Mapa de questões · 1º dia
Questão 69 — ENEM 2023 PPL
Quem não morreu na Espanhola
quem dela pôde escapar
não dê mais tratos à bola
toca a rir, toca a brincar.
Vai o prazer aos confins
remexe-se a terra inteira
ao som vivaz dos clarins
ao ronco do Zé Pereira.
Há alegrias à ufa
e em se tocando a brincar
nem este calor de estufa
nos chega a preocupar.
Tenho por cetro um chocalho
por trono um bombo de rufo
o Deus Momo louco e bufo
vai começar a reinar.
In: CASTRO, R. O Carnaval da guerra e da gripe. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 2019.
A pandemia que afetou o Rio de Janeiro no início do século XX é mencionada nos versos pré-carnavalescos de 1919 como aquela que
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República (República Velha) → epidemias e vida urbana no início do século XX (Gripe Espanhola, 1918-1919)
- ⚡ Nível: Fácil — a resposta está praticamente explícita no primeiro verso ("quem não morreu"); a única dificuldade é reconhecer o termo de época "passamento" como sinônimo de morte.
- 🎯 Tema/Habilidade: A Gripe Espanhola no Rio de Janeiro (1918-1919) e a leitura de fontes históricas não convencionais (poesia carnavalesca) como registro de um evento coletivo
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo os versos pré-carnavalescos de 1919, de que forma a pandemia (a 'Espanhola') é lembrada no texto?"
- Palavras-chave decisivas: "não morreu", "pôde escapar", "remexe-se a terra inteira"
- Armadilha típica: abandonar o texto e recorrer a conhecimentos genéricos sobre revoltas do início do século XX (Revolta da Vacina, Revolta da Chibata) ou sobre reformas urbanas do Rio — nenhuma dessas informações está nos versos, e a questão cobra exclusivamente o que o poema diz.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de traduzir a linguagem poética e informal do texto ("quem não morreu", "quem pôde escapar") para o registro mais formal de uma alternativa de prova, associando-a corretamente ao contexto histórico da capital federal da época.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gripe Espanhola (1918-1919): pandemia de influenza que, em poucos meses, matou entre 20 e 50 milhões de pessoas no mundo, num cenário agravado pela movimentação de tropas da Primeira Guerra Mundial. No Brasil, o surto mais grave ocorreu entre setembro e dezembro de 1918, atingindo duramente o Rio de Janeiro.
- Rio de Janeiro como capital federal: até a transferência da capital para Brasília em 1960, o Rio de Janeiro era a sede do governo federal e a cidade mais populosa do país; por isso, os versos que descrevem "a terra inteira" se remexendo referem-se ao coração político e demográfico da nação.
- O Carnaval de 1919 como resposta social ao trauma: a obra de referência, de Ruy Castro, narra como o carnaval carioca de fevereiro de 1919 — poucas semanas após o pico da epidemia — se transformou em uma catarse coletiva, com marchinhas que citavam abertamente a doença recém-superada.
- "Passamento": substantivo de registro formal e hoje pouco usual, sinônimo de morte/falecimento, ainda empregado em certidões de óbito, atas e textos jurídicos ou religiosos.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Quem não morreu na Espanhola / quem dela pôde escapar" → o verso pressupõe, por contraste, a existência de quem morreu; "escapar" só faz sentido diante de um perigo de morte, não diante de um conflito social ou de um fenômeno natural isolado.
- Evidência 2: "não dê mais tratos à bola / toca a rir, toca a brincar" → convida ao esquecimento da angústia recente; o "trato" (preocupação) mencionado só se justifica se antes havia risco de vida, reforçando a leitura de mortandade.
- Evidência 3: "Vai o prazer aos confins / remexe-se a terra inteira" → a celebração e, por extensão, o sofrimento anterior atingem toda a cidade, sem recorte de bairro (não é "a periferia", nem "o centro", nem "o subúrbio" isoladamente).
- Síntese: o poema inteiro gira em torno da sobrevivência coletiva a uma ameaça letal recente — não há qualquer menção a conflito armado, revolta popular, catástrofe natural ou isolamento territorial; a única leitura sustentada pelo texto é a de que a doença matou parte da população da cidade.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o núcleo semântico do primeiro verso
"Quem não morreu na Espanhola / quem dela pôde escapar" estabelece uma divisão implícita entre dois grupos: os que sobreviveram (destinatários dos versos, convocados a "tocar a bola" e "brincar") e os que não sobreviveram (mencionados apenas pela negativa "não morreu"). Essa construção é a evidência mais direta de que a "Espanhola" — nome popular dado à pandemia de gripe de 1918 — provocou mortes na cidade.
