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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaMédio

Questão 50ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia

Uma privatização do espaço maior do que aquela proporcionada pelo quarto evidencia-se cada vez mais nos séculos XVII e XVIII. Como as ruelles [espaço entre a cama e a parede], as alcovas são espaços além do leito, longe da porta que dá acesso à sala (ou à antecâmara, nas casas da elite). Thomas Jefferson, tecnólogo do estilo século XVIII, mandou construir uma parede em torno de sua cama a fim de fechar completamente o pequeno cômodo além do leito — cômodo no qual só ele podia entrar, descendo da cama do lado da ruelle.
RANUM, O. Os refúgios da intimidade. In: CHARTIER, R. (Org.). História da vida privada: da Renascença ao Século das Luzes. São Paulo: Cia. das Letras, 2009 (adaptado).

A partir do século XVII, a história da casa, que foi se modificando para atender aos novos hábitos dos indivíduos, provocou o(a)

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → História da Vida Privada e da Mentalidade (Idade Moderna)
  • ⚡ Nível: Médio — exige interpretação fina de um texto historiográfico denso, sem apoio de datas ou nomes decoráveis
  • 🎯 Tema/Habilidade: Transformações da privacidade e da arquitetura doméstica nos séculos XVII-XVIII (Competência de Área 5 do ENEM — analisar processos sociais, econômicos e culturais de dominação e resistência, aqui aplicado à história da vida privada)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que o exemplo dos espaços (ruelle, alcova, quarto murado de Jefferson) evidencia sobre a organização da casa nos séculos XVII-XVIII?"
  • Palavras-chave decisivas: privatização do espaço, alcovas/ruelles, cômodo no qual só ele podia entrar
  • Armadilha típica: confundir "privatização do espaço maior" com "aumento do tamanho dos cômodos" e marcar a alternativa A por associação automática entre "mais privacidade" e "mais espaço físico"
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entendeu que o fenômeno descrito é a multiplicação de cômodos com funções e graus de acesso cada vez mais específicos — não o crescimento das casas, nem qualquer elemento decorativo ou de outro cômodo (cozinha, jardim, corredor) que sequer é citado no texto

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • História da vida privada (Chartier/Ariès): campo da historiografia que investiga como noções de intimidade, individualidade e privacidade foram construídas historicamente, não sendo dados naturais, mas frutos de mudanças sociais e arquitetônicas.
  • Ruelle e alcova: microambientes surgidos dentro do próprio quarto nos séculos XVII-XVIII — a ruelle é o espaço entre a cama e a parede, usado para receber visitas íntimas; a alcova é um recuo ainda mais reservado, distante da porta de acesso à sala. Ambos mostram a casa se subdividindo em zonas de acesso restrito.
  • Especialização dos aposentos: processo pelo qual cada cômodo (ou subespaço dentro de um cômodo) passa a ter uma função específica e um público de acesso delimitado, em contraste com a Idade Média, quando um único salão comportava dormir, comer, receber e trabalhar simultaneamente.
  • O caso Jefferson: um "tecnólogo do estilo do século XVIII" leva esse processo ao extremo — constrói uma parede para isolar um pequeno cômodo atrás da própria cama, acessível apenas por ele, pelo lado da ruelle. É a especialização levada ao limite individual: um espaço com uma única função (resguardar sua intimidade) e um único usuário autorizado.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Uma privatização do espaço maior do que aquela proporcionada pelo quarto evidencia-se cada vez mais nos séculos XVII e XVIII" → o quarto, que já era uma conquista de privacidade em relação ao salão coletivo medieval, deixa de ser suficiente: surgem subdivisões ainda mais específicas dentro dele.
  • Evidência 2: "as alcovas são espaços além do leito, longe da porta que dá acesso à sala [...] Thomas Jefferson [...] mandou construir uma parede em torno de sua cama a fim de fechar completamente o pequeno cômodo além do leito — cômodo no qual só ele podia entrar" → cada novo espaço citado (ruelle, alcova, cômodo de Jefferson) tem uma função e um grau de acesso próprios e cada vez mais restritos, ou seja, a casa se organiza por especialização funcional dos ambientes, não por ampliação de área.
  • Síntese: o texto narra uma sequência de subdivisões cada vez menores e mais específicas dentro da residência — do salão único, ao quarto, à alcova, ao cubículo pessoal de Jefferson — o que caracteriza exatamente a especialização (diferenciação de função e de acesso) dos aposentos, e não seu alargamento físico.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno histórico central

O texto de Orest Ranum, parte da coletânea organizada por Roger Chartier sobre a história da vida privada, descreve um processo bem documentado pela historiografia das mentalidades: entre os séculos XVII e XVIII, a casa europeia (e, no caso de Jefferson, também a americana) deixa de ser um espaço amplamente coletivo — onde dormir, comer, trabalhar e receber visitas aconteciam nos mesmos ambientes — e passa a se fragmentar em cômodos cada vez mais específicos. Isso não significa que as casas ficaram maiores; significa que os espaços internos passaram a ser diferenciados por função e por quem tinha permissão de acessá-los.

