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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 35ENEM 2023 PPL

O corrupião

Escaveirado corrupião idiota,
Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,
E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo,
Que do fundo do chão todo o ano brota!

Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rota
Voar, não tens mais! E pois, preto e amarelo,
Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo
A gargalhada da última derrota!

A gaiola aboliu tua vontade.
Tu nunca mais verás a liberdade!...
Ah! Tu somente ainda és igual a mim.

Continua a comer teu milho alpiste.
Foi este mundo que me fez tão triste,
Foi a gaiola que te pôs assim!

ANJOS, A. Eu e outras poesias. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 30 out. 2021.

Nesse soneto, a imagem e o comportamento do pássaro são utilizados pelo eu lírico para metaforizar o

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Pré-Modernismo brasileiro; Augusto dos Anjos; figuras de linguagem (metáfora)
  • ⚡ Nível: Médio — o vocabulário raro e científico (escaveirado, criptógama, úsnea, cerebelo) exige leitura atenta, mas os versos finais entregam a chave interpretativa de forma bastante explícita.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Interpretação de texto poético; reconhecimento do efeito de sentido de uma metáfora central no soneto (Competência de Área 1, Matriz de Linguagens do ENEM)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que a imagem e o comportamento do pássaro engaiolado representam simbolicamente para o eu lírico?"
  • Palavras-chave decisivas: corrupião, A gaiola aboliu tua vontade, Tu somente ainda és igual a mim
  • Armadilha típica: prender-se à descrição inicial do pássaro cativo (que sugere revolta ou choque natureza × civilização) e não perceber que o poema desloca o foco, nos versos finais, para a identificação solitária entre o eu lírico e a ave.
  • O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a metáfora não descreve o pássaro por si só — ela projeta sobre ele o estado íntimo do eu lírico, e esse estado é de isolamento e tristeza, não de revolta, de contraste conceitual ou de resignação diante de privações rotineiras.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Augusto dos Anjos e o Pré-Modernismo: poeta paraibano (1884-1914), autor do único livro "Eu" (1912); situa-se na transição entre o Simbolismo e o Modernismo, fundindo vocabulário técnico-científico (termos de biologia, anatomia, química) a um lirismo pessimista e mórbido, marcado pela angústia existencial.
  • Metáfora: figura de linguagem que transporta para um ser concreto (o pássaro) um estado abstrato do eu lírico (a solidão), criando uma equivalência implícita — aqui, explicitada pelo próprio verbo "ser": "és igual a mim".
  • Correlato objetivo: técnica recorrente em Augusto dos Anjos na qual um elemento externo (animal, objeto, paisagem) funciona como espelho do drama interior do sujeito poético, permitindo que o leitor "veja" o sentimento em vez de apenas lê-lo descrito.
  • Soneto (forma fixa): dois quartetos seguidos de dois tercetos; nesta estrutura, a "volta" (viragem de sentido) costuma ocorrer nos tercetos — exatamente onde este poema revela seu verdadeiro tema.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "A gaiola aboliu tua vontade. / Tu nunca mais verás a liberdade!..." → mostra que a privação do pássaro é total, definitiva e irreversível — não um incômodo passageiro. Isso já enfraquece qualquer leitura de "privação diária" (rotineira, renovável).
  • Evidência 2: "Ah! Tu somente ainda és igual a mim." → o eu lírico declara que, entre tudo o que existe, SOMENTE aquele pássaro decaído compartilha sua condição. É a frase mais reveladora do poema: um sujeito que só encontra semelhante em um animal cativo e "idiota" está descrevendo um isolamento humano radical.
  • Evidência 3: "Foi este mundo que me fez tão triste, / Foi a gaiola que te pôs assim!" → paralelismo sintático perfeito (mundo→me fez triste / gaiola→te pôs assim) que equipara as duas prisões: a gaiola física do pássaro e a "gaiola" existencial do eu lírico — ambas fontes do mesmo sofrimento solitário.
  • Síntese: o poema não fala do pássaro por ele mesmo; usa-o como espelho da solidão do eu lírico, que se sente tão aprisionado e triste quanto o corrupião e, significativamente, só nele reconhece um igual.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura do soneto e a função de cada parte

O texto é um soneto clássico: dois quartetos e dois tercetos. Nos quartetos, o eu lírico observa o pássaro de fora, quase como um cientista frio: ele é "escaveirado" (esquelético, decrépito) e "idiota", vive diante da natureza livre — "a atmosfera livre, o amplo éter belo", "a alga criptógama", "a úsnea", "o cogumelo" —, mas perdeu a "ânsia de alto voar". Até aqui, o poema apenas expõe a perda de liberdade física do animal; se a leitura parasse aqui, alternativas como "contraste entre natureza e civilização" pareceriam plausíveis.

