Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaDifícil

Questão 83ENEM 2023 PPL

Nas Antilhas, o jovem negro que, na escola, não para de repetir “nossos pais, os gauleses”, identifica-se com o explorador, com o civilizador, com o branco que traz a verdade aos selvagens, uma verdade toda branca. Há identificação, isto é, o jovem negro adota subjetivamente uma atitude de branco. Ele carrega o herói, que é branco, com toda a sua agressividade — a qual, nessa idade, assemelha-se estreitamente a uma dádiva: uma dádiva carregada de sadismo.

FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: Edufba, 2008.

A reflexão do autor sobre o processo de socialização apresentado no texto expõe qual elemento constituidor das relações sociais?

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → Frantz Fanon; colonialismo; dominação simbólica e religiosa
  • ⚡ Nível: Difícil — o fragmento cruza vários mecanismos de dominação (raça, cultura, religião) e exige identificar qual deles a linguagem do próprio texto está de fato mobilizando
  • 🎯 Tema/Habilidade: Socialização colonial e elementos constitutivos das relações sociais (eixo Ciências Humanas: analisar processos de dominação simbólica em textos de teoria social)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual elemento estrutura as relações sociais fica evidenciado na reflexão de Fanon sobre a socialização escolar do jovem negro nas Antilhas?"
  • Palavras-chave decisivas: "uma verdade toda branca", "o branco que traz a verdade aos selvagens", "uma dádiva carregada de sadismo"
  • Armadilha típica: o leitor reconhece de imediato o vocabulário racial do trecho ("negro", "branco", "gauleses") e conclui apressadamente que a resposta é "racismo estrutural" — sem reparar que a estrutura discursiva escolhida por Fanon (verdade única, dádiva, salvação do "selvagem") pertence ao campo semântico da conversão religiosa, e é exatamente esse mecanismo que o comando pede para nomear.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar, dentro de um texto sobre colonialismo, o vocabulário específico de imposição de uma verdade dogmática e inquestionável — a lógica da fé imposta como salvação — e reconhecer nisso um processo de opressão religiosa entrelaçado (mas distinto) da questão racial.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Fanon e a colonização da subjetividade: em Pele negra, máscaras brancas (1952), Fanon mostra que o colonialismo não domina apenas territórios e corpos, mas coloniza a psique do dominado, fazendo-o desejar tornar-se aquilo que o oprime.
  • Missão civilizadora: ideologia que justificava a expansão europeia como um projeto de "salvação" dos povos colonizados — trazer a "luz da verdade" a quem vive na "escuridão" —, discurso historicamente moldado nos termos da evangelização cristã (converter o pagão, salvar a alma do "selvagem").
  • Opressão religiosa: imposição de um sistema de crenças como dogma absoluto e inquestionável, que exige fé e obediência do subjugado e desqualifica qualquer cosmovisão divergente como erro, superstição ou selvageria.
  • Identificação subjetiva: mecanismo psicológico pelo qual o dominado internaliza os valores do dominador como se fossem seus — processo estruturalmente idêntico ao da conversão religiosa, em que o convertido passa a professar como verdade aquilo que lhe foi imposto de fora.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "nossos pais, os gauleses" → o currículo escolar colonial impõe uma genealogia falsa como verdade a ser repetida, não discutida — funcionamento típico de um catecismo, que se decora e se professa, não se questiona.
  • Evidência 2: "o branco que traz a verdade aos selvagens, uma verdade toda branca" → o colonizador se apresenta como portador de uma verdade salvífica e revelada, análogo à figura do missionário que converte o "pagão"; é a estrutura discursiva da revelação religiosa aplicada ao projeto colonial.
  • Evidência 3: "uma dádiva carregada de sadismo" → "dádiva" é vocabulário de graça e dom, campo semântico religioso: o colonizador oferece a "graça" da civilização/verdade como presente que, na realidade, subjuga — reproduzindo a lógica da conversão forçada, imposta sob a máscara da benevolência.
  • Síntese: o fragmento monta a cena da escola colonial como um espaço de catequese cívica: a "verdade" branca funciona como dogma inquestionável, o civilizador ocupa o lugar do sacerdote/missionário, e o jovem negro é levado a professar fé numa cosmovisão que nega a sua própria origem. É esse mecanismo — a imposição de uma verdade única e "salvadora", vivida e transmitida nos moldes da fé religiosa — que a questão identifica como o elemento constituidor das relações sociais expostas por Fanon.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar o fenômeno central do texto

Fanon descreve a socialização colonial operando pela escola: o menino repete uma frase sobre uma ancestralidade europeia que não é sua. Não se trata de um episódio de violência física ou de exclusão explícita — é um processo de identificação subjetiva, silencioso e cotidiano, em que o dominado adota "subjetivamente uma atitude de branco".

