Mapa de questões · 1º dia
Questão 59 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômica, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária.
SILVA, J. G. O novo rural brasileiro. Nova Economia, n. 7, maio 1997.
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Geografia → Geografia Agrária / Espaço Rural e Urbano
- ⚡ Nível: Difícil — a questão exige distinguir dois conceitos geográficos próximos (diversificação econômica interna às propriedades × integração espacial de lugares em cadeias produtivas), armadilha clássica entre as alternativas A e C
- 🎯 Tema/Habilidade: O "novo rural brasileiro" e a diluição da fronteira entre rural e urbano; competência de compreender as transformações do espaço agrário brasileiro
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O texto mostra que rural e urbano se tornaram um contínuo espacial e econômico; a que fenômeno resulta essa nova configuração do campo brasileiro?"
- Palavras-chave decisivas: continuum, organização da atividade econômica, não podem mais ser identificadas apenas
- Armadilha típica: confundir a ideia de "diversificação econômica dentro do espaço rural" (o que o texto de fato descreve) com "integração de lugares distantes em cadeias produtivas" (um fenômeno de rede e fluxos, típico da globalização, mas que o texto não menciona)
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão do conceito de "novo rural brasileiro" — a ideia de que a propriedade rural deixou de gerar renda apenas da lavoura e da pecuária, passando a somar novas atividades econômicas, o que amplia sua capacidade de gerar riqueza
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Novo rural brasileiro: conceito cunhado por José Graziano da Silva nos anos 1990 para descrever a transformação do espaço rural, que deixa de se resumir à produção agropecuária e passa a incorporar atividades industriais e de serviços dentro da própria propriedade.
- Pluriatividade: combinação, numa mesma família ou propriedade rural, de atividades agrícolas tradicionais com atividades não agrícolas — agroindústria caseira, turismo rural, artesanato, prestação de serviços ambientais, moradia de veranistas, lazer.
- Continuum rural-urbano: a ideia de que não existe mais uma linha nítida separando cidade e campo, mas um gradiente contínuo de usos do espaço e de organização das atividades econômicas.
- Rendas não agrícolas (RNA): parcela crescente da renda das famílias rurais que provém de atividades fora da agropecuária propriamente dita, um dos pilares empíricos da tese do "novo rural".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano" → o texto não trata de uma fronteira espacial fixa que se rompeu por conexão logística, mas de uma reconfiguração qualitativa do que cada espaço passou a produzir e gerar economicamente.
- Evidência 2: "as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária" → frase-chave: explicita que TANTO o campo quanto a cidade diversificaram sua base econômica. O campo, especificamente, passou a abrigar atividades além da produção primária tradicional.
- Síntese: se "os campos" já não são apenas agricultura e pecuária, isso significa que as propriedades rurais passaram a hospedar outras atividades econômicas (agroindústria, turismo, serviços, lazer) somadas à produção agropecuária. O efeito direto e imediato dessa diversificação é o aumento da capacidade de geração de riqueza dentro dessas mesmas propriedades — exatamente o que a alternativa A descreve.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo teórico do texto
O trecho é a síntese do conceito de "novo rural brasileiro". Até os anos 1980, o senso comum geográfico associava rural a agropecuária e urbano a indústria/serviços. Graziano da Silva rompe essa equação: mostra que a partir da modernização conservadora da agricultura e da mecanização do campo, parte da população rural deixou de trabalhar exclusivamente na lavoura e passou a desenvolver atividades industriais de pequena escala (processamento de alimentos, artesanato) e de serviços (turismo rural, hotelaria fazenda, lazer, moradia de segunda residência) dentro do próprio espaço rural.