Subpasso 4.2 — Localizar a virada de sentido nos tercetos

É nos tercetos que o soneto revela seu verdadeiro assunto. O verso "A gaiola aboliu tua vontade" fecha o retrato do pássaro, mas o verso seguinte — "Ah! Tu somente ainda és igual a mim" — muda abruptamente o foco: do pássaro para o próprio eu lírico. A palavra "somente" é decisiva: ela indica exclusividade — de tudo o que existe no mundo, apenas aquele pássaro decadente serve de espelho ao sujeito poético. Um eu lírico que só se reconhece em um animal engaiolado está confessando, por definição, uma solidão extrema em relação aos outros seres humanos.

Subpasso 4.3 — Verificar a leitura pelo dístico final

Os dois últimos versos confirmam essa interpretação com uma construção quase matemática: "Foi este mundo que me fez tão triste, / Foi a gaiola que te pôs assim!". Repare a simetria: "este mundo" faz com o eu lírico exatamente o que "a gaiola" faz com o pássaro — ambos são reduzidos, isolados e entristecidos por uma força externa da qual não podem escapar. Não há, em nenhum momento, um chamado à luta, uma menção a idade ou um tom de aceitação tranquila; há, sim, o reconhecimento de uma tristeza compartilhada e solitária. Logo, a imagem do pássaro enjaulado metaforiza o sofrimento provocado pela solidão do eu lírico — confirmando a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) sofrimento provocado pela solidão.

✅ Correta: o eu lírico só se reconhece no pássaro cativo ("Tu somente ainda és igual a mim") e atribui sua tristeza a uma força externa ("este mundo"), no mesmo movimento em que a gaiola molda o pássaro — um retrato direto de isolamento e sofrimento solitário compartilhado entre eu lírico e ave.

B) instinto de revolta perante as injustiças.

❌ Incorreta: não há qualquer sinal de revolta ou resistência no poema; ao contrário, o pássaro "pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo, / A gargalhada da última derrota" — imagem de rendição e derrota consumada, não de indignação ativa ou instinto de luta.

C) contraste entre natureza e civilização.

❌ Incorreta: embora o primeiro quarteto oponha a natureza livre (éter, alga, cogumelo) à prisão da gaiola, esse contraste é apenas o cenário de abertura do poema; o clímax nos tercetos desloca inteiramente o foco para a identificação emocional entre eu lírico e pássaro, não para uma crítica ao processo civilizatório em si.

D) declínio relacionado ao envelhecimento.

❌ Incorreta: o poema não traz nenhuma referência temporal a idade, maturidade ou processo de envelhecer; a expressão "última derrota" indica a finalidade da perda de liberdade (não há mais voltas), e não o avanço dos anos.

E) gesto de resignação ante as privações diárias.

❌ Incorreta: "privações diárias" sugere algo rotineiro, mundano e renovável (como a falta de comida a cada dia); o texto descreve uma privação total e definitiva ("Tu nunca mais verás a liberdade"), associada a uma tristeza existencial profunda e solitária — não a uma resignação prática diante de contratempos cotidianos.

🏆 Gabarito: A — a imagem do corrupião engaiolado metaforiza o sofrimento provocado pela solidão do eu lírico, que só encontra um igual em uma ave que, como ele, foi despojada da liberdade por uma força externa e implacável.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A capta o núcleo emocional do poema — a identificação solitária entre eu lírico e pássaro, selada pelo paralelismo final "este mundo / a gaiola".
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede a interpretação do efeito de sentido de uma metáfora central em poemas líricos; a resposta certa costuma estar concentrada nos versos finais, onde o eu lírico "fecha" a comparação que vinha construindo.
  • Generalização: sempre que um elemento externo (animal, objeto, paisagem) é comparado ao eu lírico por um verbo de igualdade ("és igual a mim", "somos iguais", "como eu"), a questão quase sempre pede o sentimento ou estado psicológico compartilhado — não a descrição literal desse elemento.
  • Dica de eliminação rápida: localize os últimos versos do poema — é ali, em regra, que o eu lírico explicita a comparação central; descarte alternativas com verbos de ação enérgica ("revolta") ou temas ausentes do texto (idade, cotidiano) sempre que o tom geral for de melancolia e passividade, como ocorre aqui.
  • Conexões: outros poemas de Augusto dos Anjos, como "Versos Íntimos" e "O Morcego", também usam animais ou imagens repulsivas como espelho do sofrimento humano; vale comparar com o Simbolismo, movimento anterior que igualmente explora estados de alma por meio de símbolos concretos.

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