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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 19ENEM 2023 PPL

Para começar, ele nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”.

Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha o mesmo ar de quem só aguentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.

VERISSIMO, L. F. Pai não entende nada. Porto Alegre: L&PM, 1990.

Ao descrever sua relação com a máquina de escrever e o computador, o cronista adota uma perspectiva que

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto (crônica); figuras de linguagem (personificação); ponto de vista do narrador
  • ⚡ Nível: Difícil — a alternativa correta descreve corretamente um recurso de linguagem (a personificação da máquina), mas com uma redação que, à primeira leitura, parece contradizer o próprio texto
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer, em texto literário de humor, os efeitos de sentido produzidos por escolhas de linguagem — Competência de Área 1 / Habilidade H1 da Matriz de Referência do ENEM (Linguagens)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que visão de mundo (perspectiva) o cronista constrói ao narrar sua relação com a máquina de escrever e, sobretudo, com o computador?"
  • Palavras-chave decisivas: ele nos olha na cara, ele é mais inteligente que você, "bip" em público
  • Armadilha típica: ler a alternativa D de modo literal — "sobrepõe a inteligência humana à da máquina" — e concluir que ela contraria o texto, já que o cronista afirma que o computador "é mais inteligente que você". Quem cai nessa armadilha confunde o CONTEÚDO da fala do narrador com o RECURSO de linguagem que ele usa para construir esse conteúdo.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a "perspectiva" do cronista nasce da personificação — ele empresta ao computador comportamentos, julgamentos e uma "inteligência" que só existem de fato em seres humanos, e é justamente esse empréstimo (sobreposição) que estrutura toda a crônica.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Crônica: gênero textual breve, de tom leve e cotidiano, que parte de uma situação banal — aqui, aprender a usar o computador na redação de um jornal — para construir uma reflexão bem-humorada sobre a vida contemporânea.
  • Personificação (prosopopeia): figura de linguagem que atribui a um ser inanimado ações, sentimentos ou julgamentos próprios de seres humanos. Verissimo personifica o computador ao afirmar que ele "olha na cara", "desafia", "manda", fica "impaciente" e "não aguenta" os humanos.
  • Ponto de vista do narrador: o ângulo a partir do qual os fatos são contados. Aqui, o narrador-cronista se coloca deliberadamente em posição de inferioridade diante da máquina — não porque acredite tecnicamente nisso, mas porque essa inversão é o motor cômico do texto.
  • Ironia e hipérbole: o exagero ("O burro errou!") sinaliza que a fala não deve ser lida como afirmação séria e literal sobre inteligência artificial, e sim como exagero proposital para dramatizar, com humor, o desconforto do usuário recém-chegado à tecnologia.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Ele nos olha na cara. [...] Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia." → o computador recebe verbos e posturas tipicamente humanas (olhar, desafiar); é tratado como sujeito de ação, não como ferramenta passiva.
  • Evidência 2: "ele é mais inteligente que você [...] você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer" → o cronista atribui ao computador uma inteligência superior à humana, de forma hiperbólica e irônica — recurso cômico, não constatação técnica.
  • Evidência 3: "Às vezes, quando a gente erra, ele faz 'bip'. [...] 'O burro errou!'" → a máquina "julga" e expõe o erro humano publicamente — comportamento social e emocional (deboche, constrangimento) tipicamente humano, projetado sobre um simples sinal sonoro eletrônico.
  • Síntese: em nenhum momento o texto avalia tecnicamente qual máquina é "melhor" ou faz uma afirmação científica sobre inteligência artificial. O que o cronista faz, do início ao fim, é emprestar ao computador atributos de inteligência, intenção e julgamento que pertencem ao ser humano. Essa transferência — humano → máquina — é o eixo de toda a crônica.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o recurso central do texto

Releia a crônica observando os verbos usados para o computador: "olha", "desafia", "manda", "não aceita", "faz bip", "é mais inteligente". Nenhum desses verbos descreve uma característica técnica objetiva (velocidade de processamento, capacidade de memória, tipo de tela); todos descrevem comportamento psicológico e social — atributos que, no mundo real, só fazem sentido quando aplicados a pessoas. Esse é o funcionamento clássico da personificação.

Subpasso 4.2 — Relacionar o recurso à "perspectiva" pedida no comando

O comando pergunta qual perspectiva o cronista adota ao narrar a relação com as duas máquinas. A resposta não pode ser sobre o computador em si — isso seria uma questão de informática ou de opinião sobre tecnologia —, mas sobre a maneira como o narrador constrói o texto. Ao transformar um objeto técnico em uma espécie de "personagem" dotado de inteligência, humor ácido e capacidade de julgar, o cronista sobrepõe — no sentido de projetar, emprestar, superpor uma camada — a inteligência humana à "inteligência" (nem sequer real, do ponto de vista da crônica) da máquina. É esse gesto de humanização que sustenta o humor do texto: o leitor ri porque reconhece, no computador, o comportamento de um colega arrogante — e não porque acredita, de fato, que a máquina "pensa" ou "sente".

