Mapa de questões · 1º dia
Questão 20 — ENEM 2023 PPL

PAULINO, R. Bastidores (detalhe). Gravura sobre tecido em suporte de madeira para bordado, 1997. Disponível em: www.galeriavirgilio.com.br. Acesso em: 29 out. 2010.
Sob a perspectiva em que o artista deve trabalhar com as coisas que o tocam profundamente, a singularidade da obra Bastidores, produzida com objetos do cotidiano e de pouco valor material, mostra a boca, que expressa uma
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Leitura e análise de obra de arte contemporânea brasileira (linguagem visual não verbal); contexto histórico-social afro-brasileiro
- ⚡ Nível: Difícil — o comando exige uma leitura crítica de segundo grau, e a alternativa mais parecida com a correta (D) soa "sociologicamente certa", o que confunde quem não distingue constatação de crítica
- 🎯 Tema/Habilidade: Rosana Paulino, série Bastidores (1997) — leitura de linguagem simbólica na arte contemporânea e relação entre procedimento artístico (materiais, suporte) e crítica social (Competência de Área 6 / H23 — relacionar concepções artísticas e procedimentos de construção do texto artístico)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O detalhe da boca, na obra Bastidores, expressa que tipo de situação social?"
- Palavras-chave decisivas: coisas que o tocam profundamente, objetos do cotidiano e de pouco valor material, singularidade
- Armadilha típica: marcar a alternativa D, que descreve um fato histórico real (mulheres negras relegadas a trabalhos manuais/domésticos), mas fecha o sentido da obra numa constatação sociológica definitiva — quando o enunciado pede o efeito crítico e a "singularidade" da obra, não um relatório de fato social já consumado.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a arte contemporânea, ao construir a imagem de um silenciamento, não confirma esse silenciamento como verdade fechada e universal — expõe um estereótipo justamente para colocá-lo em xeque, e a própria existência da obra (e a voz da artista que a assina) prova que esse silenciamento sugerido não vale para todas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Rosana Paulino: artista visual paulistana, uma das principais referências da arte contemporânea brasileira ao tematizar racismo, gênero e a herança da escravidão inscrita no corpo da mulher negra; articula fotografia, gravura, costura e bordado como suporte de sua crítica.
- Bastidor (aro de madeira para bordado): ferramenta tradicionalmente associada ao trabalho manual feminino e doméstico; no Brasil escravista e pós-abolição, costura e bordado foram ofícios "permitidos" às mulheres negras, ligados à ideia de docilidade, silêncio e subalternidade.
- Boca costurada: motivo recorrente nesta fase da produção de Paulino (presente também em obras como Amas-de-leite e Assentamento); funciona como metáfora visual do silenciamento histórico da voz feminina negra no discurso oficial da sociedade brasileira e da própria história da arte.
- Arte contemporânea como crítica, não como retrato fechado: diferentemente de uma ilustração que apenas documenta uma cena, a obra contemporânea de caráter político costuma apresentar a imagem de um estereótipo social exatamente para problematizá-lo — mostrar já é, em si, um modo de questionar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (imagem): um rosto fotográfico em tom sépia/P&B — lembrando antigos retratos de caráter identitário — emoldurado dentro de um bastidor circular, com um babado de tecido branco ao redor; sobre a boca, uma mancha escura sugere pontos de sutura fechando os lábios → leitura imediata de mudez, de fala impedida.
- Evidência 2 (texto): "o artista deve trabalhar com as coisas que o tocam profundamente" somado a "objetos do cotidiano e de pouco valor material" → a obra nasce de matéria-prima humilde e biográfica (linha, tecido, aro de bordado, presentes inclusive na história familiar da artista), não de um discurso abstrato e distante da vida real.
- Síntese: a "singularidade" citada no enunciado está em transformar um objeto doméstico banal em símbolo político potente; a boca fechada não relata um fato consumado e definitivo, mas sugere uma condição historicamente atribuída às mulheres negras — condição que a própria Rosana Paulino, ao criar, assinar e expor essa obra, desmente na prática, pois fala (e é ouvida) exatamente sobre o silenciamento que a imagem evoca.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — O que a boca costurada representa literalmente
A mancha escura sobre os lábios do rosto retratado é o elemento central da leitura da imagem: em vez de uma boca aberta, expressiva, comunicante, há uma boca fechada por uma sutura. Simbolicamente, isso remete à impossibilidade de fala — um corpo (aqui, de uma mulher afrodescendente) impedido de se manifestar publicamente. Essa é a camada de leitura mais imediata da imagem, acessível a qualquer observador atento.
Subpasso 4.2 — Cruzar essa leitura com a "perspectiva" indicada no comando
O comando não pergunta apenas "o que a boca representa", mas pede a leitura sob a perspectiva em que o artista trabalha com o que o toca profundamente, usando objetos de pouco valor material. Isso desloca o eixo interpretativo: a obra não é um documento sociológico neutro e fechado, é uma construção autoral, íntima e, ao mesmo tempo, política. Rosana Paulino usa sua própria vivência (memória familiar de mulheres costureiras, bordadeiras, trabalhadoras domésticas) para construir uma imagem que fala sobre o silenciamento — mas o faz na condição de artista com voz, visibilidade e autoria reconhecidas. Há, portanto, uma tensão proposital entre o que a imagem sugere (silêncio) e o que o próprio ato de criar e expor a obra realiza (fala, denúncia, autoria).
