Mapa de questões · 1º dia
Questão 73 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Uma parte da nossa formação científica confunde-se com a atividade de uma polícia de fronteiras, revistando os pensamentos de contrabando que viajam na mala de outras sabedorias. Apenas passam os pensamentos de carimbada cientificidade. A biologia, por exemplo, é um modo maravilhoso de emigrarmos de nós, de transitarmos para lógicas de outros seres, de nos descentrarmos. Aprendemos que não somos o centro da vida nem o topo da evolução.
COUTO, M. Interinvenções. Portugal: Caminho, 2009 (adaptado).
No trecho, expressa-se uma visão poética da epistemologia científica, caracterizada pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Epistemologia e crítica ao antropocentrismo
- ⚡ Nível: Médio — exige distinguir conceitos filosóficos próximos (relativismo, ceticismo, ecletismo, antropocentrismo) a partir de uma linguagem metafórica e literária.
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica filosófica ao antropocentrismo na epistemologia científica; leitura e interpretação de texto argumentativo-poético em Ciências Humanas.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual conceito filosófico caracteriza a visão de ciência que Mia Couto expressa, ao descrever a biologia como uma forma de nos tirar do centro de nós mesmos?"
- Palavras-chave decisivas: descentrarmos, não somos o centro da vida, topo da evolução
- Armadilha típica: confundir a crítica inicial do texto (a ciência como "polícia de fronteiras" que barra "outras sabedorias") com relativismo ou hibridismo epistemológico, quando na verdade essa é só a introdução — o argumento central do trecho está na segunda metade, sobre a biologia nos descentrar.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o texto define a ciência poética como aquela que rompe com a ideia do ser humano como centro e ápice da natureza — ou seja, uma perspectiva não antropocêntrica.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Antropocentrismo: visão de mundo que coloca o ser humano como centro, medida e finalidade de todas as coisas, superior hierarquicamente aos demais seres vivos.
- Perspectiva não antropocêntrica (ou biocêntrica): reconhece a espécie humana como uma entre tantas outras na teia da vida, sem posição privilegiada na natureza ou na escala evolutiva.
- Relativismo epistemológico: postura segundo a qual não existe verdade ou conhecimento absoluto — cada sistema cultural ou perspectiva teria validade equivalente.
- Viragem linguística (linguistic turn): movimento filosófico do século XX que colocou a linguagem, e não a consciência ou a realidade, como problema central da filosofia (Wittgenstein, Rorty).
- Ceticismo filosófico: dúvida sistemática quanto à possibilidade de se alcançar conhecimento certo e verdadeiro sobre o mundo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "revistando os pensamentos de contrabando que viajam na mala de outras sabedorias" → crítica ao caráter excludente da cientificidade oficial, que só valida saberes "carimbados"; é o ponto de partida crítico do texto, não a resposta.
- Evidência 2: "de emigrarmos de nós, de transitarmos para lógicas de outros seres, de nos descentrarmos" → a biologia é apresentada como prática que nos desloca do próprio ponto de vista humano para o de outras formas de vida.
- Evidência 3: "aprendemos que não somos o centro da vida nem o topo da evolução" → afirmação explícita e conclusiva: a ciência, em sua dimensão poética, ensina a abandonar a posição de superioridade do humano sobre a natureza.
- Síntese: o texto avança de uma crítica ao gatekeeping científico para a celebração da biologia como instrumento de descentramento do humano; o clímax argumentativo — e o que a questão realmente pede — é essa negação do antropocentrismo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar as duas camadas do texto
Mia Couto constrói o parágrafo em dois movimentos. No primeiro, critica a "polícia de fronteiras" da ciência, que só deixa circular pensamentos "de carimbada cientificidade" — crítica ao fechamento institucional do saber. No segundo, muda de tom e elogia a biologia como algo "maravilhoso": disciplina que nos permite "emigrar de nós", adotar "lógicas de outros seres" e "nos descentrarmos". É nesse segundo movimento que está a "visão poética da epistemologia científica" pedida pela questão.