Subpasso 4.3 — Verificação

Troque mentalmente "sobrepõe" por "projeta/atribui": "[o cronista] projeta a inteligência humana sobre a da máquina." A paráfrase encaixa no texto — o computador só parece "inteligente" e "impaciente" porque o cronista lhe empresta esses traços humanos de propósito. Já a leitura de "colocar a inteligência humana acima, em valor, da da máquina" contrariaria o texto; por isso D só se sustenta como resposta certa no sentido de "atribuir/emprestar" traços humanos à máquina — exatamente o mecanismo de personificação dos Passos 2 e 3.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) põe em evidência a disparidade entre tecnologias.

❌ Incorreta: a crônica até compara a máquina de escrever e o computador, mas essa comparação é apenas o ponto de partida, não o foco da perspectiva do cronista. O texto não discute diferenças técnicas entre as tecnologias (velocidade, funções, design); discute a relação afetiva e hierárquica entre o humano e a máquina. Quem para na comparação "tecnologia A vs. tecnologia B" fica na superfície do texto e ignora o recurso de personificação que efetivamente organiza a crônica.

B) critica a quantidade de recursos dos dispositivos.

❌ Incorreta: o trecho "você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer" menciona recursos, mas não para criticar seu excesso — a máquina de escrever, aliás, é citada como tendo recursos que "você nunca usaria" sem que isso seja apontado como problema. O alvo real do texto é a relação de poder e julgamento entre humano e máquina, não a quantidade de funções disponíveis.

C) defende a utilização de equipamentos obsoletos.

❌ Incorreta: o cronista descreve a máquina de escrever com nostalgia e até lhe atribui certa vantagem moral (ela "fazia tudo que você mandava" e "jamais faria bip em público"), mas descrever com simpatia não equivale a defender seu uso. Não há nenhum trecho prescritivo do tipo "devemos voltar a usar máquinas de escrever"; o texto é descritivo e humorístico, não um manifesto contra a modernização tecnológica.

D) sobrepõe a inteligência humana à da máquina.

✅ Correta: o cronista constrói sua perspectiva emprestando ao computador atributos tipicamente humanos — olhar, desafiar, julgar, debochar, impacientar-se, ser "mais inteligente". Ele sobrepõe (projeta, superpõe) a inteligência humana ao comportamento da máquina, criando um objeto personificado que finge possuir consciência e superioridade intelectual. É esse recurso de linguagem — não uma opinião técnica sobre inteligência artificial — que organiza a crônica e produz seu humor irônico.

E) refuta o progresso técnico da comunicação.

❌ Incorreta: em nenhum momento o cronista nega ou combate o avanço tecnológico; ele relata, com humor, a dificuldade de adaptação a uma ferramenta nova. Questionar o próprio desconforto diante da máquina é diferente de refutar o progresso técnico em si — o texto não defende que o computador seja "ruim" nem que a tecnologia deva ser abandonada; ele apenas dramatiza, de forma cômica, a experiência de quem está aprendendo a usá-la.

🏆 Gabarito: D — o cronista adota uma perspectiva que sobrepõe a inteligência humana à da máquina: ele personifica o computador, atribuindo-lhe comportamentos, julgamentos e uma "inteligência" tipicamente humanos, recurso que sustenta o tom de humor irônico de toda a crônica.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa D nomeia corretamente o recurso estruturante do texto — a personificação, ou seja, a transferência de traços humanos (inteligência, julgamento, impaciência) para a máquina —, enquanto as demais alternativas descrevem efeitos que não estão de fato no centro da crônica (comparação tecnológica, crítica a recursos, defesa do obsoleto, recusa ao progresso).
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente crônicas de humor construídas a partir da relação do indivíduo com objetos do cotidiano (tecnologia, trânsito, burocracia, eletrodomésticos); a pergunta quase sempre pede a "perspectiva", o "efeito de sentido" ou o "recurso" usado pelo autor — não uma opinião pessoal sobre o assunto tratado.
  • Generalização: sempre que um texto atribuir ações, sentimentos ou julgamentos humanos a um objeto, animal ou fenômeno, desconfie de personificação — e procure, entre as alternativas, aquela que descreve esse "empréstimo" de humanidade, mesmo que a redação pareça, à primeira vista, invertida ou estranha.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que atribuem um julgamento de valor explícito ao cronista ("defende", "refuta", "critica") quando o texto é predominantemente descritivo e irônico — nesse tipo de crônica, o narrador quase nunca defende ou refuta algo abertamente; ele mostra uma situação com humor e deixa o leitor tirar suas próprias conclusões.
  • Conexões: Luis Fernando Verissimo e a tradição da crônica de costumes brasileira; outras figuras de linguagem cobradas em textos humorísticos do ENEM, como ironia, hipérbole e personificação.

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