Mapa de questões · 1º dia
Questão 24 — ENEM 2019 PPLCaderno azul · 1º Dia
A máquina extraviada
Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou — não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas — quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos. […] Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal. […] Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.
VEIGA, J. J. A máquina extraviada: contos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.
Qual procedimento composicional caracteriza a construção do texto?
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Narrativa em prosa, discurso do narrador e recursos de interlocução
- ⚡ Nível: Médio — o traço correto não salta aos olhos numa única frase; é preciso perceber um recurso que se repete ao longo de todo o texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Procedimentos composicionais do texto narrativo (competência de leitura de gêneros e recursos expressivos — Matriz ENEM, Linguagens)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual estratégia de construção organiza este texto do início ao fim?"
- Palavras-chave decisivas: procedimento composicional, construção do texto, caracteriza
- Armadilha típica: confundir um detalhe pontual do conteúdo (uma menção à crendice popular, um comentário isolado do narrador) com o procedimento que sustenta o texto inteiro. A questão não pergunta "o que aparece no texto", mas "o que organiza o texto como um todo".
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar o recurso estrutural predominante e constante, não apenas presente em uma frase isolada.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Procedimento composicional: a forma como o autor organiza a estrutura do texto — a voz que narra, para quem ela fala e como o discurso se encadeia — para produzir determinado efeito de sentido.
- Marcas de interlocução: elementos linguísticos que evidenciam a presença de um destinatário explícito dentro do próprio texto: pronomes de 2ª pessoa ("você"), vocativos ("compadre"), verbos que remetem a um ato de comunicação dirigido ("contar", "lhe"), expressões de cumplicidade ("aqui para nós").
- Gênero epistolar/relato dialogado: texto que simula uma carta ou uma conversa, no qual o narrador responde a algo que o interlocutor teria perguntado ou comentado antes, criando um efeito de proximidade e oralidade.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante." → o texto já abre respondendo a uma pergunta de um interlocutor nomeado, ou seja, nasce de uma relação de conversa, não de uma narrativa impessoal em terceira pessoa.
- Evidência 2: "Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente" → o narrador chama o destinatário pelo nome de tratamento ("o compadre") e usa um imperativo dirigido diretamente a ele, reforçando o vínculo pessoal entre quem escreve e quem lê.
- Evidência 3: "isso — aqui para nós — eu acho que é exagero de gente supersticiosa" → a expressão "aqui para nós" pressupõe cumplicidade e proximidade com o leitor, como se fosse um segredo compartilhado entre os dois.
- Síntese: do primeiro ao último parágrafo, o narrador não apenas relata fatos: ele fala com alguém específico, comenta, faz ressalvas e pede cumplicidade a esse "você". Esse direcionamento constante do discurso a um interlocutor é o fio condutor da construção do texto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a situação de comunicação
O trecho é apresentado como uma espécie de carta ou relato oral dirigido a um "compadre" que mora fora do sertão descrito. Note que o texto não começa apresentando o cenário de forma impessoal (como faria um narrador onisciente clássico); ele começa retomando uma pergunta que o interlocutor teria feito: "Você sempre pergunta pelas novidades daqui". Isso já indica que a estrutura do texto é dialógica, não puramente descritiva.
Subpasso 4.2 — Mapear as marcas de interlocução ao longo de todo o texto
Reunindo as ocorrências: "Você sempre pergunta...", "posso lhe contar", "Fique o compadre sabendo...", "isso — aqui para nós —", "Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular". Repare que esses elementos não estão concentrados em um único trecho: eles aparecem no início, no meio e no fechamento do texto. Isso é o que caracteriza um procedimento composicional: um recurso que estrutura o texto inteiro, e não um detalhe isolado.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao comparar esse mapeamento com as cinco alternativas, apenas uma nomeia exatamente esse fenômeno recorrente e estrutural — a presença constante de um interlocutor explícito dentro do discurso. As demais alternativas descrevem elementos que aparecem no texto, mas de forma pontual, isolada, não como o eixo organizador de toda a construção textual. Isso confirma que a resposta correta é a alternativa que trata das marcas de interlocução.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) As intervenções explicativas do narrador.
❌ Incorreta: há, de fato, um pequeno comentário do narrador sobre si mesmo ("não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas"), mas isso é uma intervenção pontual, não o procedimento que sustenta a construção de todo o texto. Uma "intervenção explicativa" corrigiria ou esclareceria algo para o leitor de forma didática — o que não é o eixo central aqui.
B) A descrição de uma situação hipotética.
❌ Incorreta: a máquina, o entusiasmo da população, o movimento para declará-la monumento e até os supostos milagres são apresentados como fatos que estariam ocorrendo na comunidade, não como suposições ou cenários hipotéticos. Não há uso de condicional ou de construções que marquem hipótese.
C) As referências à crendice popular.
❌ Incorreta: a menção a "milagre" e a "gente supersticiosa" é apenas um detalhe temático, restrito a uma frase do texto. Um único comentário sobre superstição não é suficiente para caracterizar o procedimento composicional de todo o relato — é conteúdo, não estrutura.
D) A objetividade irônica do relato.
❌ Incorreta: o relato é claramente subjetivo, cheio de opiniões pessoais e ressalvas ("eu acho que é exagero", "prefiro não ficar falando no assunto", "não espero dela nada em particular"). Há um leve tom irônico ao mencionar a briga dos políticos, mas isso está longe de configurar "objetividade" — pelo contrário, o texto é marcado pela subjetividade opinativa do narrador.
E) As marcas de interlocução.
✅ Correta: do primeiro parágrafo ("Você sempre pergunta... posso lhe contar") ao último ("Eu — e creio que também a grande maioria dos munícipes — não espero dela nada em particular"), o texto se constrói como um discurso dirigido a um interlocutor específico e nomeado ("o compadre"). Pronomes de segunda pessoa, vocativos e expressões de cumplicidade atravessam toda a construção textual, tornando a interlocução o procedimento composicional predominante.
🏆 Gabarito: E — as marcas de interlocução (o diálogo constante com o "compadre") perpassam o texto do início ao fim, sendo o traço estrutural mais evidente e persistente de toda a construção do relato.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa E é a única que descreve um recurso presente em todo o texto — não um detalhe isolado, mas o fio condutor que estrutura a fala do narrador do início ao fim.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma pedir o "procedimento" ou "recurso que caracteriza a construção do texto" em crônicas, cartas e contos narrados em primeira pessoa, testando se o estudante distingue estrutura de conteúdo pontual.
- Generalização: sempre que o texto tiver pronomes de segunda pessoa, vocativos, perguntas retomadas ou expressões de cumplicidade dirigidas a um "você" explícito, o procedimento composicional central tende a ser a interlocução — o texto foi construído como uma conversa, não como um relato impessoal.
- Dica de eliminação rápida: procure o recurso que se repete do começo ao fim do texto; alternativas que citam apenas um detalhe pontual (uma crença, uma explicação isolada) quase sempre são descartáveis, porque "procedimento composicional" exige um traço constante, estrutural.
- Conexões: gêneros epistolares e crônicas dialogadas, discurso direto e marcas de oralidade, dêixis pessoal (pronomes que apontam para os participantes da comunicação).
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