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Mapa de questões · 1º dia
HumanasHistóriaDifícil

Questão 78ENEM 2023 PPL

O legado dos movimentos sociais dos anos 1970-80

Na mudança de regime político, que culminou com a Carta Constitucional de 1988, os movimentos sociais foram, sem dúvida, os grandes atores. Se tomarmos a Constituição de 1988 como o coroamento desse processo, no qual os movimentos sociais ocuparam a cena pública, vamos perceber que os valores democráticos nela inscritos são inéditos como experiência de sociedade, e não seria exagero dizer que a sociedade brasileira de antes de 1964 não se reconheceria na Carta de 1988, o que equivale a dizer que o processo vivido nesses anos recentes logrou estabelecer os fundamentos de uma nova sociedade marcada, especialmente, pelo reconhecimento dos direitos de cidadania que a sociedade passou a atribuir-se através dos seus movimentos.

SILVEIRA, R. J. Revista Mediações, n. 1, jan.-jun. 2000 (adaptado).

Com base no texto, a ação dos atores sociais mencionados produziu o seguinte resultado:

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: História → Redemocratização e Constituição de 1988; noção de memória social/coletiva
  • ⚡ Nível: Difícil — a resposta correta exige um conceito específico (memória coletiva/nacional) que concorre com uma alternativa genérica e aparentemente óbvia
  • 🎯 Tema/Habilidade: Movimentos sociais, memória histórica e construção da cidadania na redemocratização (Competência de Área 6/H21-H22 — Ciências Humanas)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual foi o resultado produzido pela ação dos movimentos sociais descrita no texto?"
  • Palavras-chave decisivas: grandes atores, inéditos como experiência de sociedade, não se reconheceria, fundamentos de uma nova sociedade
  • Armadilha típica: escolher a alternativa que apenas repete, em termos vagos, a ideia de "mudança histórica" — sem perceber que o texto fala de algo mais específico: a reconstrução de como a sociedade se vê e se lembra de si mesma.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto descreve uma ruptura na autoimagem coletiva da nação — no plano da memória social, não apenas dos fatos.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Constituição Cidadã (1988): carta promulgada ao final da redemocratização, resultado direto da pressão de movimentos sociais (sindicais, estudantis, negros, feministas, "Diretas Já"), consagrando direitos até então negados.
  • Memória social/coletiva: conceito da sociologia e historiografia (Halbwachs, Pollak) segundo o qual uma sociedade não apenas "vive" fatos históricos, mas constrói e reelabora ativamente aquilo que reconhece como seu passado e sua identidade. Grupos sociais disputam essa memória para legitimar novos direitos.
  • Manipulação (sentido técnico): do latim manus (mão) — manejar, operar sobre, reelaborar. Nas ciências humanas, "manipular a memória" não significa necessariamente falsificar, mas intervir ativamente sobre o que uma sociedade recorda e valoriza como fundamento de sua identidade.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "os valores democráticos nela inscritos são inéditos como experiência de sociedade" → revela que não se trata de ajuste institucional qualquer, mas da criação de um novo referencial simbólico e identitário para o país — algo que passa a compor a memória do que a nação "é".
  • Evidência 2: "a sociedade brasileira de antes de 1964 não se reconheceria na Carta de 1988" → evidência-chave: "reconhecer-se" é uma operação de memória e identidade, não apenas de fatos objetivos. Se a sociedade anterior "não se reconheceria", é porque a autoimagem coletiva — a memória que a nação tem de si — foi reelaborada.
  • Síntese: os movimentos sociais não apenas alteraram leis, mas reconstruíram ativamente aquilo que a sociedade brasileira reconhece como seus fundamentos e sua trajetória — um trabalho de reelaboração da memória nacional em torno da cidadania.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o núcleo do processo narrado

O texto de Silveira descreve a Constituição de 1988 como "coroamento" de um processo em que os movimentos sociais foram "os grandes atores". O ponto central não é apenas que houve mudança de regime (isso é pano de fundo, dado como certo), mas que essa mudança produziu algo "inédito como experiência de sociedade" — uma ruptura simbólica tão profunda que a sociedade anterior a 1964 "não se reconheceria" na nova Carta.