Subpasso 4.2 — Encaixar o verso no contexto histórico do Rio de Janeiro em 1918-1919
A gripe espanhola chegou ao Brasil em meados de 1918 e teve seu período mais violento entre outubro e dezembro daquele ano, sobrecarregando cemitérios, hospitais e a própria administração pública da então capital federal. A cidade viveu semanas de paralisação, filas por caixões e enterros coletivos. O carnaval de 1919, tema do livro de Ruy Castro citado na referência, ocorreu poucas semanas depois desse período mais agudo — daí a naturalidade com que os versos pré-carnavalescos tratam diretamente da epidemia recém-vivida, num misto de alívio e necessidade de celebrar a vida.
Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a leitura do texto com o vocabulário das alternativas
Traduzindo "morreu" / "não pôde escapar" para o registro mais formal cobrado nas alternativas, chega-se exatamente ao verbo "passamento" (= morte, falecimento) associado a "habitantes da capital" (o Rio de Janeiro, sede do governo federal à época, cuja população inteira — "a terra inteira" — foi afetada). Esse cruzamento aponta diretamente para a alternativa D, e nenhuma outra alternativa encontra respaldo em qualquer verso do poema.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) suscitou o motim de pessoas da periferia.
❌ Incorreta: não há, em nenhum verso, menção a motim, revolta ou conflito armado; o poema fala de sobrevivência e festa, não de confronto social, e tampouco recorta a periferia como grupo específico afetado.
B) causou a destruição de praias da cidade.
❌ Incorreta: confunde uma epidemia (doença infecciosa) com um desastre natural ou uma obra de engenharia; os versos não fazem qualquer referência ao espaço físico da orla ou a destruição material — o foco é inteiramente sobre vidas humanas ("quem não morreu").
C) motivou a revolta de moradores do centro.
❌ Incorreta: repete o erro conceitual de A, agora recortando o centro da cidade; assim como não há motim, também não há registro de revolta popular nos versos, que descrevem alegria coletiva e alívio, não insatisfação ou protesto.
D) provocou o passamento de habitantes da capital.
✅ Correta: "passamento" é sinônimo formal de morte, exatamente o que os versos "quem não morreu na Espanhola / quem dela pôde escapar" descrevem; "habitantes da capital" corresponde ao Rio de Janeiro, capital federal da época, cuja população como um todo é mencionada em "remexe-se a terra inteira".
E) ocasionou o isolamento de residentes do subúrbio.
❌ Incorreta: os versos não descrevem nenhuma medida de isolamento geográfico nem restringem o impacto da doença ao subúrbio; ao contrário, enfatizam que o efeito (e agora a celebração) alcança "a terra inteira", ou seja, a cidade como um todo.
🏆 Gabarito: D — os versos "quem não morreu na Espanhola / quem dela pôde escapar" descrevem diretamente a mortandade causada pela gripe espanhola entre os habitantes do Rio de Janeiro, então capital federal, o que corresponde ao verbo formal "passamento".
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que traduz fielmente o par "morreu"/"escapar" (registro coloquial e carnavalesco) para "passamento de habitantes da capital" (registro formal), sem inventar nenhum elemento ausente do poema.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa fontes históricas não convencionais — músicas, marchinhas, charges, cartas, poemas — para testar se o estudante consegue relacionar linguagem literária ou popular a um evento histórico documentado, exigindo leitura atenta mais do que decoreba de datas.
- Generalização: em questões desse tipo, a alternativa correta costuma ser uma paráfrase fiel do texto-fonte em linguagem mais formal; desconfie de alternativas que introduzem fatos (revoltas, destruições, isolamentos territoriais específicos) sem nenhuma palavra de apoio no trecho citado.
- Dica de eliminação rápida: varra as alternativas em busca de termos que não têm eco algum no poema — "motim", "destruição de praias", "revolta", "isolamento do subúrbio" não aparecem nem são sugeridos pelo texto, e podem ser descartados em segundos, sobrando apenas a opção que fala em morte/passamento.
- Conexões: contexto da Primeira Guerra Mundial (pano de fundo global da pandemia de 1918), historiografia da vida cotidiana e da cultura popular carioca, saúde pública na República Velha, e a tradição das marchinhas de carnaval como registro histórico do humor popular brasileiro.
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