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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaDifícil

Questão 68ENEM 2023 PPL

Nos governos de Vargas e Perón, o esporte começou a ser visto como um importante elemento na relação entre o regime e a sociedade. Tal fato não deve ser entendido apenas como uma resposta à crescente popularidade do esporte. Ainda que crescente em seus governos, a massificação do esporte já havia ocorrido muito antes. Talvez a influência dos regimes de Mussolini e Hitler sobre os dois governantes latino-americanos possa apontar para um melhor entendimento dessa nova visão política, uma vez que ambos tiveram uma estreita ligação com o esporte e a sua utilização como propaganda política.

DRUMOND, M. Vargas, Perón e o esporte. Revista Estudos Históricos, n. 44, jul.-dez. 2009.

De acordo com o texto, o uso do esporte nos regimes políticos mencionados foi explorado com o objetivo de

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Era Vargas, peronismo argentino, totalitarismos europeus e uso político do esporte
  • ⚡ Nível: Difícil — a leitura literal do texto empurra o candidato para uma alternativa tentadora e genérica; acertar exige diferenciar essa leitura ampla do mecanismo específico descrito no texto
  • 🎯 Tema/Habilidade: Populismo latino-americano e espetáculo político; leitura crítica de texto historiográfico
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o texto, com que finalidade Vargas e Perón exploraram politicamente o esporte?"
  • Palavras-chave decisivas: relação entre o regime e a sociedade, propaganda política, Mussolini e Hitler
  • Armadilha típica: ler "vínculo regime-sociedade" e saltar direto para uma tese abstrata sobre identidade nacional, ignorando que o texto está descrevendo um mecanismo concreto — eventos, rituais, comemorações — e não um processo cultural difuso de décadas.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o esporte foi incorporado ao calendário de celebrações oficiais do Estado, funcionando como cenário público de propaganda, nos moldes explicitamente citados de Mussolini e Hitler.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Estado Novo (Vargas, 1937-1945): regime autoritário centralizador que investiu pesado em propaganda de Estado (o DIP — Departamento de Imprensa e Propaganda) e em rituais públicos de exaltação do trabalhador e da nação, como os desfiles do 1º de maio.
  • Peronismo (Perón, 1946-1955): movimento político argentino que também massificou comemorações públicas — datas do movimento, homenagens ao trabalhador — usando o esporte como linguagem de mobilização popular junto ao Estado.
  • Fascismo italiano e nazismo alemão: regimes totalitários que consolidaram o modelo de "política como espetáculo": grandes desfiles, competições e celebrações públicas (caso emblemático: os Jogos Olímpicos de Berlim, de 1936) usados para exibir força, disciplina e coesão em torno do regime.
  • Esporte-espetáculo como propaganda de Estado: diferente de um discurso identitário abstrato e de longo prazo, trata-se de eventos concretos, datados e organizados pelo poder público — desfiles, jogos, comemorações cívicas — em que o corpo do atleta é exibido como símbolo do regime.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "elemento na relação entre o regime e a sociedade" → o esporte não é tratado como fim em si mesmo, e sim como meio de o Estado se apresentar publicamente ao povo — o que remete a eventos e cerimônias, não a uma construção identitária difusa e espontânea.
  • Evidência 2: "influência dos regimes de Mussolini e Hitler [...] estreita ligação com o esporte e a sua utilização como propaganda política" → o modelo copiado por Vargas e Perón é justamente o de transformar competições e desfiles esportivos em rituais públicos de exaltação do regime, isto é, em festividades cívicas carregadas de propaganda.
  • Síntese: o texto não descreve a "criação" de uma identidade nacional do zero (a nação e seus símbolos já existiam antes) — ele descreve o aproveitamento do esporte como cenário de comemorações oficiais do Estado. A resposta precisa acompanhar esse caráter ritual e comemorativo, não uma leitura simbólico-identitária isolada.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Eliminar o que o texto explicitamente descarta

Logo na segunda e na terceira frases, o autor avisa: o fenômeno "não deve ser entendido apenas como resposta à crescente popularidade do esporte", pois "a massificação do esporte já havia ocorrido muito antes" dos dois governos. Isso descarta de saída qualquer leitura ligada a processos espontâneos (popularização natural, cultura física da população em geral) e obriga o candidato a focar no uso político deliberado e institucional do esporte pelo Estado.

