Mapa de questões · 1º dia
Questão 60 — ENEM 2023 PPL
Examinando detidamente o fator de maior predominância na evolução social, penso não errar afirmando que a causa principal de falharem todos os sistemas econômicos, experimentados para estabelecer o equilíbrio das forças produtivas, se encontra na livre atividade permitida à atuação das energias naturais, isto é, na falta de organização do capital e do trabalho.
VARGAS, G. As diretrizes da nova política do Brasil. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1942.
Nesse discurso de 1931, o então presidente Getúlio Vargas condenava, de forma explícita, o
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas (Governo Provisório, 1930-1934); crítica ao liberalismo econômico e origens do intervencionismo estatal
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está no vocabulário raro, mas em separar, dentro do próprio texto, o que Vargas condena (o problema) do que ele propõe (a solução)
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica varguista ao liberalismo econômico da República Velha; leitura e interpretação de fonte histórica primária (discurso político)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual modelo econômico Vargas está atacando diretamente nesse discurso de 1931?"
- Palavras-chave decisivas: livre atividade, energias naturais, falta de organização
- Armadilha típica: confundir o alvo da crítica (o mercado agindo "livremente", sem controle) com a solução que o próprio Vargas está anunciando (organizar o capital e o trabalho pelo Estado) — quem cai nessa armadilha marca "intervencionismo estatal", justamente o oposto do que se pede.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de isolar o diagnóstico do texto (o que fracassou e por quê) e não o remédio proposto por Vargas para esse fracasso.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Liberalismo econômico (laissez-faire): doutrina segundo a qual o Estado deve interferir o mínimo possível na economia, deixando preços, produção e relações entre capital e trabalho se regularem "espontaneamente" pelo mercado. É exatamente essa ideia que Vargas rebatiza, no discurso, de "livre atividade das energias naturais".
- Revolução de 1930 e fim da política café-com-leite: Vargas chega ao poder derrubando o revezamento oligárquico entre São Paulo e Minas Gerais, mas esse discurso específico não fala de partidos, eleições ou coronéis — fala de "sistemas econômicos" e "forças produtivas", ou seja, é uma crítica de natureza econômica, não uma denúncia da engenharia política da Primeira República.
- Intervencionismo estatal varguista: resposta de Vargas à crise de 1929 e ao modelo liberal: criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (1930), leis de sindicalização (1931), política de valorização e depois de queima do café, controle de preços e, mais tarde, a CLT (1943). É a cura que ele está prescrevendo no texto, não a doença.
- Corporativismo trabalhista: ferramenta de organização do trabalho por sindicatos únicos e oficiais, tutelados pelo Estado — nasce exatamente da ideia de "organizar o capital e o trabalho" mencionada no discurso. É proposta de Vargas, não alvo de sua crítica.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "a causa principal de falharem todos os sistemas econômicos [...] se encontra na livre atividade permitida à atuação das energias naturais" → Vargas atribui o fracasso econômico à ausência de controle sobre as forças de mercado — a marca central do liberalismo clássico, que prega o mercado autorregulável.
- Evidência 2: "isto é, na falta de organização do capital e do trabalho" → o próprio texto define o que quer dizer por "energias naturais desorganizadas": capital e trabalho agindo sem coordenação estatal. Note que "organização" aqui é apresentada como o que falta, não como o problema.
- Síntese: o alvo explícito da crítica é o modelo que permite ao capital e ao trabalho agirem "livremente", sem organização — isto é, o liberalismo econômico. A ideia de "organizar" é o caminho que Vargas está indicando como saída, não o que ele condena.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Contexto histórico do discurso
O texto é de 1931, ano em que Vargas já está à frente do Governo Provisório instaurado após a Revolução de 1930. Publicado depois na coletânea "As diretrizes da nova política do Brasil", esse tipo de discurso fundamenta ideologicamente as reformas que Vargas vinha implementando desde o primeiro ano de governo: Ministério do Trabalho (1930), leis sindicais (1931) e, adiante, toda a legislação trabalhista consolidada na CLT (1943). O pano de fundo é a Grande Depressão de 1929, que jogou por terra a confiança no livre mercado em várias partes do mundo e alimentou discursos antiliberais de diferentes matizes — do New Deal americano ao corporativismo europeu que influenciou Vargas.
