Mapa de questões · 1º dia
Questão 76 — ENEM 2023 PPL
Uma característica da pólis é o cunho de plena publicidade dada às manifestações mais importantes da vida social. Pode-se mesmo dizer que a pólis existe apenas na medida em que se distinguiu um domínio público, nos dois sentidos diferentes, mas solidários do termo: um setor de interesse comum opondo-se aos assuntos privados; práticas abertas, estabelecidas em pleno dia, opondo-se a processos secretos. A cultura grega constitui-se dando a um círculo sempre mais amplo — finalmente ao demos todo — o acesso ao mundo espiritual, reservado no início a uma aristocracia de caráter guerreiro e sacerdotal.
VERNANT, J.-P. As origens do pensamento grego. Rio de Janeiro: Difel, 2002 (adaptado).
O advento da pólis, com as mudanças descritas no texto, é produto de um conjunto de transformações no mundo grego antigo que resultou na
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → filosofia política grega; domínio público x privado; Jean-Pierre Vernant e as origens da pólis
- ⚡ Nível: Difícil — a leitura apressada empurra para a alternativa que parece "óbvia" na última frase, escondendo o verdadeiro eixo histórico pedido
- 🎯 Tema/Habilidade: Passagem do poder monárquico sigiloso para a esfera pública supervisionada da pólis grega
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual foi o resultado histórico do conjunto de transformações que originou a pólis, segundo o texto de Vernant?"
- Palavras-chave decisivas: domínio público, processos secretos, aristocracia de caráter guerreiro e sacerdotal
- Armadilha típica: grudar só na frase final ("acesso ao mundo espiritual... a um círculo sempre mais amplo") e marcar a opção que fala em "extensão participativa dos cidadãos" — sem perceber que essa frase descreve um desdobramento tardio (a democratização), não a transformação estrutural que fundou a pólis.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a pólis nasce da substituição de um poder concentrado, sacralizado e sigiloso — de matriz monárquica — por um poder cujos assuntos passam a ser abertos e fiscalizados coletivamente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Pólis: comunidade cívica organizada em torno de um espaço público (a ágora), onde questões de interesse comum são debatidas "em pleno dia", nunca resolvidas em segredo por um único chefe.
- Domínio público x privado (Vernant): dois sentidos solidários — interesse comum contra assunto particular; práticas abertas contra processos secretos. Essa dupla ruptura define a pólis.
- Realeza sagrada pré-poleica: nas sociedades gregas anteriores à pólis, o poder ficava concentrado em um chefe quase monárquico e sacerdotal — pessoal, fechado, sem prestação de contas.
- Publicização do poder: processo central em Vernant — prerrogativas antes exclusivas do "rei" (religiosas, jurídicas, militares) tornam-se, com a pólis, objeto de supervisão coletiva.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "práticas abertas, estabelecidas em pleno dia, opondo-se a processos secretos" → a pólis é definida em oposição direta ao sigilo, e o sigilo era a marca do poder de um único chefe, de tipo monárquico.
- Evidência 2: "reservado no início a uma aristocracia de caráter guerreiro e sacerdotal" → essa aristocracia herda funções que, na origem mais remota, eram prerrogativas concentradas em um poder monárquico. O texto descreve uma cadeia: poder de um só → poder de uma aristocracia → poder de um círculo cada vez mais largo.
- Síntese: o "advento da pólis" é o marco fundador desse processo — o momento em que assuntos antes fechados e sacralizados por um poder monárquico passam a ser abertos à vigilância da comunidade. É essa supervisão coletiva de assuntos antes monárquicos que estrutura o "domínio público" do texto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconstituindo o pano de fundo histórico
Vernant descreve a transição entre duas formas de poder. Na primeira, pré-poleica, um chefe de tipo monárquico concentra autoridade militar, religiosa e jurídica e a administra em segredo, como privilégio pessoal, sem espaço de deliberação comum. Essa lógica de poder fechado e sacralizado é justamente o que a pólis rompe.
Subpasso 4.2 — Do sigilo monárquico à supervisão pública
A pólis nasce quando esses assuntos deixam de ser segredo do "rei" e passam a ser expostos "em pleno dia", tornando-se interesse comum sujeito ao olhar e ao controle da coletividade. É exatamente isso que o texto chama de oposição entre "domínio público" e "processos secretos": a comunidade passa a supervisionar o que antes era prerrogativa exclusiva de um poder monárquico. A ampliação posterior à aristocracia e ao demos (última frase do texto) é a continuação desse mesmo movimento — mas o gatilho fundador é a quebra do sigilo monárquico, não a democratização em si.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando essa leitura com as alternativas, só a opção D nomeia o processo fundador: transformar assuntos do domínio fechado da monarquia em objeto de supervisão pública. As demais descrevem uma etapa posterior (participação cidadã) ou fenômenos que o texto não sustenta (finanças, nobreza urbana, igualdade plena).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) extensão participativa dos cidadãos.
❌ Incorreta: descreve um efeito tardio — a ampliação da cidadania até o demos —, consequência de um processo democratizante posterior ao advento da própria pólis, não a transformação estrutural que a fundou.
B) elevação financeira das famílias.
❌ Incorreta: o texto não trata de economia, patrimônio ou riqueza familiar em nenhum momento; a discussão de Vernant é sobre a natureza do poder político, não sobre estratificação econômica.
C) dominação de uma nobreza urbana.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. A aristocracia guerreira e sacerdotal é a fase anterior, restritiva, que a pólis supera ao abrir o acesso a "um círculo sempre mais amplo". Falar em "dominação" de uma nobreza é o oposto do movimento de publicização descrito.
D) supervisão dos assuntos monárquicos.
✅ Correta: sintetiza o núcleo do texto — a pólis se define por retirar do domínio fechado, pessoal e sacralizado de um poder monárquico os assuntos de interesse comum, submetendo-os à vigilância e à deliberação coletivas "em pleno dia". Essa ruptura entre sigilo monárquico e supervisão pública é o que torna possível, depois, a ampliação sucessiva do acesso à vida política.
E) instauração de uma comunidade igualitária.
❌ Incorreta: exagera o alcance do processo. O texto fala em um círculo "sempre mais amplo", não em igualdade plena — e a pólis histórica excluía mulheres, estrangeiros e escravizados. Afirmar "igualdade" extrapola o que Vernant sustenta.
🏆 Gabarito: D — a pólis se constitui pela ruptura com o sigilo do poder monárquico e pela submissão dos assuntos antes fechados a esse poder à supervisão pública da comunidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D nomeia a transformação fundadora — de um poder monárquico secreto para assuntos supervisionados coletivamente —, condição de possibilidade de tudo o mais que o texto narra.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra Vernant e a dicotomia público/privado como porta de entrada para discutir a origem da política e da filosofia gregas.
- Generalização: em questões de história/filosofia política antiga, distinga sempre a causa estrutural (o que fundou a mudança) do efeito mais visível citado no final do texto (o que a mudança, já em curso, ainda vai produzir).
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas com temas ausentes do texto (finanças, em B) e as que invertem o sentido do movimento histórico (domínio de elite, em C; igualdade absoluta, em E) — sobra a disputa fina entre a etapa fundadora (D) e o efeito posterior mais citado (A).
- Conexões: isonomia ateniense; reformas de Clístenes; passagem da basileia micênica para o mundo das póleis.
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