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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 45ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia

Eu gostaria de comentar brevemente as afinidades existentes entre comunidade, comunicação e comunhão. Essas afinidades começam no próprio radical das palavras em questão. Assim, se nosso alvo são os atos de interação comunicativa, temos que incluir em nosso objeto de estudo a ecologia dos atos de interação comunicativa, que se dão no contexto da ecologia da interação comunicativa. No entanto, não basta a proximidade espacial para que a comunicação se dê, é necessário que os potenciais interlocutores entrem em comunhão. Por fim, sem trocadilhos, a comunicação ideal se dá no interior de uma comunidade, entre indivíduos que entram em comunhão.

COUTO, H. H. O Tao da linguagem. Campinas: Pontes, 2012.

O trecho integra um livro sobre os aspectos ecológicos envolvidos na interação comunicativa. Para convencer o leitor das afinidades entre comunidade, comunicação e comunhão, o autor

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura crítica de texto acadêmico / estratégias argumentativas
  • ⚡ Nível: Difícil — o texto é abstrato (linguística acadêmica) e exige distinguir, com precisão, "informação gramatical" de "jogo de palavras" e de "apelo religioso", três leituras muito próximas e sedutoras
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer o recurso argumentativo usado pelo autor para construir sua tese (Competência de Área 1 — Linguagens: compreender textos considerando as condições de produção e recepção)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é o recurso que o autor usa como ponto de partida para argumentar a favor da proximidade entre comunidade, comunicação e comunhão?"
  • Palavras-chave decisivas: radical das palavras, sem trocadilhos, comunhão
  • Armadilha típica: associar "comunhão" a um apelo religioso, ou confundir a semelhança sonora das três palavras com um "jogo de palavras" proposital
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar de onde o autor tira a base do seu raciocínio — não do efeito sonoro das palavras, não da emoção, não da religião, mas de um dado da própria formação da palavra (a morfologia)

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Radical (morfologia): elemento que carrega o núcleo do significado lexical de uma palavra e se repete em toda a sua família de palavras. Dizer que "as afinidades começam no próprio radical" é uma observação de natureza gramatical, não estilística.
  • Trocadilho (jogo de palavras): recurso que explora semelhança sonora ou ambiguidade para produzir humor ou surpresa, sem compromisso com uma relação de sentido "real" entre os termos. O autor nega expressamente usar esse recurso.
  • Argumento por etimologia/formação da palavra: estratégia que usa a origem ou a estrutura interna de uma palavra como evidência de que os conceitos que ela nomeia estão relacionados — exatamente o que o texto faz ao partir do radical comum de "comunidade", "comunicação" e "comunhão".

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Essas afinidades começam no próprio radical das palavras em questão." → revela que o ponto de partida da argumentação é uma observação sobre a estrutura interna (morfológica/gramatical) das palavras, não sobre seu som ou sua carga emotiva.
  • Evidência 2: "Por fim, sem trocadilhos, a comunicação ideal se dá no interior de uma comunidade..." → o autor, textualmente, nega estar fazendo jogo de palavras. Essa negação explícita é a prova mais forte contra a alternativa que fala em "ambiguidade das palavras".
  • Síntese: O texto avança em três movimentos que dependem uns dos outros — radical comum → proximidade espacial → comunhão entre interlocutores —, mas o alicerce de tudo, o primeiro tijolo colocado pelo autor, é a informação de que as três palavras compartilham o mesmo radical. É daí que nasce toda a construção conceitual seguinte.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Localizar a tese e a primeira justificativa dada pelo autor

O autor defende que comunidade, comunicação e comunhão são conceitos afins. Logo na segunda frase, ele apresenta a justificativa inicial: "Essas afinidades começam no próprio radical das palavras em questão." O verbo "começam" indica o ponto de partida do raciocínio — o radical, ou seja, um dado de formação da palavra, um fato gramatical/etimológico (as três palavras derivam do latim communis/cum, "junto, em comum").

