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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 51ENEM 2023 PPL

Pode chamar de fake news, notícias falsas de internet, fraude informativa, informações falsas, ou até de misinformation, se prefere inglês, que você estará designando corretamente a mesma doença informacional que se disseminou como uma pandemia pela vida pública mundo afora nos últimos anos, e cujos principais sintomas nas pessoas infectadas consistem na perda da capacidade de distinguir a verdade, de lidar adequadamente com fatos e dados e de tomar decisões bem-informadas. Sabe-se que o portador do vírus se torna alérgico a fatos e evita a todo custo a dissonância cognitiva, isto é, entrar em contato com informações que não satisfaçam os seus desejos e com relatos que se choquem com as suas crenças.

DOURADO, T.; GOMES, W. O que são, afinal, fake news, enquanto fenômeno de comunicação política? In: Anais do VIII Compolítica, Brasília, 2019. Disponível em: http://compolitica.org. Acesso em: 7 out. 2021.

Qual é a consequência do fenômeno apresentado no texto para a vida democrática?

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → comunicação, mídia e democracia (com interface em Filosofia política)
  • ⚡ Nível: Médio — a questão exige diferenciar dois distratores conceitualmente próximos (B e C), transpondo um diagnóstico cognitivo individual para uma consequência política coletiva
  • 🎯 Tema/Habilidade: Fake news, desinformação e cidadania democrática — Competência de Área 6 (Ciências Humanas): compreender a cidadania e a relação entre Estado, sociedade civil e vida pública no mundo contemporâneo
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o texto, o que a disseminação das fake news compromete na vida democrática?"
  • Palavras-chave decisivas: doença informacional, perda da capacidade de tomar decisões bem-informadas, alérgico a fatos, evita a dissonância cognitiva
  • Armadilha típica: confundir o MECANISMO do fenômeno (distorcer a percepção individual da realidade — já descrito no próprio texto como sintoma) com a CONSEQUÊNCIA política e coletiva pedida no comando. São dois níveis diferentes de análise.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de traduzir a alegoria da "doença informacional" em um efeito concreto sobre o funcionamento da democracia — ou seja, sobre a prática política dos cidadãos, e não apenas sobre a percepção individual dos fatos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Fake news / desinformação: conteúdo informativo total ou parcialmente falso, disseminado de forma deliberada ou não, que se apresenta com aparência de notícia legítima; ganhou escala global com as redes sociais e seus algoritmos de recomendação.
  • Esfera pública (Habermas): espaço de debate racional-crítico em que os cidadãos trocam argumentos com base em informações compartilhadas para formar opinião política; é o alicerce comunicativo de qualquer democracia deliberativa.
  • Dissonância cognitiva (Festinger): desconforto psicológico causado pelo contato com informações que contradizem crenças já estabelecidas; o texto mostra que esse desconforto tende a ser resolvido pela rejeição do dado novo, não pela revisão da crença.
  • Cidadania como prática: não é apenas um status jurídico, mas o exercício ativo de direitos políticos — votar, debater, formar opinião, fiscalizar o poder —, o que pressupõe acesso à informação e capacidade real de julgamento crítico.
  • Câmaras de eco: ambientes informacionais (sobretudo redes sociais) que reforçam crenças pré-existentes ao expor o usuário quase exclusivamente a conteúdo com o qual ele já concorda, blindando-o contra fatos divergentes.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "perda da capacidade de distinguir a verdade, de lidar adequadamente com fatos e dados e de tomar decisões bem-informadas" → revela que o dano descrito não é isolado: ele atinge diretamente a competência que sustenta qualquer escolha política consciente — votar, opinar, fiscalizar representantes.
  • Evidência 2: "o portador do vírus se torna alérgico a fatos e evita a todo custo a dissonância cognitiva" → mostra que o sujeito "infectado" não apenas erra por falta de informação, mas rejeita ativamente informações verdadeiras quando elas contrariam suas crenças, fechando um ciclo de isolamento informacional.
  • Síntese: se a democracia depende de cidadãos capazes de formar juízo informado sobre a vida pública, e o fenômeno descrito corrói exatamente essa capacidade, a consequência não fica restrita à mente do indivíduo — ela recai sobre o modo como a cidadania é exercida na esfera pública.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno e a função da metáfora

Dourado e Gomes recorrem à metáfora da doença/pandemia para descrever a fake news: ela "infecta" o julgamento das pessoas, com sintomas específicos — perda da capacidade de distinguir a verdade, de lidar com fatos e de decidir de forma informada. A metáfora não é decorativa: ao dizer que a "doença" "se disseminou (...) pela vida pública mundo afora", o texto sinaliza que o problema é sistêmico e coletivo, não um erro isolado de um indivíduo mal-informado.

