Mapa de questões · 1º dia
Questão 27 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
Para que a passagem da produção ininterrupta de novidade a seu consumo seja feita continuamente, há necessidade de mecanismos, de engrenagens. Uma espécie de grande máquina industrial, incitante, tentacular, entra em ação. Mas bem depressa a simples lei da oferta e da procura segundo as necessidades não vale mais: é preciso excitar a demanda, excitar o acontecimento, provocá-lo, espicaçá-lo, fabricá-lo, pois a modernidade se alimenta disso.
CAUQUELIN, A. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2005 (adaptado).
No contexto da arte contemporânea, o texto da autora Anne Cauquelin reflete ações que explicitam
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → mercado de arte e crítica da arte contemporânea; Português → interpretação de texto argumentativo
- ⚡ Nível: Médio — o texto é abstrato e metafórico ("máquina industrial", "espicaçar"), exigindo que o aluno traduza a linguagem figurada para um conceito concreto (o mercado de arte).
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica da arte contemporânea e sua relação com o mercado — competência de leitura e análise de textos que discutem produção cultural e valores de mercado.
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O texto de Anne Cauquelin descreve um fenômeno da arte contemporânea — que fenômeno é esse?"
- Palavras-chave decisivas: "máquina industrial", "excitar a demanda", "fabricá-lo"
- Armadilha típica: confundir "quem consome" (o público) com "quem produz o mecanismo de consumo" (o mercado). A questão fala do sistema que cria a demanda, não de quem simplesmente a satisfaz.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que a autora descreve um conjunto de estratégias — engrenagens, uma "máquina" — usadas para transformar a produção artística em algo consumível e vendável continuamente, isto é, mecanismos de mercado.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Arte contemporânea e mercantilização: a partir do século XX, a obra de arte passou a circular dentro de uma lógica industrial e comercial — galerias, feiras, leilões, curadores e a mídia especializada atuam como "engrenagens" que fazem a obra transitar da criação ao consumo.
- Anne Cauquelin (crítica de arte francesa): em "Arte Contemporânea: uma Introdução", a autora analisa como o valor da arte contemporânea não depende apenas da qualidade estética, mas de um sistema de legitimação e circulação — um verdadeiro "mercado do novo", que precisa constantemente gerar acontecimentos (exposições, escândalos, lançamentos) para se manter funcionando.
- Lei da oferta e da procura "insuficiente": o texto afirma que a simples oferta e procura naturais não bastam; é preciso "excitar", "provocar" e "fabricar" a demanda — ou seja, criar artificialmente o desejo de consumo, prática típica de estratégias mercadológicas (marketing, especulação, hype).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "há necessidade de mecanismos, de engrenagens. Uma espécie de grande máquina industrial, incitante, tentacular, entra em ação" → a autora usa metáforas industriais para descrever um sistema organizado, com múltiplas partes que atuam coordenadamente — típico de uma estrutura de mercado, não de uma ação isolada do artista ou do público.
- Evidência 2: "é preciso excitar a demanda, excitar o acontecimento, provocá-lo, espicaçá-lo, fabricá-lo" → os verbos de ação (excitar, provocar, fabricar) indicam agentes ativos que manipulam o desejo de consumo — exatamente o papel de galerias, marchands, curadores e demais agentes do mercado de arte, que precisam "vender" a novidade continuamente.
- Síntese: o texto não fala do artista criando por vocação, nem do consumidor decidindo por gosto próprio, nem de mecenas ou de verbas públicas — fala de um sistema estruturado que fabrica demanda para sustentar o fluxo entre produção e consumo. Isso corresponde exatamente aos métodos do mercado de arte.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito da ação no texto
O trecho não atribui a ação a um único indivíduo (o artista) nem a uma instituição de fomento (Estado ou mecenas), mas a um sistema impessoal: "mecanismos", "engrenagens", "máquina industrial". Esse vocabulário técnico-industrial é a primeira pista de que se trata de uma estrutura comercial organizada, e não de uma escolha pessoal ou artística.