Subpasso 4.2 — Analisar a função argumentativa desse dado gramatical

Usar o radical comum não é enfeite estilístico: é a evidência que sustenta toda a tese. O autor não brinca com a sonoridade parecida das palavras (isso seria trocadilho), nem apela para emoção ou religião — ele mostra, com base em como as palavras são formadas, que existe relação de sentido real entre "comunidade", "comunicação" e "comunhão". A expressão "sem trocadilhos" funciona como um aviso do próprio autor: não se trata de jogo de palavras, há uma razão estrutural e gramatical para a aproximação.

Subpasso 4.3 — Verificação cruzando com as alternativas

Ao confrontar essa leitura com as cinco alternativas, apenas uma nomeia corretamente o recurso usado: partir de uma informação gramatical (o radical comum). As demais apontam para recursos que o texto não usa ou nega usar expressamente (trocadilho), que aparecem só como palavra isolada, sem função argumentativa central (religiosidade em "comunhão"), ou que não têm respaldo em nenhum trecho (comunidades interioranas, argumentos emotivos).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) nega a força das comunidades interioranas.

❌ Incorreta: não há, em nenhum momento do texto, menção a "comunidades interioranas" ou à vida rural. A alternativa associa livremente a palavra "comunidade" a um tema que o texto não aborda — armadilha por generalização indevida da palavra-gancho.

B) joga com a ambiguidade das palavras.

❌ Incorreta: é a alternativa mais tentadora, pois as três palavras realmente soam parecidas. Mas o próprio autor descarta essa leitura ao escrever "sem trocadilhos" — afirma explicitamente que não explora ambiguidade ou jogo sonoro, e sim uma relação estrutural real entre os termos.

C) parte de uma informação gramatical.

✅ Correta: o texto começa sua argumentação por "o próprio radical das palavras", informação de natureza gramatical/morfológica. É esse dado — não a sonoridade, não a emoção, não a religião — que fundamenta a tese das afinidades entre comunidade, comunicação e comunhão.

D) recorre a argumentos emotivos.

❌ Incorreta: o registro do texto é analítico e conceitual, típico de um linguista discutindo teoria da comunicação. Não há apelo a sentimentos ou linguagem emocional — o argumento é construído por encadeamento lógico de conceitos (radical → espaço → comunhão → comunicação ideal).

E) apela para a religiosidade.

❌ Incorreta: embora "comunhão" tenha, em outros contextos, forte conotação religiosa (como no sacramento católico), aqui a palavra é empregada em sentido técnico-linguístico, para descrever o estado de sintonia necessário entre interlocutores. O autor não menciona religião ou práticas religiosas em nenhum ponto do trecho.

🏆 Gabarito: C — o autor constrói sua argumentação a partir do radical comum das três palavras, uma informação de natureza gramatical, e não a partir de jogos sonoros, emoção ou religiosidade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a letra C é a única sustentada pelo texto porque a própria primeira justificativa do autor ("no próprio radical das palavras") é, por definição, um dado gramatical — e o autor ainda reforça essa escolha ao negar explicitamente o trocadilho.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede para identificar o recurso ou a estratégia argumentativa usada por um autor (recurso linguístico, tipo de argumento, efeito de sentido), sempre exigindo que o candidato aponte no texto a "pista" que sustenta cada opção.
  • Generalização: quando a questão pergunta "de onde o autor parte" ou "que recurso ele usa", procure sempre a primeira justificativa apresentada no texto — ela costuma indicar diretamente a estratégia argumentativa central.
  • Dica de eliminação rápida: leia com atenção redobrada qualquer negação explícita feita pelo próprio autor (aqui, "sem trocadilhos"): quando o texto nega um recurso, a alternativa que afirma exatamente esse recurso está, quase sempre, errada de propósito, como distrator.
  • Conexões: este tipo de questão dialoga com "recursos coesivos e argumentativos em textos dissertativos" e com "polissemia e campo semântico", temas recorrentes nas provas de Linguagens do ENEM.

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