Subpasso 4.2 — Conectar o núcleo ao conceito de memória nacional

"Reconhecer-se" (ou não) em um documento fundador é, por definição, uma questão de memória e identidade coletiva: é a forma como uma sociedade lembra, seleciona e valida seu próprio passado e seus próprios valores. Ao tornarem os direitos de cidadania o novo "fundamento de uma nova sociedade", os movimentos sociais não apenas mudaram leis — eles reescreveram o que a nação reconhece como sua trajetória e seus valores fundadores. Esse trabalho ativo de reelaboração é o que a alternativa correta nomeia como "manipulação da memória nacional": os atores sociais operaram sobre a memória coletiva do país, redefinindo o que ela reconhece como legítimo e fundador.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando com as cinco alternativas, apenas uma nomeia com precisão esse mecanismo específico descrito pelo texto — a reconstrução ativa daquilo que a sociedade reconhece como sua própria história e identidade. As demais ou introduzem elementos ausentes do texto (Judiciário, ideologia única, destruição) ou usam um termo correto, porém genérico demais para captar o que o trecho realmente enfatiza.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Manipulação da memória nacional.

✅ Correta: o texto mostra, pela expressão "não se reconheceria", que os movimentos sociais reelaboraram ativamente aquilo que a sociedade brasileira reconhece como seus fundamentos e sua trajetória — ou seja, atuaram diretamente sobre a memória coletiva/nacional, redefinindo-a em torno dos direitos de cidadania.

B) Subordinação do sistema judiciário.

❌ Incorreta: o texto não menciona em nenhum momento o Poder Judiciário ou qualquer relação de subordinação institucional; trata exclusivamente de valores democráticos, cidadania e autorreconhecimento social.

C) Imposição dos discursos ideológicos.

❌ Incorreta: "imposição" sugere processo vertical e unilateral, de uma única voz sobre as demais. O texto descreve um processo plural, protagonizado por múltiplos "movimentos" que a sociedade "passou a atribuir-se" — participação coletiva, não imposição de um discurso único.

D) Transformação da realidade histórica.

❌ Incorreta (armadilha de leitura superficial): a alternativa não é falsa em termos amplos, mas é genérica demais — não identifica o que, especificamente, foi transformado. O texto localiza a transformação no plano da memória e do autorreconhecimento social ("não se reconheceria"), algo que A nomeia com exatidão, enquanto D apenas parafraseia a ideia óbvia de "mudança histórica".

E) Destruição dos princípios tradicionais.

❌ Incorreta: o texto emprega vocabulário de construção — "coroamento", "estabelecer os fundamentos de uma nova sociedade" — e não de destruição. A CF/88 é apresentada como ato fundador e positivo, não como ruptura destrutiva com o passado.

🏆 Gabarito: A — os movimentos sociais reelaboraram ativamente aquilo que a sociedade brasileira reconhece como seus fundamentos e sua história: uma manipulação (reconstrução) da memória nacional em torno dos direitos de cidadania.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: "não se reconheceria" é a chave textual que aponta para memória/identidade coletiva, não apenas para "mudança histórica" genérica — por isso A, e não D, é a resposta precisa.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente testa, em textos sobre redemocratização, a ideia de que cidadania e identidade nacional são construções sociais disputadas — não fatos dados, mas narrativas reelaboradas por atores históricos.
  • Generalização: em interpretação de texto nas Ciências Humanas, desconfie da alternativa que só repete, vagamente, a ideia central óbvia (aqui, D); costuma ser armadilha para leitura superficial, enquanto a resposta certa nomeia com precisão o mecanismo específico descrito.
  • Dica de eliminação rápida: corte alternativas com elementos ausentes do texto (B — Judiciário) e termos que contradizem o tom de construção/pluralidade do trecho (C — imposição; E — destruição); entre A e D, escolha o termo mais preciso ao que o texto descreve.
  • Conexões: Diretas Já, Assembleia Nacional Constituinte de 1987-88, políticas de memória sobre a ditadura militar (Comissão Nacional da Verdade).

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