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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaDifícil

Questão 45ENEM 2023 PPL

Da calma e do silêncio

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas...

[...]

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.

Caminhar para quê?

Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.

Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

EVARISTO, C. Poemas de recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2021 (fragmento).

Na reflexão sobre motivos e soluções do trabalho com a palavra, o eu lírico defende que a poesia

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → leitura de poesia contemporânea; voz lírica e metalinguagem poética; poética de Conceição Evaristo
  • ⚡ Nível: Difícil — exige converter imagens corporais concretas (morder, mascar, tutano) em conceito abstrato (recusa da inspiração metafísica), sem se contentar com a leitura mais literal
  • 🎯 Tema/Habilidade: Leitura de texto poético; reconhecimento do ponto de vista do eu lírico sobre o processo de criação artística (metalinguagem)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Segundo o eu lírico, como e por que a poesia deve ser produzida?"
  • Palavras-chave decisivas: não me apressem, mascar, rasgar entre os dentes, o silêncio da poesia
  • Armadilha típica: ler "não me apressem" e concluir que o tema central é apenas "a poesia precisa de tempo" (D), ignorando o campo semântico corporal que domina o poema e o que ele nega por contraste.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o eu lírico troca uma concepção abstrata e externa de criação poética (a inspiração que "vem de fora") por uma concepção corporal e artesanal do trabalho com a palavra.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Metalinguagem poética: poema que reflete sobre o próprio fazer poético — a poesia falando sobre como e por que o poeta escreve.
  • Campo semântico corporal: dentes, pele, ossos, tutano, pés, marcha — vocabulário que converte o "trabalho com a palavra" em ação física, não em espera de sinal vindo de fora.
  • Inspiração metafísica (conceito da alternativa E): tradição de raiz romântica que concebe a criação poética como dádiva externa e súbita — um "sopro" da musa, do divino ou de força transcendente, recebido de forma passiva.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "quero mascar, / rasgar entre os dentes, / a pele, os ossos, o tutano / do verbo" → compor é descrito com verbos de mastigação: a palavra é carne processada fisicamente, não revelação recebida de fora.
  • Evidência 2: "há mundos submersos, / que só o silêncio / da poesia penetra" → o sentido profundo não vem de chamado externo ou epifania súbita, mas de silêncio ativo — imersão que também é trabalho, não dádiva.
  • Síntese: o poema nunca menciona musa, dom ou revelação; a criação é apresentada como processo corporal e deliberado — o que equivale a recusar a inspiração metafísica como motor da poesia.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear o eixo temático

O poema tem duas cenas espelhadas: a "palavra" mordida e mastigada entre os dentes, e os "pés" que abrandam a marcha até o corpo se deixar "quedar". Ambas pedem o mesmo — "não me apressem", "não me forcem" — e descrevem a criação a partir do corpo, nunca de uma mente à espera de chamado externo.

Subpasso 4.2 — Tempo vs. natureza do processo

O comando pergunta pelos "motivos e soluções do trabalho com a palavra" — não só quanto tempo esse trabalho leva, mas de que tipo ele é. A resposta do texto: trabalho manual, corporal, quase animal, o oposto do poeta que espera, passivo, a visita da musa, o sopro metafísico. Trocando a espera pela mastigação, o eu lírico afirma que a poesia nasce do corpo que trabalha a palavra, não de algo que desce de fora.

Subpasso 4.3 — Verificação pela ausência lexical

Se a certa fosse "amadurecimento e plenitude" (D), esperaríamos vocabulário de florescimento ou espera contemplativa — ausente do fragmento. O que se repete é vocabulário de corpo e matéria, ancorando a poesia na ação física, não em força vinda "de fora". Só E nomeia essa oposição entre corpo/trabalho e inspiração externa.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) reflete as limitações inerentes à sua matéria-prima.

❌ Incorreta: o poema celebra a densidade da palavra ("pele, ossos, tutano") como matéria rica para mastigar, não como algo limitado; não há ideia de insuficiência da linguagem.

B) é um produto relacionado ao sentimento de angústia.

❌ Incorreta: o campo afetivo é o oposto — o título é "Da calma e do silêncio", e o eu lírico pede calma e inércia, sem vocabulário de aflição.

C) exige o engajamento social para a sua plena realização.

❌ Incorreta: o poema defende o recolhimento — "deixem-me quieta, na aparente inércia" —, atitude de introspecção contrária à ação coletiva ou engajamento social.

D) requer um tempo próprio de amadurecimento e plenitude.

❌ Incorreta, embora sedutora: capta só a superfície de "não me apressem", sem dizer o que preenche esse tempo. O foco não é a duração, e sim a natureza corporal e não mística do processo criativo.

E) deve desvincular-se de questões de inspiração metafísica.

✅ Correta: a criação poética é construída inteiramente como trabalho corporal e consciente — mastigar, rasgar, caminhar devagar, calar-se — sem qualquer menção a musa, dom ou revelação externa. Essa ausência, somada às imagens de corpo e matéria, expressa a recusa de uma poesia dependente de inspiração metafísica: ela nasce do corpo que trabalha a palavra, não de um sopro externo.

🏆 Gabarito: E — o eu lírico define a poesia como processo corporal e deliberado (mastigar, rasgar, caminhar devagar), não como fruto de inspiração externa ou transcendente; por isso defende que ela deve se desvincular dessa concepção metafísica de criação.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só E nomeia o que o poema nega implicitamente (inspiração vinda de fora) ao afirmar o que mostra explicitamente (corpo que mastiga e caminha devagar sobre a palavra); as demais contradizem o texto (B, C) ou capturam só sua superfície (A, D).
  • Padrão de cobrança: o ENEM traz com frequência poemas de metalinguagem, pedindo que se identifique a concepção de criação defendida pelo eu lírico.
  • Generalização: em metalinguagem poética, mapeie o campo semântico dominante e o que ele exclui — a alternativa certa costuma nomear essa exclusão implícita.
  • Dica de eliminação rápida: descarte primeiro emoções ou ações ausentes do fragmento ("angústia", "engajamento social" sem base no poema).
  • Conexões: metalinguagem na poesia (Drummond, "Procura da Poesia"); escrevivência afro-brasileira (Conceição Evaristo, Cristiane Sobral).

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