Subpasso 4.2 — Conectar o texto ao resultado econômico dessa transformação
Essa diversificação não é um fim em si mesma: ela tem uma consequência econômica concreta e mensurável — a propriedade rural, que antes tirava seu sustento exclusivamente da venda de produtos agropecuários, passa a somar novas fontes de receita (processamento e venda de derivados, hospedagem, passeios, artesanato, aluguel de espaços). Isso se traduz diretamente em aumento da geração de riqueza dentro das propriedades agrícolas, pois a mesma área física passa a produzir valor por múltiplos canais simultaneamente, em vez de um só.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao reler o texto perguntando "qual é o resultado concreto, em termos econômicos, dessa diluição rural-urbano descrita?", a resposta que se encaixa com maior precisão é o aumento da riqueza gerada nas propriedades — não a criação de emprego (que a mecanização tende a reduzir), não a integração logística entre lugares distantes (que é outro fenômeno geográfico), não a redução de desigualdades (tema ausente do texto) e não crises financeiras urbanas (também ausente). A alternativa A confirma-se como a única coerente com o recorte específico do texto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) aumento da geração de riquezas nas propriedades agrícolas.
✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve ao afirmar que "os campos" deixaram de se identificar apenas com agricultura e pecuária. A diversificação das atividades econômicas dentro da propriedade rural — agroindústria, turismo rural, serviços, artesanato — soma-se à produção agropecuária tradicional e amplia as fontes de renda de uma mesma unidade produtiva. Esse é justamente o núcleo empírico da tese do "novo rural brasileiro".
B) crescimento da oferta de empregos nas áreas cultiváveis.
❌ Incorreta: o texto não trata de emprego. Historicamente, a modernização e a diversificação do campo caminham junto com a mecanização, que reduz a demanda por mão de obra ligada diretamente ao cultivo, deslocando trabalhadores para outras funções — não necessariamente mais numerosas. Confundir "diversificação de atividades" com "mais vagas de trabalho na lavoura" é um erro conceitual comum.
C) integração dos diferentes lugares nas cadeias produtivas.
❌ Incorreta (a armadilha mais forte da questão): essa alternativa descreve um fenômeno de rede espacial — fluxos de mercadorias, insumos e informações conectando regiões distantes, típico da globalização produtiva. O texto, porém, não fala em conexão entre lugares diferentes; fala na reorganização interna da atividade econômica de cada espaço (o campo passando a ter atividades industriais/serviços, a cidade deixando de ser só indústria). É um erro por deslocamento de escala: trocar "diversificação dentro do lugar" por "integração entre lugares".
D) redução das desigualdades sociais nas regiões agrárias.
❌ Incorreta: o texto não menciona distribuição de renda nem desigualdade social em nenhum momento. Além disso, historicamente a capacidade de diversificar atividades no campo costuma ser maior entre propriedades com mais capital, o que tende a acentuar diferenças em vez de reduzi-las.
E) ocorrência de crises financeiras nos grandes centros.
❌ Incorreta: o texto não faz qualquer referência a crises financeiras ou a problemas específicos dos grandes centros urbanos; é um tema totalmente estranho ao recorte da citação, funcionando como distrator fácil de eliminar.
🏆 Gabarito: A — a única alternativa que capta o efeito econômico direto descrito no texto: a diversificação de atividades dentro do espaço rural (agroindústria, turismo, serviços) aumenta a geração de riqueza nas propriedades agrícolas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que traduz corretamente a consequência econômica da diluição rural-urbano relatada pelo texto — a multiplicação das fontes de renda dentro da propriedade rural.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com regularidade o tema "novo rural brasileiro", pluriatividade e a diluição da fronteira rural-urbana em questões de geografia agrária, frequentemente usando trechos de autores como José Graziano da Silva.
- Generalização: quando um texto descreve diversificação de atividades dentro de um mesmo espaço, a resposta correta tende a apontar para diversificação econômica/de renda daquele espaço — não para integração espacial entre lugares distintos, que é outro conceito (associado a redes, fluxos e globalização).
- Dica de eliminação rápida: descarte primeiro as alternativas que trazem temas ausentes do texto (D — desigualdade social; E — crises financeiras); depois, compare A e C com atenção: se o texto fala em transformação "dentro" do espaço, marque diversificação econômica (A); se falasse em conexão "entre" espaços distantes, marcaria integração de redes (C).
- Conexões: êxodo rural e novas ruralidades; agronegócio × agricultura familiar; o conceito de "cidades do campo" (Bernardo Mançano Fernandes) como contraponto ao "novo rural".
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