Mapa de questões · 1º dia
Questão 6 — ENEM 2023 PPL
O fim da história
Não creio que o tempo
Venha comprovar
Nem negar que a História
Possa se acabar
Basta ver que um povo
Derruba um czar
Derruba de novo
Quem pôs no lugar
É como se o livro dos tempos pudesse
Ser lido trás pra frente, frente pra trás
Vem a História, escreve um capítulo
Cujo título pode ser “Nunca Mais”
Vem o tempo e elege outra história, que escreve
Outra parte, que se chama “Nunca É Demais”
“Nunca Mais”, “Nunca É Demais”, “Nunca Mais”
“Nunca É Demais”, e assim por diante, tanto faz
Indiferente se o livro é lido
De trás pra frente ou lido de frente pra trás.
GILBERTO GIL. In: Parabolicamará. Rio de Janeiro: WEA, 1991.
Considerando-se o jogo de oposições presente nessa letra de canção, infere-se que a narrativa histórica
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → leitura de letra de canção; recursos de oposição (antítese); construção da narrativa histórica
- ⚡ Nível: Difícil — a resposta certa exige separar a seleção de fatos sociais de uma suposta tese sobre tempo cíclico, distinção que a maioria não percebe
- 🎯 Tema/Habilidade: Inferência de sentido por recursos de oposição em texto poético-musical; leitura crítica da construção da narrativa histórica
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que conclusão os opostos da letra permitem tirar sobre como a narrativa histórica se constrói?"
- Palavras-chave decisivas: jogo de oposições, um povo / um czar, "Nunca Mais" / "Nunca É Demais"
- Armadilha típica: ler "trás pra frente, frente pra trás" como prova de que "a História é cíclica" — uma tese sobre o TEMPO que o poema recusa assumir já na abertura.
- O que a resposta precisa demonstrar: separar a FORMA do jogo de opostos (rótulos que se alternam) do CONTEÚDO estável por trás dela: um grupo social específico em disputa com o poder.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Narrativa histórica (historiografia): todo relato histórico é um recorte — seleção de fatos julgados relevantes, nunca o passado "inteiro".
- Jogo de oposições (antítese): pares contrários ("Nunca Mais" x "Nunca É Demais"; trás pra frente x frente pra trás) que organizam a forma do poema sem mudar seu conteúdo de fundo.
- Sujeito histórico da canção: "um povo" é o único agente social citado, sempre em confronto com o poder ("um czar", "quem pôs no lugar").
- Reversibilidade da narrativa (não do tempo): ser "indiferente" ler o livro numa ordem ou noutra mostra que a ordem de narrar não muda o sentido do que é contado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não creio que o tempo / Venha comprovar / Nem negar que a História / Possa se acabar" → o eu lírico recusa, de saída, tomar partido sobre a natureza do tempo — não afirma que é linear, nem que é cíclico.
- Evidência 2: "Basta ver que um povo / Derruba um czar / Derruba de novo / Quem pôs no lugar" → em vez de teorizar sobre o tempo, o texto aponta um fato concreto: um grupo social em embate com o poder. É esse recorte, não o tempo, que sustenta o "jogo de oposições."
- Síntese: os rótulos do jogo de oposições mudam, mas o conteúdo é sempre o mesmo tipo de fato — a disputa de um grupo social com o poder. A narrativa se define pelo recorte social que escolhe narrar, não pela natureza do tempo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que de fato se opõe na letra
Pares antitéticos: "comprovar" ↔ "negar"; "Nunca Mais" ↔ "Nunca É Demais"; "trás pra frente" ↔ "frente pra trás". A simetria é feita de pares equivalentes, sem que um vença ("tanto faz") — sinal de que o jogo de oposições é questão de FORMA (como o relato é nomeado), não uma tese sobre o tempo.