Subpasso 4.2 — Leitura frase a frase
"fator de maior predominância na evolução social" — Vargas fala de uma força histórica geral, não de um partido ou de um grupo político específico. "causa principal de falharem todos os sistemas econômicos experimentados" — a crítica é generalizante e recai sobre um modelo econômico, não sobre uma estrutura político-eleitoral como a oligarquia cafeeira. "livre atividade permitida à atuação das energias naturais" — expressão figurada, típica da retórica antiliberal do entreguerras, para designar o livre mercado agindo sem regulação. "falta de organização do capital e do trabalho" — aqui Vargas já aponta o remédio: organizar (leia-se, o Estado organizar) o que hoje age "livre" e desorganizado. Esse é o embrião do corporativismo estatal que ele construirá nos anos seguintes.
Subpasso 4.3 — Verificação
O texto tem uma estrutura lógica de duas partes: (1) diagnóstico — o liberalismo, isto é, a "livre atividade das energias naturais", causou o fracasso dos sistemas econômicos; (2) prescrição — organizar capital e trabalho (intervencionismo/corporativismo) é a saída. A pergunta pede o alvo da condenação, ou seja, a parte (1). Isso aponta com segurança para "liberalismo econômico" e automaticamente descarta qualquer alternativa que descreva a parte (2), pois intervencionismo e corporativismo são a solução defendida por Vargas, não o problema que ele denuncia.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) liberalismo econômico.
✅ Correta: é exatamente o que a expressão "livre atividade permitida à atuação das energias naturais" descreve — o mercado agindo sem organização estatal do capital e do trabalho. Vargas atribui a esse modelo o fracasso de "todos os sistemas econômicos experimentados", condenação explícita do laissez-faire.
B) intervencionismo estatal.
❌ Incorreta: o intervencionismo é o que Vargas defende como remédio ("organização do capital e do trabalho" pelo Estado), não o que ele condena. Marcar essa alternativa inverte o diagnóstico com a prescrição do próprio texto.
C) corporativismo trabalhista.
❌ Incorreta: o corporativismo — sindicatos oficiais tutelados pelo Estado — é ferramenta que o próprio Vargas construirá a partir dessa mesma lógica de "organizar" capital e trabalho. É projeto varguista, não alvo de sua crítica.
D) sistema oligárquico.
❌ Incorreta: embora Vargas tenha chegado ao poder combatendo politicamente as oligarquias da República Velha, o trecho em questão não menciona coronelismo, política dos governadores ou disputa entre elites regionais — ele fala de "sistemas econômicos" e "forças produtivas" em termos abstratos e doutrinários, isto é, de uma crítica ao modelo econômico liberal, não da estrutura política oligárquica.
E) nacionalismo econômico.
❌ Incorreta: o nacionalismo econômico é uma bandeira que Vargas abraça e fortalece ao longo do seu governo (defesa de indústria nacional, controle de recursos estratégicos), não algo que ele condene nesse discurso.
🏆 Gabarito: A — o discurso condena explicitamente o liberalismo econômico, identificado na expressão "livre atividade das energias naturais", responsabilizado pelo fracasso dos sistemas econômicos por faltar organização do capital e do trabalho.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que corresponde ao problema identificado no texto (mercado livre e desorganizado); B e C descrevem a solução que o próprio Vargas propõe, e D e E tratam de temas ausentes do trecho.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a discursos originais de Vargas (Era Vargas, Estado Novo, origem da CLT) para testar se o estudante entende a virada do liberalismo da República Velha para o intervencionismo-corporativismo varguista.
- Generalização: em textos-fonte de um autor histórico, separe sempre o que ele condena (o problema) do que ele propõe (a solução) — bancas adoram construir alternativas que trocam uma coisa pela outra.
- Dica de eliminação rápida: se uma alternativa descreve algo que o próprio autor do texto defende ou vai implementar (aqui, intervencionismo e corporativismo são marcas registradas de Vargas), ela não pode ser resposta a uma pergunta sobre o que ele "condena".
- Conexões: Revolução de 1930 e fim da República Velha; crise de 1929 e crítica mundial ao liberalismo; Estado Novo (1937-1945) e CLT (1943).
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