Mapa de questões · 1º dia
Questão 59 — ENEM 2023 PPL
A concepção tecnocrata está associada à fé em mercados — não necessariamente no capitalismo livre, laissez-faire, mas uma crença mais ampla de que mecanismos de mercado são os principais instrumentos para alcançar o bem público. Esse modo de pensar é tecnocrático, no sentido de que esvazia o discurso público de argumentos substantivamente morais e questões ideologicamente contestáveis como se fossem assuntos de eficiência econômica, domínio de especialistas. A verdadeira divisão, argumentaram eles, não era mais esquerda versus direita, mas aberto versus fechado. Isso insinuava que os contrários à terceirização, tratados de livre-comércio e fluxos de capitais irrestritos eram pessoas de mente fechada, não de mente aberta; eram tribais, não globais.
SANDEL, M. J. A tirania do mérito: o que aconteceu ao bem comum? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020 (adaptado).
A crítica ao modelo de pensamento apresentado no texto fundamenta-se na postura de desvalorização do(a)
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Sociologia → crítica à tecnocracia, esvaziamento da esfera pública, teoria democrática (leitura de Michael Sandel)
- ⚡ Nível: Difícil — exige separar, dentro do mesmo texto, o que o pensamento tecnocrata valoriza (mercado, eficiência) daquilo que ele desvaloriza (debate público), uma armadilha semântica fina.
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica à tecnocracia e à despolitização do debate público; leitura crítica de texto teórico de Ciências Humanas sobre formas de poder e legitimidade política.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, segundo a crítica de Sandel, o pensamento tecnocrata retratado no texto desvaloriza?"
- Palavras-chave decisivas: esvazia o discurso público, argumentos substantivamente morais, domínio de especialistas
- Armadilha típica: confundir o que o texto elogia no modelo tecnocrata (mercado, livre-comércio, eficiência) com aquilo que ele denuncia como desvalorizado — são os dois polos opostos do mesmo raciocínio, e o candidato apressado mistura um com o outro.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que decisões de fundo moral e ideológico, que deveriam passar pelo debate público e democrático, são transferidas para "especialistas", retirando poder de decisão da cidadania organizada politicamente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Tecnocracia: modelo de pensamento e de governo em que questões de fundo moral e ideológico são tratadas como problemas técnicos de eficiência, a serem resolvidos por especialistas — não pelo voto, pelo parlamento ou pelo debate público.
- Esfera/discurso público: espaço de deliberação coletiva em que cidadãos disputam valores, projetos de sociedade e prioridades. É exatamente esse espaço que Sandel descreve como "esvaziado" pela tecnocracia.
- Dicotomia aberto × fechado (substituta de esquerda × direita): estratégia retórica citada no texto que rotula quem discorda do consenso pró-mercado como "tribal" e "de mente fechada", deslegitimando o dissenso político-ideológico em vez de debatê-lo.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "esvazia o discurso público de argumentos substantivamente morais e questões ideologicamente contestáveis" → o próprio texto nomeia o alvo esvaziado: o discurso público, ou seja, o debate político coletivo.
- Evidência 2: "como se fossem assuntos de eficiência econômica, domínio de especialistas" → o que deveria ser decidido coletivamente, pela política, passa a ser decidido tecnicamente, por especialistas não eleitos — retirando poder de decisão do cidadão comum.
- Evidência 3: contrários à terceirização, aos tratados de livre-comércio e aos fluxos de capitais são chamados de "tribais", não de "globais" → quem discorda politicamente da agenda tecnocrata é deslegitimado como atrasado, não enfrentado como adversário político legítimo em um debate.
- Síntese: as três evidências convergem para o mesmo alvo. O texto não critica o mercado — que é descrito como "instrumento" louvado do bem público — nem o comércio, defendido explicitamente pelos tecnocratas. O que o texto denuncia é a substituição da política, do debate, da participação cidadã, pelo cálculo técnico de especialistas.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar o que o texto elogia do que ele denuncia
Releia a primeira frase com atenção: "a concepção tecnocrata está associada à fé em mercados [...] mecanismos de mercado são os principais instrumentos para alcançar o bem público." Aqui, mercado e mecanismos econômicos aparecem como o TRUNFO da tecnocracia — aquilo que ela valoriza e defende, não aquilo que ela rebaixa. Qualquer alternativa que aponte "sistema financeiro" ou "intercâmbio comercial" como alvo da crítica inverte a lógica do texto: esses elementos são exaltados pelos tecnocratas, e é justamente essa fé inabalável no mercado que Sandel questiona — não o mercado sendo desvalorizado.