Subpasso 4.2 — Traduzir a metáfora em conceito filosófico
"Emigrar de nós", "lógicas de outros seres" e, sobretudo, "não somos o centro da vida nem o topo da evolução" são formulações poéticas de uma mesma ideia: a superação do antropocentrismo, isto é, da crença de que o ser humano ocupa o centro e o ápice da natureza. É exatamente essa crença que o texto diz ser desconstruída pela biologia. Logo, a visão poética descrita por Couto se caracteriza pela compreensão da realidade a partir de uma perspectiva não antropocêntrica.
Subpasso 4.3 — Verificação
Testando essa síntese contra as alternativas, apenas uma reproduz com fidelidade o núcleo de "não somos o centro da vida nem o topo da evolução": a que fala em "perspectiva não antropocêntrica". As demais trazem vocabulário técnico (viragem linguística, relativismo, antiacademicismo, ceticismo) sem correspondência com a conclusão do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) implementação de uma viragem linguística com base no formalismo.
❌ Incorreta: "viragem linguística" é conceito da filosofia da linguagem (colocar a linguagem no centro da investigação filosófica), tema ausente do texto; também não há menção a formalismo lógico ou matemático. O texto trata do descentramento do humano diante da natureza, não da linguagem.
B) fundamentação de uma abordagem híbrida com base no relativismo.
❌ Incorreta: embora o texto mencione "outras sabedorias", não defende que todo saber tem valor equivalente (relativismo) nem propõe mistura metodológica entre saberes (hibridismo). O foco está em retirar o ser humano do centro da explicação da vida, não em equiparar sistemas de conhecimento.
C) interpretação da natureza eclética das coisas com base no antiacademicismo.
❌ Incorreta: há crítica ao filtro institucional da ciência ("polícia de fronteiras"), mas isso não configura "antiacademicismo" nem ecletismo das coisas. O trecho decisivo não é sobre rejeitar a academia, e sim sobre a biologia ensinar que não somos o centro da vida.
D) definição de uma metodologia transversal com base em um panorama cético.
❌ Incorreta: o texto não propõe método algum nem expressa dúvida quanto à possibilidade de conhecer (ceticismo); pelo contrário, afirma com convicção o que "aprendemos" com a biologia — que não somos centro nem topo da evolução. É afirmação, não suspensão cética do juízo.
E) compreensão da realidade com base em uma perspectiva não antropocêntrica.
✅ Correta: reproduz o argumento final do texto. A biologia, ao nos fazer "transitar para lógicas de outros seres" e "descentrar", leva à conclusão de que "não somos o centro da vida nem o topo da evolução" — a própria definição de uma compreensão não antropocêntrica da realidade.
🏆 Gabarito: E — o texto de Mia Couto descreve a biologia como caminho para abandonar a centralidade do ser humano na natureza, o que corresponde diretamente a uma perspectiva não antropocêntrica de compreensão da realidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa E usa termos compatíveis com a afirmação final e mais forte do texto — "não somos o centro da vida nem o topo da evolução" — que é a definição literária de perspectiva não antropocêntrica.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer textos literários ou ensaísticos que expressam conceitos filosóficos sem nomeá-los tecnicamente, exigindo do estudante a tradução da metáfora para o conceito correspondente (aqui, "descentrar-se" = superar o antropocentrismo).
- Generalização: sempre que um texto afirmar que o ser humano não é "o centro", "o topo" ou "a medida" de algum processo natural, é quase certo que a resposta correta envolve a crítica ao antropocentrismo.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com jargão técnico sem lastro textual — se o texto não fala de linguagem, dúvida metódica ou rejeição da academia, elimine de cara "viragem linguística", "ceticismo" e "antiacademicismo"; sobra apenas a opção que fala em descentramento do humano.
- Conexões: teoria da evolução de Darwin e a ideia de que o ser humano é uma espécie entre outras; filosofia ambiental e biocentrismo; crítica pós-colonial ao cientificismo que hierarquiza saberes "ocidentais" sobre saberes tradicionais.
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