Subpasso 4.2 — Traduzir a metáfora para o campo da arte contemporânea
Cauquelin descreve o funcionamento do sistema que transforma a produção artística (a "novidade") em algo consumível. Esse sistema precisa "excitar a demanda" e "fabricar o acontecimento" — ou seja, criar eventos, hype, exposições e narrativas em torno das obras para garantir que elas sejam compradas e valorizadas continuamente. Essa é a definição clássica de estratégia de mercado: criar e sustentar demanda artificialmente, para além da simples relação natural entre oferta e procura.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao reler o texto com a chave "métodos do mercado de arte", cada elemento se encaixa: a "máquina industrial" = o sistema de galerias, feiras, leilões e mídia especializada; "excitar a demanda" = estratégias de marketing e especulação; "a modernidade se alimenta disso" = a lógica capitalista de consumo aplicada ao campo artístico. Nenhuma outra alternativa (consumidor, mecenas, artista, Estado) explica coerentemente todos os termos do trecho. Isso confirma a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) métodos utilizados pelo mercado de arte.
✅ Correta: o texto descreve, por meio de metáforas industriais ("engrenagens", "máquina", "fabricá-lo"), o funcionamento de um sistema organizado que cria e excita a demanda pela arte contemporânea — isso é exatamente a atuação do mercado de arte (galerias, curadoria, leilões, mídia especializada) para transformar produção em consumo contínuo.
B) investimentos realizados por mecenas.
❌ Incorreta: mecenato é o apoio financeiro individual e voluntário de um patrono à produção artística, sem necessariamente visar lucro ou consumo em massa. O texto não fala de patrocínio pessoal, mas de um sistema impessoal e industrial voltado à circulação comercial contínua da arte — conceito distinto do mecenato.
C) interesses do consumidor de arte.
❌ Incorreta: o texto não descreve o que o consumidor deseja ou busca; pelo contrário, mostra que a demanda precisa ser "excitada" e "fabricada" por um mecanismo externo. O consumidor é o alvo da ação, não o agente que a promove — logo, a alternativa inverte o papel descrito no trecho.
D) práticas cotidianas do artista.
❌ Incorreta: o texto não menciona o processo criativo do artista nem sua rotina de produção. A "máquina industrial" descrita atua depois da criação, na etapa de circulação e consumo da obra — é um sistema externo ao ato artístico em si, e não uma prática do próprio criador.
E) fomentos públicos à cultura.
❌ Incorreta: fomento público envolve políticas de Estado, editais e verbas governamentais para incentivar a produção cultural. O texto de Cauquelin trata de um sistema movido pela lógica de "oferta e procura" e pela necessidade de lucro contínuo — uma dinâmica de mercado privado, não de investimento público.
🏆 Gabarito: A — o texto de Cauquelin usa metáforas industriais para descrever como o mercado de arte contemporânea precisa fabricar e excitar continuamente a demanda, revelando seus métodos de funcionamento.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A explica coerentemente todos os elementos do texto — o caráter sistêmico, industrial e comercial da "máquina" que fabrica demanda pela novidade artística.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz textos de crítica ou teoria da arte/cultura (Cauquelin, Canclini, Bourdieu, entre outros) que exigem do aluno decodificar linguagem metafórica e abstrata para identificar o conceito sociológico ou mercadológico por trás dela.
- Generalização: em textos teóricos sobre arte e cultura, atente-se aos verbos de ação e aos substantivos que indicam "sistema", "mecanismo" ou "engrenagem" — eles quase sempre apontam para estruturas institucionais ou de mercado, não para ações individuais do artista ou do público.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que citem agentes específicos não mencionados no texto (mecenas, Estado, artista) — se o trecho fala de "mecanismos" e "máquina" de forma impessoal, a resposta tende a apontar para uma estrutura coletiva e institucional, como o mercado.
- Conexões: relacione com temas de indústria cultural (Adorno e Horkheimer) e com a lógica da sociedade de consumo aplicada aos bens simbólicos e culturais.
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