Mapa de questões · 1º dia
Questão 19 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
A nossa emotividade literária só se interessa pelos populares do sertão, unicamente porque são pitorescos e talvez não se possa verificar a verdade de suas criações. No mais é uma continuação do exame de português, uma retórica mais difícil, a se desenvolver por este tema sempre o mesmo: Dona Dulce, moça de Botafogo em Petrópolis, que se casa com o Dr. Frederico. O comendador seu pai não quer porque o tal Dr. Frederico, apesar de doutor, não tem emprego. Dulce vai à superiora do colégio de irmãs. Esta escreve à mulher do ministro, antiga aluna do colégio, que arranja um emprego para o rapaz. Está acabada a história. É preciso não esquecer que Frederico é moço pobre, isto é, o pai tem dinheiro, fazenda ou engenho, mas não pode dar uma mesada grande.
Está aí o grande drama de amor em nossas letras, e o tema de seu ciclo literário.
BARRETO, L. Vida e morte de MJ Gonzaga de Sá. Disponível em: www.brasiliana.usp.br. Acesso em: 10 ago. 2017.
Situado num momento de transição, Lima Barreto produziu uma literatura renovadora em diversos aspectos. No fragmento, esse viés se fundamenta na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Pré-Modernismo brasileiro e ironia como recurso estilístico
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer o tom irônico do narrador por trás de uma linguagem aparentemente neutra e resumidas
- 🎯 Tema/Habilidade: Identificação de efeitos de sentido e crítica literária em Lima Barreto (competência de leitura e reconhecimento de recursos expressivos em textos literários)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, no fragmento, evidencia a renovação literária promovida por Lima Barreto?"
- Palavras-chave decisivas: momento de transição, literatura renovadora, esse viés se fundamenta em
- Armadilha típica: fixar-se na primeira frase do texto (que cita "os populares do sertão") e marcar a alternativa sobre regionalismo, ignorando que o restante — e o núcleo — do fragmento trata de outro alvo da crítica.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar o recurso de linguagem (ironia) usado pelo narrador para desqualificar um modelo narrativo específico, e não apenas reconhecer "do que" o texto fala.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Folhetim de tradição romântica: narrativa seriada, muito popular no século XIX, publicada em capítulos na imprensa, com enredos previsíveis: amor contrariado por questões de classe/dinheiro, intervenção de terceiros e final feliz garantido. Linguagem sentimental e idealizada.
- Pré-Modernismo (Lima Barreto): movimento de transição entre o fim do século XIX e o início do XX no Brasil, marcado por crítica social, tom irônico e mordaz, e ruptura com o idealismo herdado do Romantismo e com o culto formal do Parnasianismo.
- Ironia: recurso em que se diz ou narra algo de modo aparentemente sério ou neutro para, na verdade, expor seu ridículo ou sua vazio. Aqui, o narrador "resume" o enredo romântico com objetividade quase escolar, produzindo um efeito de deboche.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "No mais é uma continuação do exame de português, uma retórica mais difícil" → compara o enredo amoroso da literatura de então a um exercício escolar repetitivo, esvaziando sua pretensa grandiosidade.
- Evidência 2: "por este tema sempre o mesmo" seguido do resumo mecânico da história de Dulce e Frederico → evidencia a fórmula fixa e previsível do folhetim romântico, narrada propositalmente como algo banal.
- Evidência 3: "Está acabada a história" e "Está aí o grande drama de amor em nossas letras" → o contraste entre a frase seca ("está acabada") e a expressão pomposa ("grande drama de amor") é a marca da ironia: o narrador finge elogiar o que, na verdade, ridiculariza.
- Síntese: Lima Barreto não está discutindo regionalismo, forma parnasiana ou classificação de estilos de época — ele está desmontando, com sarcasmo, o enredo-clichê do romance de folhetim romântico, revelando sua posição crítica e renovadora diante da tradição literária anterior.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o gênero que está sendo satirizado
O trecho narrado em poucas linhas — moça rica (Dulce) apaixonada por rapaz de família abastada mas sem emprego fixo (Frederico), pai contrário ao casamento por interesse financeiro, e uma terceira pessoa (a madre superiora, depois a mulher do ministro) que resolve o impasse arranjando um emprego — é exatamente o enredo-padrão dos romances de folhetim do Romantismo brasileiro: conflito de classe superado pelo amor, com final feliz garantido por intervenção externa.