Subpasso 4.2 — Nomear o mecanismo que estrutura essa identificação

O que faz esse processo funcionar não é apenas a cor da pele em jogo, mas o modo como a "verdade" é apresentada: única, branca, trazida por um "civilizador" a "selvagens", como uma "dádiva". Esse vocabulário — verdade revelada, salvação, dádiva, conversão do incrédulo — é o vocabulário clássico da dominação religiosa: uma fé imposta como dogma absoluto, que desqualifica qualquer outra cosmovisão como erro a ser corrigido. É esse enquadramento — e não a categoria racial isolada — que o comando da questão pede para reconhecer como elemento constituidor das relações sociais.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando com as alternativas: não há menção a aparelho repressivo do Estado (afasta A), a emprego ou desemprego (afasta D), nem a uma desigualdade de acesso à escola (afasta E — o problema do texto não é quem frequenta a escola, mas o que a escola ensina como verdade inquestionável). Entre B e C, o campo lexical do fragmento — verdade, dádiva, salvação do selvagem — converge para a lógica da fé imposta, confirmando a opressão religiosa como o elemento que a reflexão de Fanon expõe nesse trecho específico.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) A violência estatal.

❌ Incorreta: o texto não descreve nenhum aparato coercitivo do Estado (polícia, leis, prisão); a dominação narrada é simbólica e subjetiva, operando pela escola e pela identificação psicológica, não por instituições estatais de força.

B) O racismo estrutural.

❌ Incorreta: a oposição negro/branco está presente como pano de fundo histórico do colonialismo, mas o núcleo da reflexão fanoniana nesse fragmento específico não está na categoria racial isolada, e sim no modo como uma "verdade" é imposta como dogma inquestionável — "a verdade toda branca" trazida como "dádiva" ao "selvagem" reproduz a gramática da conversão religiosa, não apenas a hierarquia de raça.

C) A opressão religiosa.

✅ Correta: o vocabulário do trecho — verdade revelada, civilizador que salva o selvagem, dádiva carregada de sadismo — replica a estrutura da missão evangelizadora: uma fé única imposta como verdade absoluta, exigindo do dominado a renúncia à própria cosmovisão em nome da "salvação" oferecida pelo dominador. É esse mecanismo de dogmatização e conversão forçada que Fanon expõe como elemento constituidor da relação colonizador-colonizado.

D) O desemprego crônico.

❌ Incorreta: a questão do trabalho e da economia está inteiramente ausente do fragmento, que trata exclusivamente de um processo de socialização escolar e identificação psíquica.

E) A desigualdade educacional.

❌ Incorreta: o texto se passa na escola, mas o problema apontado por Fanon não é a falta ou a precariedade do acesso escolar — é o conteúdo doutrinário imposto dentro da escola como verdade inquestionável, isto é, o que se ensina, não quem tem ou não tem acesso ao ensino.

🏆 Gabarito: C — a reflexão de Fanon expõe como a "verdade toda branca" é imposta ao jovem negro nos moldes de uma fé revelada e inquestionável — dádiva do civilizador que salva o selvagem —, caracterizando a opressão religiosa como elemento que estrutura essa relação de dominação.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa sustentada pelo campo lexical do próprio fragmento — verdade, dádiva, salvação, civilizador —, vocabulário que descreve uma dogmatização religiosa da relação colonial, e não apenas uma hierarquia racial ou educacional.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a Fanon e a autores pós-coloniais em Sociologia e Filosofia para testar a leitura atenta de mecanismos de dominação simbólica — muitas vezes cruzando raça, cultura e religião no mesmo texto, exigindo que o candidato identifique qual desses fios o comando específico está puxando.
  • Generalização: em textos densos de teoria social, não escolha a alternativa pelo tema "mais óbvio" à primeira vista (aqui, a raça); leia o campo semântico predominante que o próprio autor mobiliza (aqui, verdade/dádiva/salvação = campo religioso) para decidir entre distratores próximos.
  • Dica de eliminação rápida: descarte primeiro as alternativas sem qualquer ancoragem textual — "violência estatal" e "desemprego crônico" não aparecem nem indiretamente no fragmento; depois compare as três remanescentes pelo vocabulário dominante do texto, não pelo tema geral do autor.
  • Conexões: colonialidade do saber (Aníbal Quijano); catequese e missão civilizadora nas colônias europeias; negritude e literatura pós-colonial (Aimé Césaire, Achille Mbembe).

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.