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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 72ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia

O espírito humano controla as máquinas cada vez mais potentes que criou. Mas a lógica dessas máquinas artificiais controla cada vez mais o espírito dos cientistas, sociólogos, políticos e, de modo mais abrangente, todos aqueles que, obedecendo à soberania do cálculo, ignoram tudo o que não é quantificável, ou seja, os sentimentos, sofrimentos, alegrias dos seres humanos. Essa lógica é assim aplicada ao conhecimento e à conduta das sociedades, e se espalha em todos os setores da vida.

MORIN, E. O método 5: a humanidade da humanidade.  Porto Alegre: Sulina, 2012 (adaptado).

No contexto atual, essa crítica proposta por Edgar Morin se aplica à

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → crítica à racionalidade técnico-instrumental e à hegemonia da técnica na sociedade contemporânea
  • ⚡ Nível: Médio — exige traduzir um texto teórico abstrato de Edgar Morin em um conceito sociológico atual, sem que o termo-chave apareça de forma explícita no enunciado
  • 🎯 Tema/Habilidade: Crítica à hegemonia da lógica técnico-quantificadora sobre o conhecimento e a conduta social — leitura crítica de texto filosófico-sociológico e articulação com fenômenos do mundo atual
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "A que fenômeno contemporâneo se aplica a crítica de Morin sobre o predomínio da lógica das máquinas e do cálculo sobre o espírito humano?"
  • Palavras-chave decisivas: "a lógica dessas máquinas artificiais controla", "soberania do cálculo", "ignoram tudo o que não é quantificável"
  • Armadilha típica: confundir o alvo da crítica com temas que soam "modernos" mas não têm relação direta com o texto — economia (poder, mercado consumidor) ou trabalho (simplificação de tarefas). São distratores com vocabulário de sociedade contemporânea que desviam do verdadeiro objeto criticado.
  • O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer que Morin denuncia a inversão de controle entre homem e técnica — a lógica das máquinas, baseada no cálculo, virou parâmetro dominante de conhecimento e conduta, o que corresponde à valorização do paradigma tecnológico.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Racionalidade instrumental: conceito da Escola de Frankfurt (Horkheimer e Adorno) para uma razão voltada apenas ao cálculo eficiente de meios, esvaziada de reflexão sobre valores e sentimentos.
  • Pensamento complexo (Edgar Morin): crítica ao paradigma simplificador da ciência moderna, que fragmenta o real e privilegia o mensurável em detrimento da subjetividade humana.
  • Tecnocracia: modelo em que decisões científicas, sociais e políticas se baseiam em critérios técnicos e cálculos objetivos, deslocando a ética e a política a segundo plano.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "a lógica dessas máquinas artificiais controla cada vez mais o espírito dos cientistas, sociólogos, políticos" → inversão de controle: a tecnologia, criada para servir, passa a determinar o modo de pensar e agir.
  • Evidência 2: "obedecendo à soberania do cálculo, ignoram tudo o que não é quantificável, ou seja, os sentimentos, sofrimentos, alegrias" → o critério técnico-matemático vira parâmetro único de legitimidade, excluindo a subjetividade humana.
  • Evidência 3: "Essa lógica é assim aplicada ao conhecimento e à conduta das sociedades, e se espalha em todos os setores da vida" → não é fenômeno pontual, mas paradigma estrutural que atravessa ciência, política e cotidiano.
  • Síntese: o texto descreve a ascensão de um paradigma técnico-científico hegemônico como forma de organizar pensamento e ação social — a crescente valorização do paradigma tecnológico, núcleo da alternativa correta.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificando o núcleo da crítica de Morin

Morin não condena a tecnologia em si, mas a inversão de papéis entre criador e criatura: o ser humano constrói máquinas cada vez mais potentes, mas passa a ser governado pela lógica interna delas — o cálculo, a quantificação. Cientistas, sociólogos e políticos, que deveriam usar a técnica a serviço da vida, acabam obedecendo aos seus critérios, deixando de lado tudo que escapa ao número: sentimentos, sofrimentos, alegrias.

