Mapa de questões · 1º dia
Questão 85 — ENEM 2023 PPL
Há pouco mais de um ano, o chefe de polícia do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Alfredo Madureira, em pleno exercício de suas atribuições, entendeu tomar energéticas providências contra o curandeiro Breves, e depois de sucessivas queixas que recebera relativamente às curas praticadas pelo milagroso esculápio, concluiu as suas diligências policiais com a prisão de Breves. Essa prisão, porém, e as medidas tomadas contra a exploração da boa-fé de muita gente infeliz tiveram de cessar, porque apareceram os advogados do curandeiro Breves, em nome da liberdade de profissão, e em nome da arte sobrenatural de cura com benzeduras e raminhos de alecrim. E assim, findaram as perseguições ao bemérito esculápio que, de fronte erguida, continuou a sua carreira de triunfo, interrompida por um curto espaço de tempo.
Autoridade e curandeirismo. Gazeta de Notícias, 18 out. 1896.
No texto, os dois pontos de vista apresentados pela polícia e pelos advogados sobre as práticas populares de cura se distanciam por apresentarem
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → Brasil República; medicina oficial e práticas populares de cura; saberes em disputa
- ⚡ Nível: Médio — exige identificar que a divergência recai sobre o estatuto da atividade de curar, e não sobre normas técnicas
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer o conflito entre saberes oficiais e populares no início do século XX
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "No que a polícia e os advogados discordam a respeito do que o curandeiro Breves faz?"
- Palavras-chave decisivas: entendeu tomar energéticas providências contra o curandeiro Breves, exploração da boa-fé de muita gente infeliz, apareceram os advogados do curandeiro Breves, em nome da liberdade de profissão, em nome da arte sobrenatural de cura
- Armadilha típica: ler o conflito como debate técnico-sanitário ou como questão de registro profissional, quando a divergência é sobre a própria natureza da atividade
- O que a resposta precisa demonstrar: que os dois lados avaliam de modo oposto o mesmo ofício — para um é fraude, para o outro é profissão legítima
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Curandeirismo: prática popular de cura por meio de benzeduras, ervas e rezas; foi criminalizada no Código Penal de 1890.
- Medicina oficial: saber científico institucionalizado, que no período buscava monopólio sobre o tratamento de doenças.
- Liberdade de profissão: princípio liberal invocado pelos advogados para sustentar o direito de Breves exercer seu ofício.
- Esculápio: referência a Asclépio, deus greco-romano da medicina; usado no texto para designar Breves, com forte carga irônica.
- Saberes em disputa: conflito entre conhecimento científico e conhecimento popular sobre quem pode legitimamente curar.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1 (polícia): "o chefe de polícia... entendeu tomar energéticas providências contra o curandeiro Breves, e depois de sucessivas queixas que recebera relativamente às curas praticadas... concluiu as suas diligências policiais com a prisão de Breves" → para a autoridade, a atividade é caso de polícia.
- Evidência 2 (polícia): "as medidas tomadas contra a exploração da boa-fé de muita gente infeliz" → o ofício é qualificado como engano de pessoas vulneráveis.
- Evidência 3 (advogados): "apareceram os advogados do curandeiro Breves, em nome da liberdade de profissão, e em nome da arte sobrenatural de cura com benzeduras e raminhos de alecrim" → para a defesa, trata-se de profissão e de arte legítimas.
- Evidência 4: "continuou a sua carreira de triunfo" → a palavra "carreira" reforça a leitura da atividade como ofício reconhecido por parte da sociedade.
- Síntese: um mesmo ofício — curar por benzeduras — é lido como fraude pela polícia e como profissão pelos advogados: são visões opostas sobre o mesmo trabalho.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar cada ponto de vista
A polícia trata as curas de Breves como exploração: recebe queixas, investiga e prende. Para ela, o que ele faz não é ofício, e sim golpe contra "gente infeliz". Os advogados, ao contrário, defendem-no invocando "a liberdade de profissão" e "a arte sobrenatural de cura com benzeduras e raminhos de alecrim". Para eles, o que ele faz é trabalho legítimo, amparado por um direito.
Subpasso 4.2 — Identificar o eixo da divergência
Note que ambos falam da mesma prática: curar por benzeduras. O que muda é o estatuto atribuído a ela. De um lado, atividade criminosa; de outro, profissão protegida. A discordância, portanto, é sobre como qualificar um mesmo tipo de ofício — o que a alternativa A chama de "visões díspares sobre o mesmo tipo de ofício".
Subpasso 4.3 — Verificação
Não há, no texto, discurso de elogio à ordem vigente por nenhuma das partes; não se discutem normas sanitárias; não se mencionam certificados ou registros médicos; e não há qualquer referência a eugenia. A oposição é de avaliação sobre a natureza da atividade. Alternativa A confirmada.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) visões díspares sobre o mesmo tipo de ofício.
✅ Correta: polícia e advogados se referem exatamente à mesma prática — as curas de Breves com benzeduras e raminhos de alecrim —, mas a qualificam de modos opostos. Para o chefe de polícia, trata-se de "exploração da boa-fé de muita gente infeliz", passível de prisão; para os advogados, de exercício legítimo amparado pela "liberdade de profissão". A divergência recai sobre o estatuto do próprio ofício.
B) discursos laudatórios sobre a mesma ordem vigente.
❌ Incorreta: nenhum dos lados elogia a ordem estabelecida. A polícia atua para reprimir e os advogados atuam para impedir a repressão — há confronto entre eles, e não louvor comum a uma ordem.
C) regras sanitárias sobre a mesma atividade terapêutica.
❌ Incorreta: não se discutem normas de higiene, controle sanitário ou segurança de procedimentos. O embate é sobre a legitimidade de Breves exercer a cura, não sobre as condições técnicas em que a exerce.
D) registros certificados sobre o mesmo exercício médico.
❌ Incorreta: em nenhum momento se menciona diploma, licença ou registro profissional. Os advogados invocam a liberdade de profissão como princípio geral, e não a existência de habilitação formal de Breves.
E) regulamentos eugênicos sobre o mesmo fenômeno da cultura.
❌ Incorreta: eugenia — o projeto de "melhoramento" racial da população — não aparece no texto. A disputa é jurídica e simbólica, sobre quem pode curar, e não sobre políticas de seleção populacional.
🏆 Gabarito: A — Polícia e advogados falam da mesma prática de cura, mas a polícia a considera exploração criminosa e a defesa, profissão legítima: são visões opostas sobre um mesmo ofício.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que capta a natureza da divergência; B nega o conflito, C e D introduzem critérios técnicos ausentes e E traz um tema estranho ao fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM aborda a disputa entre medicina oficial e práticas populares de cura no Brasil da Primeira República, tema ligado à repressão a religiosidades afro-brasileiras.
- Generalização: quando dois grupos falam do mesmo fato com julgamentos opostos, o eixo da questão costuma ser a divergência de interpretação, e não o fato em si.
- Dica de eliminação rápida: confira se ambos os termos da alternativa aparecem no texto. "Regras sanitárias", "registros certificados" e "regulamentos eugênicos" não constam em nenhum trecho.
- Conexões: criminalização do curandeirismo no Código Penal de 1890; medicina e poder na Primeira República; repressão às religiões de matriz africana.
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