Mapa de questões · 1º dia
Questão 67 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
O feminismo teve uma relação direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico. Ele questionou a clássica distinção entre o “dentro” e o “fora”, o “privado” e o “público”. O slogan do feminismo era: “o pessoal é político”. Ele abriu, portanto, para a contestação política, arenas inteiramente novas: a família, a sexualidade, a divisão doméstica do trabalho etc.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2011 (adaptado).
O movimento descrito no texto contribui para o processo de transformação das relações humanas, na medida em que sua atuação
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Movimentos sociais, gênero e instituições sociais
- ⚡ Nível: Médio — exige articular o conceito sociológico de "instituição social" com a leitura de um trecho teórico denso (Stuart Hall)
- 🎯 Tema/Habilidade: Feminismo e transformação das instituições sociais; relacionar movimentos sociais à mudança da organização da vida coletiva
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é o efeito concreto do feminismo, descrito no texto, sobre as relações humanas?"
- Palavras-chave decisivas: "pessoal é político", "arenas inteiramente novas", "processo de transformação das relações humanas"
- Armadilha típica: trocar "transformar/redefinir" por verbos com carga negativa que soam parecidos, como subverter, abalar, segregar ou limitar — palavras que invertem o sentido de abertura e ampliação que o texto descreve.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que politizar o "privado" (família, sexualidade, trabalho doméstico) altera a própria forma como as instituições sociais funcionam, e não que o movimento restringe direitos ou fragmenta a sociedade.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Sujeito cartesiano/sociológico: noção moderna de identidade fixa e unificada, centrada na razão individual (herança de Descartes) e em papéis sociais estáveis. Hall discute como a pós-modernidade "descentra" esse sujeito, mostrando identidades múltiplas e socialmente construídas.
- Dicotomia público × privado: distinção liberal clássica que separava Estado e mercado (esfera pública, "política") da casa e da família (esfera privada, "não política"), fronteira que historicamente excluía temas de gênero do debate público.
- "O pessoal é político": slogan do feminismo (sobretudo da segunda onda, anos 1960-70) que rompe essa fronteira, mostrando que relações domésticas, sexuais e afetivas também são atravessadas por poder e devem ser discutidas politicamente.
- Instituições sociais: estruturas relativamente estáveis que organizam a vida coletiva (família, trabalho, Estado, religião). Por serem historicamente construídas, podem ser questionadas e reorganizadas por movimentos sociais.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "questionou a clássica distinção entre o 'dentro' e o 'fora', o 'privado' e o 'público'" → mostra que o feminismo rompe a fronteira que mantinha a vida doméstica isolada da vida política.
- Evidência 2: "abriu... para a contestação política, arenas inteiramente novas: a família, a sexualidade, a divisão doméstica do trabalho" → evidencia que espaços antes tratados como "naturais" e neutros (a organização da família, os papéis sexuais, quem cuida da casa) passam a ser objeto de disputa e reorganização política.
- Síntese: o texto descreve um processo de repolitização de esferas sociais inteiras. Na linguagem da sociologia, isso equivale a dizer que instituições que antes funcionavam sob lógicas tidas como imutáveis passam a ser reformuladas — ou seja, o feminismo redefine a dinâmica das instituições sociais, não as destrói, segrega ou restringe.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o processo central descrito por Hall
O trecho de Stuart Hall explica que o feminismo rompeu a fronteira rígida entre público e privado ao trazer para o debate político temas antes confinados à esfera doméstica: a família, a sexualidade e a divisão do trabalho no lar. Antes do feminismo, esses temas eram vistos como "naturais" — algo dado, fora do alcance da política. Depois, passaram a ser entendidos como construções sociais, logo, passíveis de contestação e mudança.
Subpasso 4.2 — Traduzir o processo para os termos da pergunta
A questão pede o efeito desse processo sobre "as relações humanas". Se o feminismo trouxe a política para dentro da família, da sexualidade e da divisão do trabalho doméstico, ele não apenas alterou opiniões individuais: ele mudou o funcionamento dessas instituições. Novas normas de convivência familiar, novos papéis de gênero no trabalho doméstico e novas formas de entender a sexualidade passam a coexistir com — ou substituir — os padrões antigos. Isso é, em termos sociológicos precisos, redefinir a dinâmica das instituições sociais.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa conclusão com as cinco alternativas, apenas uma descreve um efeito de transformação/reorganização institucional coerente com "abrir novas arenas de contestação política". As demais recorrem a verbos que contradizem o sentido de ampliação e inclusão presente no texto (subverter, abalar, segregar, limitar) ou introduzem categorias — como "classe dominante" e "segmentos populares" — que Hall não menciona nesse trecho.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) subverte os direitos de determinadas parcelas da sociedade.
❌ Incorreta: "subverter direitos" tem conotação de inverter ou retirar direitos já conquistados. O texto descreve exatamente o oposto: o feminismo amplia a pauta de direitos ao trazer para a política temas antes silenciados, e não os subverte.
B) abala a relação da classe dominante com o Estado.
❌ Incorreta: o texto de Hall não trata de classe social nem da relação entre "classe dominante" e Estado. A alternativa importa uma categoria (luta de classes) que não está em nenhum ponto do trecho, que discute gênero e a fronteira público/privado.
C) constrói a segregação dos segmentos populares.
❌ Incorreta: o texto fala em inclusão de novos temas na arena política (família, sexualidade, trabalho doméstico), não em segregação de ninguém. Além disso, "segmentos populares" remete a classe, categoria estranha ao recorte do texto, que é sobre gênero.
D) limita os mecanismos de inclusão das minorias.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. O feminismo amplia — não limita — os mecanismos de inclusão, justamente porque abre "arenas inteiramente novas" de contestação política para grupos antes excluídos do debate público.
E) redefine a dinâmica das instituições sociais.
✅ Correta: ao questionar a fronteira entre público e privado e transformar família, sexualidade e trabalho doméstico em arenas de disputa política, o feminismo reorganiza efetivamente o funcionamento dessas instituições — alterando normas, papéis e relações de poder dentro delas. É exatamente essa transformação institucional que o texto descreve.
🏆 Gabarito: E — o feminismo, ao politizar o que antes era tido como privado, muda a própria forma de operar das instituições sociais (família, trabalho, sexualidade), e é esse efeito de reorganização estrutural, não de restrição ou segregação, que o texto de Stuart Hall descreve.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que traduz fielmente o texto, sem inverter seu sentido (como A, C e D fazem) e sem importar categorias ausentes do trecho (como B e C fazem ao falar em classe).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de sociologia sobre movimentos sociais — feminismo, movimento negro, LGBTQIA+ — e sua relação com cidadania, esfera pública e instituições, citando autores como Stuart Hall, Bourdieu e Bauman.
- Generalização: quando um texto descreve um movimento social "questionando" ou "abrindo novas arenas" de debate, a alternativa correta quase sempre valoriza ampliação, inclusão ou transformação — raramente restrição, segregação ou subversão de direitos.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com verbos de sentido negativo forte (subverte, limita, segrega) quando o texto-base descrever abertura ou inclusão; elimine também as que citam atores não mencionados no texto (aqui, "classe dominante" e "segmentos populares").
- Conexões: esfera pública x esfera privada (Jürgen Habermas), cidadania e movimentos sociais, identidade e pós-modernidade (Stuart Hall).
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