Subpasso 4.2 — Isolar o mecanismo descrito: espetáculo público oficial

A frase final do texto é a chave de leitura: Mussolini e Hitler tiveram "estreita ligação com o esporte e a sua utilização como propaganda política". Historicamente, essa ligação se concretizou em grandes eventos públicos do calendário oficial — desfiles de ginástica coletiva, comemorações de datas do regime, competições transformadas em vitrines do Estado diante da própria população e do mundo. Vargas e Perón importaram exatamente esse modelo: o esporte passou a integrar as comemorações cívicas oficiais (datas do trabalho, aniversários do regime, grandes eventos esportivos), funcionando como palco de celebração pública do poder.

Subpasso 4.3 — Verificação

Uma "festividade cívica" é precisamente isso: uma comemoração pública oficial — datada, organizada pelo Estado, com desfiles e rituais — usada para reunir a população em torno do regime. É essa mediação ritual e comemorativa, e não uma tese abstrata sobre "identidade nacional", que o texto evidencia ao comparar Vargas e Perón com Mussolini e Hitler. A alternativa C converge exatamente com essa leitura: o esporte como peça central da encenação das festividades cívicas do regime.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) construção de identidades nacionais.

❌ Incorreta: é a leitura mais tentadora, mas generaliza o que o texto descreve com precisão. "Identidade nacional" remete a um processo cultural amplo e de longuíssimo prazo (educação, símbolos, memória coletiva construídos ao longo de décadas), enquanto o texto fala de um mecanismo específico e datado — o aproveitamento de eventos esportivos como cenário de propaganda estatal, nos moldes explícitos de Mussolini e Hitler.

B) reprodução de poderes autocráticos.

❌ Incorreta: confunde uma possível consequência política de longo prazo (a manutenção do líder no poder) com o mecanismo descrito no texto. O trecho fala em "relação entre o regime e a sociedade" por meio do espetáculo esportivo público, não em um cálculo de perpetuação do autoritarismo em si.

C) celebração de festividades cívicas.

✅ Correta: é exatamente o que o texto descreve ao comparar Vargas e Perón com Mussolini e Hitler — o esporte inserido nas comemorações oficiais do Estado (desfiles, datas cívicas, grandes eventos de massa) como instrumento de propaganda política e de aproximação entre regime e sociedade.

D) formação de cidadãos saudáveis.

❌ Incorreta: essa é a justificativa oficial e sanitarista que os próprios regimes usavam (discurso de vigor físico, higienismo, eugenia), mas não é o que o texto está analisando. O foco do trecho é o uso político-midiático do esporte, não a retórica de saúde pública que o acompanhava.

E) contestação de símbolos pátrios.

❌ Incorreta: é o oposto do que o texto descreve. O esporte foi usado para reforçar e celebrar os símbolos e a autoridade do regime, jamais para questioná-los.

🏆 Gabarito: C — o texto descreve o esporte como peça de um espetáculo público oficial, nos moldes fascista e nazista citados, ou seja, como parte das comemorações e festividades cívicas promovidas pelo Estado para aproximar regime e sociedade.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C capta o caráter ritual, público e datado do uso do esporte, evidenciado pela comparação direta do texto com Mussolini e Hitler — regimes conhecidos justamente por transformar eventos esportivos em grandes celebrações cívicas oficiais.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o "populismo latino-americano" (Vargas, Perón, Cárdenas) em paralelo com os totalitarismos europeus, sempre destacando o uso do rádio, do cinema, do esporte e das comemorações públicas como tecnologias de aproximação entre líder e massas.
  • Generalização: quando um texto histórico compara um regime latino-americano com o fascismo ou o nazismo e menciona explicitamente "propaganda", a resposta tende a valorizar o aspecto ritual e performático do poder (desfiles, datas comemorativas, símbolos em ação) mais do que conceitos amplos e abstratos como "identidade" ou "autocracia".
  • Dica de eliminação rápida: corte primeiro as alternativas que contradizem o texto (E, pois o esporte reforça e não contesta símbolos) ou que trazem uma finalidade não mencionada (D, saúde); entre as restantes, prefira a opção que descreve uma ação/evento concreto e público (celebração) a uma tese abstrata (identidade, autocracia).
  • Conexões: Estado Novo e o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda); a Copa do Mundo de 1938 e a Seleção Brasileira como símbolo do getulismo; os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 como vitrine do nazismo.

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