Subpasso 4.2 — Identificar o tom do narrador diante desse enredo
Repare como o narrador não conta a história com entusiasmo ou comoção — ele a resume com frieza quase burocrática: "uma continuação do exame de português", "sempre o mesmo", "Está acabada a história". Esse contraste entre a seriedade emocional que o folhetim romântico pretende despertar e a secura/objetividade com que o narrador o descreve é a essência da ironia: o texto finge tratar do "grande drama de amor" apenas para expor o quanto esse drama é raso, mecânico e repetitivo.
Subpasso 4.3 — Verificação
Essa leitura converge diretamente para a alternativa B: "ironia ao folhetim da tradição romântica". Lima Barreto, autor de transição entre o século XIX e o modernismo, usa esse recurso para romper com o idealismo vazio herdado do Romantismo, marcando sua produção como renovadora e engajada com uma visão mais crítica da sociedade e da literatura brasileiras — coerente com o que se sabe de sua obra fora do fragmento (crítica social, ironia mordaz, recusa de fórmulas literárias vazias).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) releitura da importância do regionalismo.
❌ Incorreta: o regionalismo ("os populares do sertão") é mencionado apenas na frase inicial, como contraponto rápido, e não é retomado nem desenvolvido no restante do fragmento. O foco da crítica do narrador está no enredo urbano-burguês do folhetim romântico, não numa "releitura" do valor do regionalismo — tema que sequer é aprofundado no texto.
B) ironia ao folhetim da tradição romântica.
✅ Correta: o narrador descreve o enredo-clichê do romance de folhetim (amor contrariado por dinheiro, resolvido por intervenção externa, final feliz previsível) com um tom seco e debochado, evidenciando ironia. Esse recurso expõe a vazio e a repetição do modelo romântico, revelando a postura crítica e renovadora de Lima Barreto.
C) desconstrução da formalidade parnasiana.
❌ Incorreta: o fragmento não trata de elementos formais como métrica, rima, vocabulário rebuscado ou culto à forma — marcas do Parnasianismo. A crítica do texto incide sobre o conteúdo temático (o enredo amoroso repetitivo), não sobre questões formais/estéticas de outro movimento literário.
D) quebra da padronização do gênero narrativo.
❌ Incorreta: o texto faz exatamente o oposto de "quebrar" a padronização — ele evidencia e denuncia que o enredo é extremamente padronizado ("sempre o mesmo tema"). É essa repetição estrutural, e não sua ruptura, que sustenta a crítica irônica do narrador.
E) rejeição à classificação dos estilos de época.
❌ Incorreta: não há no fragmento qualquer discussão sobre periodização literária, categorias de estilos de época (Barroco, Arcadismo, Romantismo etc.) ou sua validade classificatória. A crítica é temática e de conteúdo, direcionada ao enredo do folhetim, não um debate metalinguístico sobre como classificar movimentos literários.
🏆 Gabarito: B — o fragmento usa a ironia para expor a vazio e a previsibilidade do enredo típico do folhetim romântico, marca da postura crítica e renovadora de Lima Barreto como autor de transição.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B nomeia corretamente o recurso (ironia) e o alvo certo dessa ironia (o folhetim da tradição romântica), únicos elementos efetivamente sustentados por evidências textuais.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede que o candidato reconheça ironia, crítica ou efeito de sentido em textos de autores de transição (Lima Barreto, Machado de Assis), avaliando a leitura além do conteúdo literal — é preciso perceber o "como" foi dito, não só o "o quê".
- Generalização: quando o enunciado perguntar em que se "fundamenta" a renovação ou a crítica de um autor, procure o contraste entre a seriedade do tema tratado e o tom (leve, seco, debochado) usado para tratá-lo — esse descompasso costuma ser a marca da ironia.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que citam elementos ausentes do texto (Parnasianismo, classificação de estilos de época) e as que contradizem a lógica central (o texto reforça a padronização, não a quebra); isso reduz a escolha a A e B — e a constatação de que o foco real do trecho é o enredo urbano-burguês, não o regionalismo, resolve a favor de B.
- Conexões: compare com a ironia machadiana como marca de estilo e com o romance de folhetim de José de Alencar, alvo indireto dessa mesma crítica que, décadas depois, o Modernismo de 1922 radicalizaria.
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