Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaDifícil

Questão 8ENEM 2023 PPL

A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho, portanto, um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável a um homem. Mas mulher sem religião é horrível.

Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. “Palestras amenas e variadas”. Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.

RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981.

Uma das características da prosa de Graciliano Ramos é ser bastante direta e enxuta. No romance São Bernardo, o autor faz a análise psicológica de personagens e expõe desigualdades sociais com base na relação entre patrão e empregado, além da relação conjugal. Nesse sentido, o texto revela um(a)

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Prosa de 30 (Regionalismo Nordestino) → São Bernardo, Graciliano Ramos → foco narrativo e narrador-personagem
  • ⚡ Nível: Difícil — exige travar com precisão a pessoa gramatical do narrador e, ao mesmo tempo, articular essa pessoa gramatical com o conteúdo psicológico e ideológico que ela revela
  • 🎯 Tema/Habilidade: Foco narrativo (narrador-personagem em 1ª pessoa) e caracterização psicológica de Paulo Honório; competência de leitura literária que relaciona recursos linguísticos à construção de sentido
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que tipo de narração é essa, e o que exatamente ela revela sobre a psicologia e a ideologia do personagem que fala?"
  • Palavras-chave decisivas: "análise psicológica de personagens", "relação conjugal", "o texto revela um(a)"
  • Armadilha típica: confundir estilo com foco narrativo. O comando avisa que a prosa de Graciliano é "direta e enxuta" — e o candidato apressado associa essa objetividade a um narrador externo em 3ª pessoa, quando na verdade a objetividade é uma marca de estilo que convive perfeitamente com um narrador-personagem em 1ª pessoa.
  • O que a resposta precisa demonstrar: reconhecer corretamente a pessoa gramatical do narrador (comprovável pelos próprios pronomes do texto) e, na mesma alternativa, acertar o que esse discurso revela sobre a religiosidade e sobre a visão do personagem a respeito da mulher.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Narrador-personagem (foco narrativo em 1ª pessoa): em São Bernardo (1934), quem narra é o próprio Paulo Honório — fazendeiro que ascendeu à força, comprando e "engolindo" terras alheias —, contando sua própria trajetória tempos depois dos fatos, como se estivesse escrevendo um livro sobre si mesmo. É um narrador que se expõe, muitas vezes sem perceber o quanto suas próprias palavras o incriminam.
  • Estilo enxuto de Graciliano: frases curtas, vocabulário seco, ironia contida, ausência de adjetivação decorativa. É uma marca de linguagem, não de pessoa narrativa — um narrador em 1ª pessoa pode muito bem ser "objetivo e claro" na forma como se expressa, mesmo revelando, no conteúdo, uma subjetividade cheia de contradições.
  • Religiosidade ambígua de Paulo Honório: ele não crê por fé — "admite" Deus e o diabo como peças úteis de um sistema de recompensa e punição que regula o comportamento alheio (Deus paga no céu o que ele paga mal na terra; o diabo castiga quem rouba dele). Para si mesmo, considera a religião "dispensável". É uma fé de conveniência, calculista, não espiritual.
  • Dupla moral sobre gênero: o mesmo homem que dispensa a religião para si a considera indispensável para a mulher — sinal de que, para ele, a fé feminina não é questão de crença, mas de controle do comportamento da esposa.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "não me preocupo muito"; "meus trabalhadores"; "que me furtou uma vaca de raça" → os pronomes e verbos na 1ª pessoa do singular comprovam, sem margem para dúvida, que quem fala é o próprio personagem sobre si mesmo — narrador-personagem, jamais narrador em 3ª pessoa.
  • Evidência 2: "Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores... e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão" → religião tratada como mecanismo utilitário de recompensa e punição, não como fé genuína; ao mesmo tempo, ele "julga que, em parte, ela é dispensável a um homem" → caráter ambíguo da própria religiosidade: útil para controlar os outros, descartável para si.
  • Evidência 3: "Mas mulher sem religião é horrível" / "Mulher sem religião é capaz de tudo" → não é uma opinião solta, é uma convicção categórica e reiterada (repetida duas vezes, a segunda como conclusão do parágrafo) sobre o papel que a religião deve exercer especificamente sobre a mulher.
  • Síntese: o trecho é, ao mesmo tempo, gramaticalmente inequívoco em 1ª pessoa (Evidência 1) e tematicamente construído sobre dois eixos — a ambiguidade da própria fé (Evidência 2) e a convicção rígida sobre a fé que a mulher "deve" ter (Evidência 3). Esses três elementos, juntos, apontam exatamente para a alternativa que combina "discurso em primeira pessoa" com "religiosidade ambígua" e "convicção sobre a mulher e a religião".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Travar a pessoa gramatical e o tipo de narrador

O primeiro filtro é o mais objetivo de todos: quem fala no trecho? Todos os verbos e pronomes possessivos remetem à 1ª pessoa do singular ("me preocupo", "meus trabalhadores", "me furtou"). Não existe, em nenhum momento, uma voz externa relatando as ações de Paulo Honório em 3ª pessoa ("ele admitia", "seus trabalhadores") — é o próprio personagem quem enuncia, em seu próprio nome. Isso já elimina, de saída, qualquer alternativa que fale em narrador "onisciente que não participa da história" ou em "narração em terceira pessoa": gramaticalmente, essas leituras não se sustentam diante do trecho.

Subpasso 4.2 — Mapear a ambiguidade da religiosidade

Paulo Honório não trata Deus e o diabo como objetos de fé, mas como peças de um sistema prático de justiça que ele mesmo não aplica em vida: paga mal aos trabalhadores, mas "admite" que Deus os pagará no além; foi roubado, mas "admite" que o diabo punirá o ladrão no futuro. É uma religiosidade instrumental — serve para tranquilizar sua consciência e para justificar, indiretamente, sua própria exploração. E, ainda assim, ele mesmo julga que essa religião é "dispensável a um homem". Eis a ambiguidade: crê o suficiente para usar a religião como argumento, mas não o suficiente para se sentir obrigado por ela.