Subpasso 4.3 — Verificação: qual alternativa nomeia essa tensão
A alternativa correta precisa dar conta dessa dupla camada de sentido: (1) a obra sugere uma condição de silenciamento historicamente associada às mulheres negras; e (2) essa condição não é uma verdade fechada — ela "não se aplica" a parte dessas mulheres, entre elas a própria artista, cuja obra é, ela mesma, um ato de fala e resistência. Só a alternativa "situação que se sugere, mas que não se aplica, a parcelas da população" constrói essa dupla camada; as demais erram o recorte temático ou fecham a leitura numa afirmação literal que a natureza crítica da obra já desconstrói.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) situação religiosa afro-brasileira que envolve grande parte da população.
❌ Incorreta: não há, na obra descrita, nenhum elemento iconográfico associado à religiosidade afro-brasileira (símbolos de candomblé, umbanda, orixás, indumentária ritual). A leitura religiosa é uma projeção externa à imagem — o bastidor, o rosto e a boca costurada remetem a trabalho doméstico e silenciamento social, não a culto ou fé.
B) condição particular da artista, deslocada de um contexto sociocultural.
❌ Incorreta: é o oposto do que a obra propõe. Rosana Paulino parte do pessoal (sua história familiar) para construir uma crítica coletiva profundamente enraizada no contexto sociocultural brasileiro — a herança da escravidão, o racismo estrutural, o lugar social reservado às mulheres negras. Chamar isso de "particular" e "deslocado de contexto" nega justamente o que torna a obra relevante: sua inserção histórica e social.
C) situação histórica em que as mulheres ainda bordavam em bastidores.
❌ Incorreta: essa alternativa lê apenas a forma da obra (a técnica do bordado, o suporte material) e ignora o conteúdo simbólico (a boca costurada, o silenciamento racial). Reduzir a obra a "mulheres bordavam em bastidores" é ficar na superfície do objeto, sem alcançar a metáfora que a imagem constrói.
D) condição vivida por parte das mulheres afro-brasileiras trabalhadoras.
❌ Incorreta — é a distratora mais forte, pois descreve um fato histórico real (mulheres negras relegadas a trabalhos manuais e domésticos). Mas a alternativa transforma a obra em constatação fechada e restrita ("trabalhadoras"), tratando o silenciamento como dado social já confirmado. A obra, porém, não afirma isso como verdade absoluta: ela sugere essa condição para colocá-la em xeque, e o próprio ato de a artista falar através dela já contraria a ideia de um silenciamento fechado e sem fissuras.
E) situação que se sugere, mas que não se aplica, a parcelas da população.
✅ Correta: a boca costurada sugere visualmente um silenciamento historicamente atribuído às mulheres negras, mas essa sugestão não se confirma como regra fechada — ela não se aplica à própria artista (nem a tantas outras mulheres negras que rompem esse lugar de silêncio), que transforma exatamente esse estereótipo em obra de arte, discurso e denúncia pública. A "singularidade" citada no enunciado está justamente nesse paradoxo: mostrar o silêncio é, ao mesmo tempo, um ato de fala.
🏆 Gabarito: E — a obra sugere, pela boca costurada, um silenciamento historicamente associado às mulheres negras, mas a própria autoria e voz crítica de Rosana Paulino comprovam que essa condição sugerida não se aplica a parcelas dessa população.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que capta a dupla camada de sentido da obra — sugestão de silenciamento somada à desconstrução desse silenciamento pelo próprio ato artístico —, sem restringir indevidamente o alcance da obra (como D), sem perder o conteúdo simbólico em favor da forma (como C) e sem recorrer a leituras alheias ao que a imagem e o texto mostram (A, B).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa obras de arte contemporânea brasileira — sobretudo de artistas negras e mulheres — para testar leitura simbólica associada a temas de raça, gênero e memória social; é comum que o comando peça a "mensagem", o "efeito de sentido" ou a "crítica" construída pela obra, e não uma descrição literal do que está representado.
- Generalização: em questões de leitura de imagem/obra de arte, desconfie da alternativa que "descreve certo, mas fecha demais" o sentido — transformando uma sugestão crítica em fato absoluto e definitivo. Normalmente ela é a distratora mais sofisticada, oposta à alternativa que preserva a tensão e a ambiguidade propostas pela própria obra.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que introduzem elementos ausentes da imagem e do texto (aqui, A, ao citar religiosidade, e C, ao se prender só à técnica); depois compare as duas alternativas plausíveis restantes buscando qual delas fecha o sentido como fato consumado (errada) e qual preserva a tensão crítica proposta pelo enunciado (correta).
- Conexões: arte engajada e identidade negra na arte brasileira contemporânea (Rosana Paulino, Sidney Amaral, Aline Motta); a costura e o bordado como metáfora de silenciamento e resistência também aparecem em outras produções culturais que tratam do corpo feminino negro na história do Brasil.
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