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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 31ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol… Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e púrpura raiados,
Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…

Delineiam-se além da serrania
Os vértices de chamas aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia.

Um mundo de vapores no ar flutua…
Como uma informe nódoa avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua.

A natureza apática esmaece…
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula… Anoitece.

CORRÊA, R. Disponível em: www.brasiliana.usp.br. Acesso em: 13 ago. 2017.

Composição de formato fixo, o soneto tornou-se um modelo particularmente ajustado à poesia parnasiana. No poema de Raimundo Corrêa, remete(m) a essa estética:

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Estética Parnasiana (Escola Parnasiana) e leitura de poema em verso
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, dentro do próprio texto, qual traço formal é especificamente parnasiano, e não apenas "poético" em geral
  • 🎯 Tema/Habilidade: Características do Parnasianismo manifestadas na construção descritiva do soneto (Competência de Linguagens — reconhecer recursos expressivos e relacioná-los a um movimento estético)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual característica do Parnasianismo aparece no soneto de Raimundo Corrêa?"
  • Palavras-chave decisivas: formato fixo, poesia parnasiana, remete(m) a essa estética
  • Armadilha típica: confundir "presença de metáforas" ou "temas clássicos" — traços que aparecem em vários movimentos literários — com o que é exclusivamente definidor do Parnasianismo neste poema específico.
  • O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa correta precisa apontar um recurso que (1) esteja de fato no texto e (2) seja um traço historicamente reconhecido como parnasiano, não apenas um traço poético genérico.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Parnasianismo: movimento poético brasileiro de fins do século XIX (Olavo Bilac, Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira — o "Trio Parnasiano"), marcado pelo culto à forma fixa (o soneto é seu gênero preferido), pelo rigor métrico e pela ideia de "arte pela arte".
  • Descrição plástica/escultural: a marca mais reconhecível do Parnasianismo é transformar a linguagem em quase um quadro ou uma escultura — descrever com precisão visual cores, formas, luzes e sombras, como se o poeta "pintasse" a cena com palavras.
  • Objetividade aparente x sentimento contido: diferentemente do Romantismo (que expõe o "eu" de forma direta e exclamativa), o parnasiano não elimina o sentimento — ele o expressa através da própria descrição, deixando a cena "falar" pelo estado de espírito, sem confissões diretas.
  • Impassibilidade parnasiana: busca de controle formal e emocional, mas isso não significa ausência total de emoção no texto — significa que a emoção é canalizada pela técnica descritiva, não jogada cruamente ao leitor.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Esbraseia o Ocidente na agonia / O sol… Aves em bandos destacados, / Por céus de ouro e púrpura raiados, / Fogem…" → descrição minuciosa e cromática do pôr do sol — cores (ouro, púrpura), movimento (aves fugindo), como um pintor detalhando uma tela.
  • Evidência 2: "Como uma informe nódoa avulta e cresce / A sombra à proporção que a luz recua." → imagem visual precisa (a sombra como "nódoa" que cresce) que constrói, por acumulação descritiva, a sensação de tristeza do entardecer, sem o eu lírico dizer "estou triste".
  • Síntese: o poema é, do início ao fim, uma sequência de quadros visuais (o sol se apagando, as aves fugindo, a sombra crescendo, a lua surgindo trêmula) — é por meio dessa descrição encadeada que a melancolia do entardecer é comunicada ao leitor. A técnica descritiva não é decoração: ela é o próprio veículo de expressão do sentimento.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a forma fixa e o gênero

O enunciado já entrega o dado histórico: "Composição de formato fixo, o soneto tornou-se um modelo particularmente ajustado à poesia parnasiana." Isso ancora a questão no Parnasianismo e pede que se busque, no conteúdo do poema, uma característica que dialogue com esse rigor formal.

Subpasso 4.2 — Mapear o que o poema efetivamente faz

Verso a verso, o poema não narra uma ação nem faz uma declaração de sentimento em primeira pessoa. Ele descreve uma paisagem em transformação: o sol se esvaindo em chamas ("Esbraseia... na agonia"), as aves fugindo pelo céu colorido, a linha da serra recortada contra o horizonte, a névoa que "flutua", a sombra que cresce "como uma informe nódoa", e por fim a lua que surge "trêmula, trêmula". Esse encadeamento é puramente descritivo, imagético, quase pictórico.

