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Mapa de questões · 1º dia
HumanasSociologiaMédio

Questão 61ENEM 2023 PPL

Maria Leonor é uma criança de 7 anos de Miranda do Douro, em Portugal, que começou a achar muito divertido “falar brasileiro” depois que conheceu um influenciador digital na internet. Jonathan, de 6, vive no Porto e passou a cumprimentar as amiguinhas com “oi, menina” depois que descobriu vídeos de brasileiros nas redes sociais. As duas crianças são parte de um fenômeno que provoca polêmica em Portugal. O sotaque brasileiro tem criado polêmica entre alguns países e virou tema na imprensa local.

FARIAS, V. F.; VASCONCELOS, R. Crianças portuguesas aprendem a “falar brasileiro” no Youtube durante a pandemia. Disponível em: https://internacional.estadao.com.br. Acesso em: 11 nov. 2021 (adaptado).

O fenômeno descrito no texto é provocado pelo

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → cultura, relações de poder e preconceito linguístico
  • ⚡ Nível: Médio — exige ir além da leitura literal do texto e enxergar a disputa de poder simbólico por trás de um fato aparentemente "fofo"
  • 🎯 Tema/Habilidade: Preconceito linguístico como fenômeno social ligado a hierarquias históricas de poder entre variantes de uma mesma língua
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é a causa de fundo — não apenas o meio de transmissão — do fenômeno de crianças portuguesas incorporarem o 'falar brasileiro' a ponto de isso virar polêmica em Portugal?"
  • Palavras-chave decisivas: polêmica, influenciador digital, falar brasileiro
  • Armadilha típica: marcar a alternativa C ("crescimento do intercâmbio cultural") por parecer a leitura mais óbvia — ela descreve como o fenômeno acontece, mas não explica por que ele vira controvérsia
  • O que a resposta precisa demonstrar: que a "polêmica" citada só existe porque havia, antes dela, uma hierarquia de prestígio entre as variantes do português — e o fenômeno das crianças a desafia

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Preconceito linguístico: julgamento negativo de uma forma de falar (sotaque, vocabulário) como "errada" ou "inferior" a partir de critérios sociais, não linguísticos — toda variação da língua é igualmente válida sob o olhar da Linguística.
  • Relações de poder colonial Brasil-Portugal: o português europeu foi tratado por muito tempo como o "modelo culto", enquanto o brasileiro era visto por parte da elite portuguesa como variante popular, "de novela" — reflexo da hierarquia entre metrópole e antiga colônia.
  • Preconceito estrutural: não é opinião isolada, mas padrão reproduzido socialmente por instituições e senso comum ao longo do tempo — por isso é mais difícil de perceber e de superar.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "fenômeno que provoca polêmica em Portugal" → se fosse apenas troca cultural neutra, não haveria motivo para debate público; "polêmica" denuncia resistência de algum grupo à mudança de comportamento das crianças.
  • Evidência 2: "o sotaque brasileiro tem criado polêmica entre alguns países e virou tema na imprensa local" → tema linguístico que vira pauta de imprensa e gera desconforto entre países sinaliza disputa de legitimidade entre normas — terreno típico do preconceito linguístico estrutural.
  • Síntese: a controvérsia só se sustenta porque, historicamente, o português de Portugal era tido como "o correto" e o do Brasil como "o desviante". Ao adotar espontaneamente o "falar brasileiro" — sem o filtro de preconceito dos adultos —, as crianças confrontam essa hierarquia enraizada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno central

Crianças portuguesas (Maria Leonor, 7 anos, e Jonathan, 6 anos) passam a falar com sotaque e expressões do português brasileiro — como "oi, menina" — depois de consumir vídeos de influenciadores digitais brasileiros no YouTube, por acharem "divertido".

Subpasso 4.2 — Investigar a razão da "polêmica"

Se o fenômeno fosse apenas "troca cultural" natural, não geraria controvérsia a ponto de virar pauta de imprensa em mais de um país — trocas culturais mediadas por internet acontecem o tempo todo sem debate público relevante. A "polêmica" registrada indica que setores da sociedade portuguesa reagem com desconforto à apropriação do "modo de falar brasileiro" pelas crianças — reação com raiz histórica: por décadas, o português europeu foi apresentado como padrão "correto", enquanto o brasileiro foi estigmatizado como informal ou "errado". Esse é o preconceito linguístico estrutural que serve de pano de fundo ao texto.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao incorporarem alegremente o "falar brasileiro" como algo divertido e desejável — sem o peso do preconceito que os adultos carregam —, as crianças colocam em xeque essa hierarquia histórica. O alcance dos influenciadores brasileiros corrói, no imaginário infantil, a ideia de superioridade da norma europeia. Esse movimento espontâneo, que provoca reação justamente por desafiar um padrão estabelecido, caracteriza um enfrentamento do preconceito linguístico estrutural — confirmando a alternativa E.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) aumento das trocas comerciais.

❌ Incorreta: o texto não menciona relação de compra, venda ou consumo econômico entre Brasil e Portugal. O fenômeno é comunicacional e simbólico, sem viés mercantil.

B) desenvolvimento dos laços afetivos.

❌ Incorreta: "laços afetivos" pressupõe relação interpessoal direta, como amizade ou vínculo familiar. O texto descreve consumo de mídia em massa, não vínculo afetivo entre pessoas identificadas.

C) crescimento do intercâmbio cultural.

❌ Incorreta (a "pegadinha" central): descreve o meio pelo qual o fenômeno se propaga — contato com conteúdo brasileiro via redes sociais —, mas não explica por que isso vira polêmica e ganha destaque na imprensa. É um conceito neutro que não dá conta da tensão registrada no texto.

D) incremento da padronização linguística.

❌ Incorreta: o fenômeno é o oposto de padronização — trata-se da convivência (e disputa) entre duas variantes distintas, o que aumenta a percepção de diversidade linguística, não a uniformiza.

E) enfrentamento do preconceito estrutural.

✅ Correta: a polêmica só se explica pela hierarquia de prestígio prévia entre as variantes lusófonas, historicamente marcada pelo preconceito contra o português brasileiro. Ao adotarem espontaneamente o "falar brasileiro" como algo positivo, as crianças confrontam — mesmo sem intenção consciente — essa hierarquia sustentada por relações assimétricas de poder entre Portugal e Brasil.

🏆 Gabarito: E — o fenômeno é provocado pelo enfrentamento do preconceito estrutural, pois a controvérsia só existe porque a adoção espontânea do português brasileiro pelas crianças desafia uma hierarquia histórica de prestígio entre as duas variantes da língua.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que explica a causa da polêmica, e não apenas o meio pelo qual o fenômeno ocorre — conecta a mudança de comportamento linguístico das crianças a uma disputa de poder simbólico historicamente estabelecida entre Portugal e Brasil.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência temas de sociolinguística sob viés sociológico — variação linguística não como "erro" a corrigir, mas como fenômeno social atravessado por poder, identidade e preconceito (linha próxima da obra de Marcos Bagno).
  • Generalização: sempre que o enunciado destacar que um fenômeno cultural gera "polêmica" ou vira "tema de debate" na imprensa, desconfie de alternativas puramente descritivas (como "intercâmbio" ou "troca") — a resposta correta tende a apontar para a disputa de poder por trás da controvérsia.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas de esfera econômica quando o texto não cita comércio (elimina A); descarte alternativas que contradizem a lógica do texto, como "padronização", quando o enunciado trata da convivência entre variantes diferentes (elimina D).
  • Conexões: preconceito linguístico (Marcos Bagno); colonialismo linguístico Brasil-Portugal; variação linguística e identidade cultural.

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