Subpasso 4.2 — Identificar o invariante por trás das oposições
Os rótulos mudam, mas o sujeito da ação e o tipo de evento não: é sempre "um povo" agindo sobre "um czar" ou sobre quem o substituiu. Esse núcleo — grupo social x poder — é o que a canção usa para justificar por que não assume posição sobre o fim da História: o que se repete é um recorte de fatos de um grupo social, não um ciclo temporal abstrato.
Subpasso 4.3 — Verificação cruzada com o comando
O comando pede o que se infere "considerando o jogo de oposições". Se a narrativa sempre retorna ao mesmo agente e evento (povo x poder), ela está circunscrita a esse recorte — exatamente a alternativa D. Nenhum outro grupo, processo histórico ou dimensão do tempo aparece na letra: não se fala de "toda a história da humanidade", e sim de um recorte específico.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) está sujeita a diferentes interpretações.
❌ Incorreta: o verso "indiferente se o livro é lido de trás pra frente ou de frente pra trás" diz o contrário — o resultado é o MESMO (indiferente) qualquer que seja a ordem de leitura. Não há multiplicação de sentidos; há invariância de sentido diante da inversão da ordem.
B) é construída pela relação causa e efeito.
❌ Incorreta: causa e efeito supõem cadeia linear e direcional, com um evento determinando o seguinte em um único sentido. A canção nega essa direção única ao dizer que o livro pode ser lido nos dois sentidos e "tanto faz" — alternância reversível, não encadeamento causal fixo.
C) sucede-se em espaços de tempo cíclicos.
❌ Incorreta (a mais tentadora): é inferência sobre a NATUREZA DO TEMPO, que os primeiros versos recusam afirmar ("Não creio que o tempo venha comprovar nem negar..."). O eu lírico desloca o argumento para um exemplo concreto (povo x czar) — sobre QUEM protagoniza, não sobre COMO o tempo se move.
D) limita-se a fatos relevantes de um grupo social.
✅ Correta: o único protagonista mencionado em toda a letra é "um povo" em confronto com figuras de poder ("um czar", "quem pôs no lugar"). O jogo de oposições reorganiza a forma de contar esse mesmo recorte, mas nunca amplia o conteúdo da narrativa para além dele.
E) desenvolve-se em torno de uma mesma temática.
❌ Incorreta: o próprio comando destaca o "jogo de OPOSIÇÕES" — os capítulos recebem títulos antagônicos ("Nunca Mais" x "Nunca É Demais"), indicando alternância e contraste, não a permanência de um único tema. A alternativa confunde "mesmo grupo social protagonista" (base da alternativa D) com "mesma temática recorrente" — são ideias diferentes.
🏆 Gabarito: D — a canção não teoriza sobre o tempo, seja linear ou cíclico: ela ilustra, com um único tipo de exemplo (um povo em confronto com o poder), que toda narrativa histórica é um recorte de fatos relevantes de um grupo social — e é justamente esse recorte, não a natureza do tempo, que o jogo de oposições evidencia.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que descreve o recorte real da narrativa (grupo social em disputa com o poder), sem extrapolar para teses que o texto não sustenta — tempo (C), causalidade linear (B), multiplicidade de leituras (A) ou unidade temática (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a letras de música e poemas para testar inferência sobre construção de sentido, via oposição, repetição, paralelismo e ironia — sempre exigindo comprovação por trechos literais.
- Generalização: diante de um "jogo de oposições/contrastes", procure o que permanece IGUAL por trás dos termos que se opõem — geralmente é aí, no invariante, que mora a resposta certa, não na leitura mais abstrata que uma alternativa sugere.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas com afirmações fortes e totalizantes (sobre tempo, causalidade absoluta, "diferentes interpretações") quando o texto relativiza isso logo na abertura; prefira a alternativa com o recorte concreto e citável.
- Conexões: o debate sobre "o fim da história" dialoga com o ensaio de Francis Fukuyama (1989); na historiografia, conecta-se à ideia de que todo relato histórico parte de um ponto de vista e de uma seleção de fatos, nunca da totalidade do passado.
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