Subpasso 4.2 — Analisar os exemplos dados como escala crescente de especialização

O texto apresenta uma progressão muito clara: (1) o quarto já era uma privatização em relação ao salão comum; (2) dentro do quarto, surge a ruelle, um espaço entre a cama e a parede, reservado a conversas íntimas; (3) a alcova vai além, criando um recuo mais isolado, longe da porta de acesso à sala; (4) Jefferson radicaliza o processo ao mandar erguer uma parede para isolar um pequeno cômodo atrás da própria cama, ao qual só ele tinha acesso, entrando exclusivamente pelo lado da ruelle. Cada etapa dessa progressão cria um ambiente com finalidade e público mais restritos que o anterior — a definição exata de especialização dos aposentos.

Subpasso 4.3 — Verificação

Se o fenômeno fosse "ampliação dos recintos" (alternativa A), o texto destacaria casas ou cômodos maiores — mas descreve exatamente o oposto: um "pequeno cômodo" cada vez mais recolhido e murado. Não há qualquer menção a corredores, cozinha ou jardins nas alternativas B, C e D, o que já as descarta por ausência total de base textual. Resta a alternativa E, que descreve com precisão o padrão observado: cômodos (aposentos) ganhando funções e públicos de acesso cada vez mais específicos e restritos — a especialização dos aposentos.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) ampliação dos recintos.

❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. O movimento descrito é de recolhimento e fragmentação do espaço em cômodos cada vez menores e mais reservados (a ruelle, a alcova, o "pequeno cômodo" de Jefferson), não de aumento das dimensões da casa ou dos cômodos. Confundir privacidade com metragem é a armadilha central da questão.

B) iluminação dos corredores.

❌ Incorreta: corredores e iluminação não aparecem em nenhum momento do texto. É uma alternativa sem qualquer lastro na fonte, criada apenas para testar se o candidato buscará (equivocadamente) associações genéricas com "arquitetura do século XVIII".

C) desvalorização da cozinha.

❌ Incorreta: a cozinha não é mencionada nem direta nem indiretamente. O texto trata exclusivamente da esfera do quarto e de seus desdobramentos íntimos (ruelle, alcova, cômodo de Jefferson), não de hierarquias entre cômodos da casa como um todo.

D) embelezamento dos jardins.

❌ Incorreta: jardins também estão ausentes do trecho. Assim como B e C, é um distrator temático — remete vagamente à cultura material do Antigo Regime, mas não corresponde a nenhuma evidência do enunciado.

E) especialização dos aposentos.

✅ Correta: descreve com exatidão o processo narrado — quarto, ruelle, alcova e o cômodo murado de Jefferson formam uma cadeia de espaços cada vez mais específicos em função e em restrição de acesso. Essa multiplicação de ambientes com finalidade própria e usuário delimitado é, por definição, a especialização dos aposentos.

🏆 Gabarito: E — o texto descreve a criação sucessiva de cômodos com funções e acessos cada vez mais restritos (quarto → ruelle → alcova → cômodo pessoal de Jefferson), fenômeno que a historiografia da vida privada chama de especialização dos aposentos, e não de ampliação, iluminação, desvalorização ou embelezamento de qualquer espaço da casa.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E tem respaldo textual direto e coerência conceitual com a história da privacidade: os exemplos citados (ruelle, alcova, cômodo de Jefferson) são todos casos de subdivisão funcional do espaço doméstico, não de crescimento, iluminação, desvalorização ou ornamentação.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa trechos de "História da Vida Privada" (coleção Chartier/Ariès/Duby) para testar a leitura de processos sociais de longa duração — aqui, a construção histórica da intimidade e do individualismo moderno, tema caro à Competência de Área 5 de Ciências Humanas.
  • Generalização: em questões que citam fragmentos de obras historiográficas sobre cotidiano e mentalidades, a resposta correta costuma ser a que sintetiza o padrão geral observado nos exemplos do texto — nunca um detalhe isolado, nem um elemento (cômodo, objeto, prática) que não foi mencionado.
  • Dica de eliminação rápida: primeiro, risque toda alternativa que cite um elemento ausente do texto (aqui, corredor, cozinha e jardim somem em segundos); depois, desconfie de alternativas que "parecem óbvias" por senso comum, como associar privacidade a mais espaço — no texto, o movimento é exatamente o contrário, de recolhimento e subdivisão.
  • Conexões: o tema dialoga com a obra "História da Vida Privada" de Philippe Ariès e Georges Duby (mesma coleção) e com processos correlatos como a "civilização dos costumes" de Norbert Elias, que também associa modernidade a maior controle e individualização dos comportamentos e espaços.

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