Subpasso 4.2 — Conectar o mecanismo cognitivo à esfera política

Toda democracia representativa e deliberativa pressupõe um requisito mínimo: o cidadão precisa conseguir formar opinião com base em informação minimamente confiável para exercer seus direitos políticos com qualidade — votar de forma consciente, participar do debate público, cobrar seus representantes. Quando o texto afirma que o "portador do vírus" fica "alérgico a fatos" e evita a dissonância cognitiva, ele descreve exatamente a quebra dessa pré-condição. O dano deixa de ser só cognitivo (a "visão de mundo" distorcida do indivíduo) e passa a atingir a forma como esse indivíduo PRATICA a cidadania — como participa, de fato, da vida pública democrática.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação

Testando cada alternativa contra a pergunta exata — "qual a consequência do fenômeno PARA A VIDA DEMOCRÁTICA", e não "qual é o mecanismo do fenômeno" nem "qual seria a solução para ele" —, apenas a opção que trata da prática política coletiva dos cidadãos responde de forma completa e específica ao comando. A desinformação em massa afeta diretamente a manifestação da cidadania: as pessoas seguem votando, opinando e participando, mas de maneira comprometida pela "infecção" informacional descrita no texto. É essa transposição do plano individual/cognitivo para o plano político/coletivo que o comando exige — e é isso que confirma a alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Prática de censura.

❌ Incorreta: censura é a restrição institucional (estatal ou privada) da livre circulação de ideias, um fenômeno praticamente oposto ao descrito. As fake news se disseminam pelo EXCESSO e pela velocidade da circulação informacional nas redes, não pela sua contenção. O texto não menciona nenhum bloqueio institucional de conteúdo — fala de um problema de recepção e processamento da informação pelo próprio indivíduo.

B) Distorção da realidade.

❌ Incorreta — a grande armadilha da questão: é tentadora porque ecoa quase literalmente o texto ("perda da capacidade de distinguir a verdade"). Mas essa é a descrição do PRÓPRIO FENÔMENO, o sintoma da "doença informacional", não a consequência dele especificamente PARA A VIDA DEMOCRÁTICA, que é o que o comando exige. Distorcer a percepção da realidade é o mecanismo cognitivo interno; a pergunta busca o efeito desse mecanismo sobre a dimensão política e coletiva da sociedade — um passo lógico além do que B oferece.

C) Manifestação de cidadania.

✅ Correta: a cidadania democrática se manifesta pela capacidade de participar do debate público, formar opinião e decidir com base em informações críveis. Ao corromper essa capacidade — tornando o cidadão "alérgico a fatos" —, a desinformação atinge diretamente o exercício da cidadania: as pessoas continuam "manifestando" sua cidadania (votam, opinam, participam), mas de forma distorcida pela infecção informacional. É a única alternativa que liga o dano individual descrito no texto à dimensão coletiva e democrática exigida pelo comando.

D) Regulamentação das condutas.

❌ Incorreta: regulamentação — leis contra desinformação, moderação de conteúdo, políticas de plataformas digitais — é uma possível RESPOSTA ao problema das fake news, tema debatido em diversos países, e não uma consequência do fenômeno em si. O texto descreve o problema e seus sintomas; não trata de medidas de combate ou de política pública.

E) Fortalecimento das instituições.

❌ Incorreta: é o oposto do que ocorre. A desinformação sistemática corrói a confiança pública em instituições — imprensa, ciência, Judiciário, sistema eleitoral —, fragilizando-as, fenômeno amplamente documentado em contextos de polarização política e de chamada "pós-verdade".

🏆 Gabarito: C — a desinformação em massa compromete diretamente a capacidade do cidadão de participar da vida pública com discernimento, afetando a qualidade com que a cidadania é manifestada na democracia — o único efeito, entre as opções, que liga o sintoma individual descrito no texto (alergia a fatos) à dimensão coletiva e política exigida pelo comando.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que desloca o foco de "o que a fake news faz com a mente do indivíduo" (já dado no texto) para "o que isso causa na vida política coletiva" — exatamente o que o comando pergunta.
  • Padrão de cobrança: o ENEM relaciona com frequência mídia, redes sociais e desinformação aos pilares da democracia (cidadania, esfera pública, pluralismo, direito à informação), sobretudo em questões de Sociologia e Filosofia política de provas posteriores a 2018.
  • Generalização: quando um texto descreve um problema social com riqueza de detalhes (sintomas, mecanismos, causas), desconfie de alternativas que apenas repetem o problema com outras palavras — a resposta certa costuma exigir a consequência em OUTRO NÍVEL de análise (aqui, do cognitivo/individual para o político/democrático).
  • Dica de eliminação rápida: corte de imediato as alternativas que descrevem SOLUÇÕES para o problema (regulamentação) ou EFEITOS OPOSTOS a ele (fortalecimento de instituições, censura como origem). Sobra, no máximo, um distrator "espelho do texto" (aqui, B) contra a alternativa que amplia corretamente a escala do problema para o campo cívico-político (C).
  • Conexões: pós-verdade e polarização política; esfera pública e democracia deliberativa (Habermas); letramento midiático e informacional como competência de cidadania.

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