Subpasso 4.3 — Verificação: a descrição É a expressividade

A "melancolia" do poema ("tons suaves de melancolia", "A natureza apática esmaece") não é anunciada diretamente pelo eu lírico como um sentimento pessoal — ela emerge da própria descrição da natureza. O leitor sente o entardecer melancólico porque o poeta descreveu, com precisão quase plástica, o esmaecer da luz e o avanço da sombra. Portanto, a descrição funciona como o meio pelo qual a expressividade (o efeito emocional) chega ao leitor — exatamente o que afirma a alternativa D. Essa é a marca mais característica da técnica parnasiana: substituir a efusão lírica direta por um relato visual detalhado que, por si só, produz o efeito de sentido.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) as metáforas inspiradas na visão da natureza.

❌ Incorreta: o poema realmente contém metáforas ("a pálpebra do dia", "a sombra... como uma informe nódoa"), mas metáfora de natureza não é um traço exclusivo nem definidor do Parnasianismo — está presente também no Romantismo e em quase toda a tradição lírica. Não é o elemento que especificamente remete à estética parnasiana.

B) a ausência de emotividade pelo eu lírico.

❌ Incorreta: o poema não é emocionalmente neutro — há claramente atmosfera de melancolia ("tons suaves de melancolia", "A natureza apática esmaece"). O Parnasianismo busca controle formal e impassibilidade na forma de dizer, mas isso não equivale a "ausência de emotividade" no texto; a emoção está presente, apenas veiculada de modo indireto, via descrição — o que contraria diretamente esta alternativa.

C) a retórica ornamental desvinculada da realidade.

❌ Incorreta: a descrição do poema não está "desvinculada da realidade" — ao contrário, ela é extremamente fiel e concreta ao fenômeno natural do entardecer (cores do céu, movimento das aves, avanço da sombra, surgimento da lua). É uma descrição ancorada na observação da natureza, não um ornamento vazio ou abstrato.

D) o uso da descrição como meio de expressividade.

✅ Correta: é exatamente o procedimento identificado no Passo 4 — o poema constrói sua carga emotiva (a melancolia do entardecer) por meio de uma descrição visual, minuciosa e encadeada da paisagem, sem recorrer a exclamações diretas do eu lírico. Essa "pintura verbal" da natureza como veículo do sentimento é a marca mais reconhecível da técnica parnasiana, coerente com o culto à forma mencionado no enunciado.

E) o vínculo a temas comuns à Antiguidade Clássica.

❌ Incorreta: embora o Parnasianismo em geral dialogue, em muitos poemas, com temas e referências greco-latinas (mitologia, arte clássica), este soneto específico não faz nenhuma menção a elementos da Antiguidade Clássica — trata-se de uma cena de entardecer na natureza, sem qualquer referência mitológica ou histórica clássica.

🏆 Gabarito: D — a descrição minuciosa, visual e encadeada da paisagem ao entardecer é o instrumento pelo qual o poema constrói e comunica sua atmosfera melancólica, procedimento típico da técnica parnasiana de expressar por meio da forma descritiva.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D descreve com precisão o que o texto de fato realiza — usar a descrição da natureza como veículo da expressividade —, sem contradizer nenhuma evidência do poema, ao contrário das demais opções.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer um poema parnasiano (frequentemente de Bilac, Raimundo Corrêa ou Alberto de Oliveira) acompanhado de um comando que pede a identificação de UMA característica da escola manifestada no próprio texto — a resposta certa está sempre ancorada em evidências textuais, não em conhecimento genérico sobre o movimento.
  • Generalização: em questões sobre escolas literárias, elimine alternativas que descrevem características que "soam certas" sobre o movimento em geral, mas que não se sustentam com trechos concretos do poema apresentado — a prova cobra leitura do texto, não decoreba de manual.
  • Dica de eliminação rápida: procure no poema uma marca de sentimento explícito (se houver, "ausência de emotividade" cai) e uma referência a mitologia/Antiguidade (se não houver, essa opção cai); o que sobrar tende a ser sustentado por evidência textual direta.
  • Conexões: compare com questões sobre Romantismo (subjetividade explícita, exclamações, "eu lírico" em primeiro plano) e sobre Realismo/Naturalismo (descrição a serviço da crítica social) para perceber como a mesma técnica descritiva assume funções diferentes em cada escola literária.

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