Subpasso 4.3 — Verificação: a convicção sobre a mulher

No segundo parágrafo, o alvo desloca-se para a esposa: "Comunista, materialista. Bonito casamento!" — ele despreza a amizade dela com Padilha e desconfia das "palestras amenas e variadas" que ela frequenta, cogitando que ali se discutam "reformas sociais, ou coisa pior". A conclusão do personagem não é uma dúvida, é uma sentença: "Mulher sem religião é capaz de tudo." Comparando com o Passo 4.2, fica claro o contraste: para ele mesmo, religião é dispensável; para a mulher, é indispensável como instrumento de contenção. Confrontando essa síntese com as cinco alternativas, apenas uma reúne, sem inverter nenhum dado, os três achados (1ª pessoa + religiosidade ambígua + convicção sobre a mulher): a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) narrador personagem que coloca no mesmo plano Deus e o diabo, além de defender o livre-arbítrio feminino no tocante à religião.

❌ Incorreta: a primeira parte até procede ("admito Deus... admito o diabo" realmente os coloca lado a lado, no mesmo plano de utilidade), mas a segunda inverte o sentido do texto. Paulo Honório não defende que a mulher escolha livremente ter ou não religião — ao contrário, ele exige que ela tenha religião, sob pena de ser "capaz de tudo". Não há livre-arbítrio algum sendo defendido; há imposição.

B) narrador onisciente, que não participa da história, conhecedor profundo do caráter machista de Paulo Honório e da sua ideologia política.

❌ Incorreta: contradição interna grave. Um narrador onisciente "que não participa da história" jamais diria "não me preocupo" ou "meus trabalhadores" — essas marcas linguísticas só existem porque quem narra é o próprio protagonista, e não uma consciência externa que o observa de fora. A alternativa confunde o conhecimento que o leitor adquire sobre Paulo Honório com uma suposta onisciência do narrador, que o texto simplesmente não apresenta.

C) narração em terceira pessoa que explora o aspecto objetivo e claro da linguagem para associar o espaço interno do personagem ao espaço externo.

❌ Incorreta: o erro é estrutural e comprovável linha a linha. Todo o excerto é redigido em 1ª pessoa do singular — não existe um único verbo ou pronome de 3ª pessoa referindo-se a Paulo Honório. A alternativa até acerta ao valorizar "o aspecto objetivo e claro da linguagem" (marca real do estilo de Graciliano), mas erra ao atribuir essa objetividade a uma suposta narração em 3ª pessoa, que simplesmente não existe no trecho.

D) discurso em primeira pessoa que transmite o caráter ambíguo da religiosidade do personagem e sua convicção acerca da relação que a mulher deve ter com a religião.

✅ Correta: reúne, sem distorcer nada, os três elementos comprovados nos Passos 3 e 4 — a pessoa gramatical (1ª pessoa, confirmada pelos pronomes), a ambiguidade religiosa (útil para os outros, dispensável para si mesmo) e a convicção rígida e explícita sobre o papel que a religião deve exercer sobre a mulher ("mulher sem religião é horrível... é capaz de tudo").

E) narrador alheio às questões socioculturais e econômicas da sociedade capitalista e que defende a divisão dos bens e o trabalho coletivo como modo de organização social e política.

❌ Incorreta: Paulo Honório é exatamente o oposto disso. É um fazendeiro que enriqueceu por meios inescrupulosos, patrão de trabalhadores "mal remunerados", obcecado por propriedade e produtividade — um símbolo do capitalismo rural mais predatório, não alguém "alheio" a essas questões. E, longe de defender a divisão de bens, trata a palavra "comunista" como ofensa dirigida à esposa, rejeitando explicitamente qualquer ideia de organização coletiva.

🏆 Gabarito: D — o trecho é um discurso em primeira pessoa (comprovado pelos pronomes e verbos do próprio texto) que expõe, ao mesmo tempo, a religiosidade ambígua e utilitária de Paulo Honório e sua convicção inflexível sobre a religião como instrumento de controle da mulher.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que não inverte nem inventa nenhuma informação do texto — acerta a pessoa gramatical do narrador e acerta, ao mesmo tempo, o duplo conteúdo ideológico (religiosidade ambígua + convicção sobre a mulher) revelado por esse discurso.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o reconhecimento do foco narrativo (1ª x 3ª pessoa; narrador-personagem x onisciente) combinado com a leitura fina da caracterização psicológica e ideológica de personagens na prosa de 30 — especialmente em Graciliano Ramos, autor recorrente nas provas por sua obra enxuta e psicologicamente densa.
  • Generalização: quando uma questão combinar "quem narra" com "o que esse narrar revela", resolva em duas etapas separadas: primeiro isole os pronomes e verbos para travar o foco narrativo (isso é fato gramatical, inegociável); depois, só então, cruze as evidências temáticas do texto com o que cada alternativa afirma sobre o conteúdo psicológico ou ideológico.
  • Dica de eliminação rápida: qualquer alternativa que mencione "terceira pessoa", "onisciente" ou "narrador que não participa da história" pode ser descartada em segundos assim que se localiza um único pronome de 1ª pessoa no trecho — aqui, bastam os "me" e "meus" da primeira frase para eliminar B e C de imediato.
  • Conexões: compare com o narrador-personagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) — outro narrador que se autoexpõe sem perceber — e com Vidas Secas, do próprio Graciliano Ramos, onde o discurso indireto livre aproxima ainda mais a voz do narrador da consciência (limitada) dos personagens.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.