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Questão 88ENEM 2023 PPL

Na medida em que as pesquisas dos africanistas avançaram, muitos mitos caíram por terra. Está mais do que provada a existência de documentação e vestígios arqueológicos dos mais variados, além da importância da oralidade na recuperação da memória dos reinos, das linhagens, dos fundadores das nações africanas. Com efeito, aquelas foram sociedades eminentemente orais, nas quais os dados históricos ocupam uma posição muito mais importante do que consideramos em nossa própria cultura e sociedade.

MACEDO, J. R. Antigas civilizações africanas: historiografia e evidências documentais. In: MACEDO, J. R. (Org.). Desvendando a história da África. Porto Alegre: UFRGS, 2008 (adaptado).

Com vista ao conhecimento da história das civilizações africanas, o texto corrobora a importância de

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Historiografia da África; fontes históricas e tradição oral
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é claro, mas a questão testa a capacidade de descartar fontes externas/coloniais (bíblia, viajantes, missões) que soam plausíveis à primeira vista
  • 🎯 Tema/Habilidade: A oralidade como fonte histórica legítima na reconstrução da memória das civilizações africanas; leitura crítica de texto historiográfico
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual tipo de fonte histórica o texto aponta como fundamental para reconstruir a memória das civilizações africanas?"
  • Palavras-chave decisivas: importância da oralidade, sociedades eminentemente orais, recuperação da memória
  • Armadilha típica: confundir a menção genérica a "documentação" com fontes externas específicas — bíblia, diários europeus, crônicas jesuíticas ou manuscritos árabes. Nenhuma delas é o que o texto está, de fato, elogiando.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o(a) candidato(a) entende "oralidade" como sinônimo técnico de "registros da comunicação verbal" e reconhece que o texto valoriza fontes internas às próprias sociedades africanas, não relatos produzidos por agentes externos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Historiografia africanista: campo consolidado a partir de meados do século XX — a Coleção UNESCO de História Geral da África, coordenada por Joseph Ki-Zerbo, reúne arqueologia, linguística histórica e tradição oral para reconstruir sociedades por séculos lidas apenas pelo olhar europeu.
  • Tradição oral como documento histórico: em sociedades sem escrita alfabética generalizada, os griots (poetas-genealogistas, guardiões da memória de corte) preservavam, por cantos, provérbios e narrativas transmitidas de geração em geração, genealogias reais e feitos históricos — verdadeiros arquivos vivos.
  • O mito do "povo sem história": construção eurocêntrica (reforçada por Hegel, que negou à África lugar na "História Universal") segundo a qual sociedades ágrafas não produziriam conhecimento histórico confiável. "Muitos mitos caíram por terra" refere-se à superação desse preconceito.
  • Fontes internas x externas: diários de viajantes, crônicas jesuíticas e doutrinas cristãs são produzidos por agentes externos (europeus), com frequência carregados de juízo de valor colonial; diferem das fontes internas — orais e arqueológicas — que expressam a perspectiva das próprias sociedades africanas.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "muitos mitos caíram por terra" → sinaliza que o texto vai desconstruir um preconceito historiográfico: o de que a África não teria fontes confiáveis de sua própria história.
  • Evidência 2: "documentação e vestígios arqueológicos dos mais variados, além da importância da oralidade" → o conectivo "além da" mostra que a oralidade não é um item secundário na lista, mas um acréscimo que o autor faz questão de destacar.
  • Evidência 3: "sociedades eminentemente orais, nas quais os dados históricos ocupam uma posição muito mais importante do que consideramos em nossa própria cultura" → comparação explícita entre a centralidade da palavra falada nessas sociedades e o lugar secundário que a oralidade ocupa na cultura escrita do autor — eleva a fala ao status de documento histórico de primeira grandeza.
  • Síntese: o fio condutor do texto é a reabilitação da palavra falada como fonte histórica válida; a resposta correta precisa nomear precisamente essa fonte, em linguagem técnica equivalente a "oralidade".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do comando

A pergunta pede a fonte histórica cuja importância o texto "corrobora" (confirma, reforça) para o conhecimento da história das civilizações africanas. É preciso separar o que o texto apenas menciona como já comprovado (documentação e vestígios arqueológicos, citados de forma genérica) daquilo que ele destaca com ênfase redobrada — a oralidade, retomada duas vezes no trecho: "importância da oralidade" e "sociedades eminentemente orais".

