Mapa de questões · 1º dia
Questão 82 — ENEM 2023 PPL
TEXTO I

Cais do Valongo – Rio de Janeiro (RJ). Disponível em: https://www.rio.rj.gov.br. Acesso em: 19 jul. 2023.
TEXTO II
Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas, o Cais do Valongo, localizado no Rio de Janeiro (RJ), passou a integrar a lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1º de março de 2017. O Brasil recebeu perto de quatro milhões de escravos durante os mais de três séculos de duração do regime escravagista. Pelo Cais do Valongo, na região portuária da cidade, passou aproximadamente um milhão de africanos escravizados em cerca de 40 anos, o que o tornou o maior porto receptor de escravos do mundo.
FRAZÃO, F. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 3 nov. 2021.
Ao ser reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, o sítio arqueológico mencionado inscreve-se como
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → escravidão atlântica; patrimônio cultural; memória afro-brasileira
- ⚡ Nível: Médio — o texto é direto, mas a alternativa correta exige ir além da leitura óbvia e captar um conceito histórico específico: a permanência de tradições, não só o sofrimento em si
- 🎯 Tema/Habilidade: Patrimonialização do Cais do Valongo pela Unesco; leitura e articulação de fontes históricas (texto e imagem) sobre a diáspora africana no Brasil
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o reconhecimento do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial pela Unesco representa simbolicamente?"
- Palavras-chave decisivas: Patrimônio Mundial, principal porto de entrada de africanos escravizados, um milhão de africanos
- Armadilha típica: ler a questão só pela chave do sofrimento genérico ("povos oprimidos") e marcar a alternativa mais óbvia, sem perceber que a banca pede o recorte mais específico: o que se fixou e permaneceu naquele território depois do desembarque.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a patrimonialização não é o simples registro de um evento doloroso, mas o reconhecimento de um território onde uma população de origem estrangeira (africana, trazida à força) construiu e manteve tradições culturais duradouras.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Cais do Valongo: wharf de 1811 na região portuária do Rio, principal ponto de desembarque de africanos escravizados nas Américas; soterrado no século XIX e redescoberto em escavações de 2011 (obras do Porto Maravilha).
- Patrimônio Mundial da Unesco: título dado a bens de "valor universal excepcional", concedido quando o local ultrapassa o fato local e diz respeito à humanidade — aqui, a rota transatlântica do tráfico.
- "Pequena África" do Rio de Janeiro: nome histórico do entorno do Valongo (Gamboa, Saúde, Santo Cristo), que concentrou a maior densidade de população africana da cidade — reduto onde samba, capoeira e religiões de matriz africana se enraizaram e permanecem vivos.
- Memória x tradição: memória é o registro de um fato passado; tradição é a permanência viva de práticas culturais no presente — distinção que separa as alternativas mais concorridas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas" → aponta uma população nascida fora do Brasil, de origem estrangeira, ainda que trazida sob violência.
- Evidência 2: "passou aproximadamente um milhão de africanos escravizados em cerca de 40 anos" → a escala explica por que, no entorno do cais, formou-se uma concentração populacional capaz de gerar e sustentar tradições próprias — um fluxo massivo e contínuo, não um episódio isolado.
- Síntese: a imagem do sítio (Texto I) mostra as pedras do antigo cais preservadas no meio do tecido urbano atual do Rio — um enclave físico que ancora, até hoje, a continuidade cultural desse povo estrangeiro. É esse duplo sentido (origem estrangeira + tradição que persiste) que a Unesco reconhece ao inscrever o sítio.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Por que a Unesco tomba um lugar assim
Um tombamento nunca é sobre a pedra em si, mas sobre o significado atribuído a ela. As pedras do Valongo, na imagem, são só o vestígio físico; o que motiva a inscrição é o que esse vestígio representa para a história viva de um grupo humano. O local não guarda apenas o registro de uma chegada sofrida — marca a origem de um território que, ao longo de dois séculos, virou reduto de manutenção das tradições dos africanos ali desembarcados e de seus descendentes: a Pequena África carioca.
Subpasso 4.2 — Cruzando texto e imagem
O Texto II dá a escala do fenômeno (quase um milhão de pessoas em 40 anos); o Texto I mostra o resultado físico: um sítio arqueológico preservado dentro da malha urbana contemporânea do Rio, cercado de prédios históricos, hoje parte do circuito de celebração da herança africana na cidade. Isso reforça que a Unesco não trata o cais como ruína morta, mas como "reduto" — enclave onde uma tradição de origem estrangeira segue viva.
Subpasso 4.3 — Verificação
Só a opção B amarra os dois elementos do texto: origem estrangeira da população e permanência de tradição no território — o que corresponde à Pequena África. As demais isolam um fragmento só (sofrimento, material, religião ou nobreza).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) guardião da memória de povos oprimidos.
❌ Incorreta: leitura intuitiva, mas incompleta — reduz o sítio a um símbolo genérico de vitimização, sem capturar o elemento decisivo: a permanência de tradição cultural construída por essa população estrangeira no território do cais.
B) reduto da tradição de imigrantes estrangeiros.
✅ Correta: o Valongo recebeu, em massa, pessoas nascidas fora do Brasil (africanas) que, mesmo trazidas à força, fixaram-se ali e consolidaram tradições duradouras — samba, capoeira, religiosidade de matriz africana — origem da Pequena África. É esse enraizamento cultural, não só o fato da chegada, que caracteriza o sítio como "reduto de tradição".
C) região de celebrações de rituais cristianizados.
❌ Incorreta: nenhum dos textos menciona liturgia cristã; a relevância cultural do Valongo está ligada às tradições de matriz africana — distrator temático fora do assunto.
D) depósito de fragmentos de artefatos arquitetônicos.
❌ Incorreta: leitura de quem para só na fotografia do Texto I — reduz o sítio a um acervo de pedras e ruínas, ignorando o motivo real do reconhecimento: seu valor simbólico e cultural, não seu valor de acervo.
E) local de desembarque de nobres lusitanos.
❌ Incorreta: inverte o sujeito histórico do texto — quem desembarcou ali foram africanos escravizados, não nobres portugueses. Pode confundir com a história posterior do local, aterrado e reconstruído como "Cais da Imperatriz" para dignitários — episódio distinto do abordado na questão.
🏆 Gabarito: B — o Cais do Valongo se inscreve como Patrimônio Mundial por ser reduto da tradição de um povo de origem estrangeira (africana) que, apesar de trazido à força, fixou-se naquele território e manteve viva sua cultura, dando origem à Pequena África carioca.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que une os dois elementos exigidos pelo texto — origem estrangeira da população e permanência de tradição cultural no território.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente patrimônio cultural e escravidão atlântica, cruzando texto informativo com imagem de sítio histórico, pedindo o sentido da patrimonialização, não só o fato em si.
- Generalização: em questões sobre tombamento, priorize a alternativa que conecta o fato histórico à sua permanência ou ressignificação no presente — bancas valorizam continuidade cultural, não só o registro do passado.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara quem contradiz o sujeito histórico do texto (nobres, cristianismo); entre as que tratam da população africana, escolha a que fala de permanência/tradição, não só memória genérica.
- Conexões: Pequena África do Rio de Janeiro; rota do tráfico transatlântico; patrimônio material e imaterial afro-brasileiro; outros sítios Unesco ligados à diáspora africana nas Américas.
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