Subpasso 4.2 — Traduzindo em termos sociológicos contemporâneos

Quando um pensador descreve "o cálculo dominando o espírito humano e se espalhando por todos os setores da vida", ele descreve a hegemonia do paradigma tecnológico: a técnica e a lógica algorítmica tornam-se critério dominante para pensar, decidir e agir — em detrimento de valores éticos e afetivos. Esse fenômeno se vê hoje em indicadores de desempenho, algoritmos e IA, em que decisões humanas se curvam a parâmetros técnicos e quantitativos.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma expressa diretamente a ideia de que o paradigma técnico-quantificador se tornou dominante e supervalorizado: "valorização do paradigma tecnológico". As demais tratam de economia, mercado ou trabalho — ausentes do texto de Morin.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) intensificação das relações interpessoais.

❌ Incorreta: o texto sugere o oposto. Ao denunciar que o cálculo ignora sentimentos, sofrimentos e alegrias humanas, Morin aponta empobrecimento da dimensão afetiva, não sua intensificação. Não há menção a aumento de vínculos sociais.

B) descentralização do poder econômico.

❌ Incorreta: o texto não discute distribuição de poder econômico. A crítica é epistemológica e social — sobre o controle da lógica das máquinas sobre o pensamento humano, não sobre estruturas econômicas.

C) fragmentação do mercado consumidor.

❌ Incorreta: fragmentação de mercado é tema de sociologia do consumo, referindo-se à segmentação de públicos. É estranho ao argumento de Morin, que fala de lógica cognitiva imposta pela técnica, não de comportamento de consumidores.

D) valorização do paradigma tecnológico.

✅ Correta: é exatamente o que Morin denuncia — a lógica das máquinas, fundamentada no cálculo, tornou-se critério soberano de conhecimento e conduta, espalhando-se por todos os setores da vida. "Valorização" traduz com precisão essa hegemonia: o paradigma tecnológico deixou de ser instrumento e passou a ser o parâmetro dominante que orienta ciência, política e sociedade.

E) simplificação das atividades laborais.

❌ Incorreta: embora a tecnologia possa simplificar tarefas de trabalho, esse não é o alvo da crítica no trecho. Morin fala do controle do "espírito" — do pensamento, do conhecimento, da conduta — pela lógica do cálculo, não de automação de processos produtivos.

🏆 Gabarito: D — a crítica de Edgar Morin denuncia a hegemonia do paradigma técnico-quantificador (a "soberania do cálculo") sobre o pensamento e a conduta humanos, o que se expressa exatamente na valorização crescente do paradigma tecnológico como critério dominante de conhecimento e organização social.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D capta o núcleo do argumento de Morin — a dominação da lógica técnica e quantificadora sobre a esfera humana, correspondendo à valorização do paradigma tecnológico como parâmetro central da vida social.
  • Padrão de cobrança: o ENEM traz recorrentemente textos de pensadores como Morin, Weber, Adorno e Bauman que criticam a racionalidade técnico-instrumental, pedindo que o estudante reconheça o conceito sociológico por trás de uma descrição, sem citação literal do termo.
  • Generalização: sempre que o enunciado descrever uma lógica calculista "dominando" o pensamento ou a conduta humana, associe-o a racionalidade instrumental, tecnocracia ou paradigma tecnológico — nunca a economia, mercado ou trabalho, salvo se o texto tratar disso explicitamente.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas sobre economia (poder econômico, mercado consumidor) e sobre trabalho ou relações interpessoais — o texto de Morin trata de epistemologia e domínio da técnica sobre a razão, não de consumo, emprego ou sociabilidade.
  • Conexões: o tema dialoga com Max Weber (racionalização e "desencantamento do mundo") e com a Escola de Frankfurt (crítica à razão instrumental em Adorno e Horkheimer).

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