Subpasso 4.2 — Traduzir "oralidade" para a linguagem das alternativas

"Oralidade" é tudo aquilo que é transmitido pela fala: cantado, recitado, contado de geração em geração — sem depender de suporte escrito. Entre as cinco alternativas, apenas uma converte esse conceito em termos técnicos equivalentes: "registros da comunicação verbal" (C). As demais remetem a fontes essencialmente escritas — Bíblia, diários, narrativas jesuíticas, manuscritos — exatamente o oposto do que o texto celebra.

Subpasso 4.3 — Verificação

Basta reler o comando substituindo a lacuna pela alternativa C: "o texto corrobora a importância dos registros da comunicação verbal." A frase se encaixa perfeitamente em "importância da oralidade" e em "sociedades eminentemente orais". Nenhuma das outras quatro alternativas produz esse encaixe: todas remetem a fontes escritas de origem externa, ausentes do texto e associadas justamente ao olhar colonial que os "mitos" desconstruídos representavam.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) doutrinas da tradição bíblica.

❌ Incorreta: tradição escrita de origem externa, historicamente associada a leituras eurocêntricas sobre a África — inclusive a interpretações distorcidas, como a chamada "maldição de Cam", usada para justificar a escravização de povos africanos. O texto não cita fonte religiosa alguma; celebra a superação de leituras externas em favor de fontes produzidas pelas próprias sociedades africanas.

B) diários dos viajantes europeus.

❌ Incorreta: registram o olhar de observadores estrangeiros, quase sempre datado e eurocêntrico. O texto critica implicitamente esse tipo de fonte ao afirmar que "muitos mitos caíram por terra" — mitos historicamente sustentados por relatos de viajantes que descreviam a África como um continente "sem história".

C) registros da comunicação verbal.

✅ Correta: traduz tecnicamente o conceito de "oralidade", elemento central e reiterado no texto. Reconhecer a fala, os cantos e as narrativas transmitidas de geração em geração como fonte histórica válida é o cerne da nova historiografia africanista, que rompe com o paradigma de que apenas a escrita produz história confiável.

D) narrativas das missões jesuíticas.

❌ Incorreta: registros escritos de religiosos católicos europeus durante a catequese/colonização, refletindo o ponto de vista da evangelização — não a perspectiva interna das sociedades africanas. Fonte externa, o oposto do que o texto valoriza.

E) manuscritos dos povos muçulmanos.

❌ Incorreta: crônicas árabo-islâmicas (como as de Ibn Battuta ou o Tarikh al-Sudan) são, de fato, fontes escritas relevantes para reinos como Mali e Songhai — mas o texto não faz nenhuma referência a elas. O destaque recai exclusivamente sobre a oralidade como fonte "muito mais importante" nessas sociedades, recorte que esta alternativa não contempla.

🏆 Gabarito: C — o texto defende explicitamente a centralidade da oralidade ("sociedades eminentemente orais") na reconstrução da memória histórica africana, e apenas a alternativa C expressa esse conceito em termos técnicos equivalentes: registros da comunicação verbal.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que verbaliza tecnicamente o conceito-chave repetido duas vezes no texto — oralidade / sociedades orais — por isso é a única resposta possível.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a valorização da tradição oral e da história da África e afro-brasileira, em sintonia com a Lei 10.639/03 e a BNCC, quase sempre contrapondo fontes internas (orais, arqueológicas) a fontes externas de matriz colonial (viajantes, missionários, cronistas europeus).
  • Generalização: em questões sobre historiografia africana, elimine alternativas ligadas a fontes europeias, cristãs ou coloniais sempre que o texto-base enaltecer explicitamente saberes e registros produzidos pelas próprias sociedades estudadas.
  • Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que cite "viajantes", "missões" ou "doutrinas religiosas" quando o texto contrapuser a visão eurocêntrica à interna — quase sempre sobra a fonte "de dentro" (oral, arqueológica ou de cronistas locais).
  • Conexões: griots e reinos do Sahel (Mali, Songhai, Gana); Coleção UNESCO — História Geral da África; Lei 10.639/03 e o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana.

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