Subpasso 4.2 — Localizar o verbo-chave "esvaziar" e seu objeto direto
A frase central do trecho diz que esse modo de pensar "esvazia o discurso público" — o objeto direto do verbo "esvaziar" é o discurso público, sinônimo textual de vida política, deliberação democrática e disputa legítima de valores. Esvaziá-lo de "argumentos substantivamente morais" e de "questões ideologicamente contestáveis" significa retirar da política justamente aquilo que a torna política: o embate aberto entre posições divergentes. Esse conteúdo é empurrado para o terreno técnico, o "domínio de especialistas". Deslocar a decisão do cidadão para o especialista é, por definição, desvalorizar a participação política.
Subpasso 4.3 — Verificação com o exemplo final do texto
O parágrafo se fecha com um exemplo concreto que confirma essa leitura: quem se opõe à terceirização, aos tratados de livre-comércio e aos fluxos irrestritos de capital não é tratado como um adversário político legítimo, a ser convencido ou vencido no debate — é chamado de "tribal", "de mente fechada". A discordância política é convertida em atraso cultural, e não em posição legítima a ser disputada nas urnas ou no parlamento. Isso confirma, do início ao fim do texto, que o alvo da crítica de Sandel é o esvaziamento da participação política, validando a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) sistema financeiro.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. Os tecnocratas têm, segundo o próprio enunciado, "fé em mercados" e veem os "mecanismos de mercado" como o principal instrumento do bem público — ou seja, o sistema financeiro é exaltado pela tecnocracia, não desvalorizado por ela. Não há, em nenhuma linha, uma crítica ao sistema financeiro enquanto tal; a crítica recai sobre a fé cega nesse sistema como substituto da política.
B) participação política.
✅ Correta: o texto mostra, do começo ao fim, como decisões morais e ideologicamente contestáveis — que deveriam ser resolvidas pelo debate público e pelo processo democrático — são deslocadas para o "domínio de especialistas" e tratadas como puro cálculo de eficiência. Esse deslocamento esvazia exatamente a participação política da cidadania comum, substituindo-a pelo juízo técnico de quem não foi eleito nem precisa prestar contas ao debate público.
C) intercâmbio comercial.
❌ Incorreta: o texto associa a tecnocracia à defesa do livre-comércio e dos fluxos de capitais irrestritos — ela valoriza o intercâmbio comercial, a ponto de rotular seus opositores de "tribais" e "de mente fechada". Marcar essa alternativa é confundir o objeto elogiado pelo modelo criticado com o objeto efetivamente desvalorizado por ele.
D) produção exportadora.
❌ Incorreta: o tema simplesmente não aparece no texto. Não há qualquer menção a exportações ou à produção voltada ao mercado externo; é um distrator sem lastro textual, construído por associação vaga e imprecisa com "comércio internacional".
E) comportamento diplomático.
❌ Incorreta: o texto trata de política doméstica — do modo como o debate público interno de uma sociedade é conduzido e esvaziado —, e não de relações diplomáticas entre Estados ou de política externa.
🏆 Gabarito: B — a crítica de Sandel mira a substituição da deliberação política coletiva pelo juízo técnico de especialistas, isto é, a desvalorização da participação política; mercado, comércio e sistema financeiro são justamente o que a tecnocracia enaltece, não o que ela rebaixa.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas "participação política" nomeia com precisão o que o texto diz, explicitamente, que é "esvaziado" do discurso público; nenhuma outra alternativa corresponde ao objeto direto do verbo-chave do trecho.
- Padrão de cobrança: o ENEM de Ciências Humanas costuma trazer excertos de autores contemporâneos (Sandel, Bauman, Byung-Chul Han, Boaventura de Sousa Santos) que discutem crise da democracia, populismo, meritocracia e tecnocracia, sempre cobrando a identificação precisa do que o autor valoriza versus o que ele denuncia.
- Generalização: quando um texto teórico critica um modelo de pensamento, a resposta correta quase nunca repete o que esse modelo elogia de si mesmo (aqui, mercado e comércio) — ela aponta para o que esse modelo suprime ou desloca (aqui, o debate político).
- Dica de eliminação rápida: releia a primeira frase do texto — tudo que ali aparece como "instrumento" ou "fé" do grupo criticado (mercado, eficiência, comércio) não pode, ao mesmo tempo, ser o alvo da desvalorização apontada pela crítica. Isso elimina A e C em segundos.
- Conexões: A Tirania do Mérito (Michael Sandel); Terceira Via (Anthony Giddens, Tony Blair, Bill Clinton); crise de representação democrática e ascensão do populismo.
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