrutural na literatura brasileira e com questões sobre figuras de linguagem (metáfora, ironia) aplicadas à crítica social.
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