Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2023 PPL
Quaresma despiu-se, lavou-se, enfiou a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando. Estava num aposento vasto, e todo ele era forrado de estantes de ferro. Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião. Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento Teixeira, da Prosopopeia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de muitos outros.
BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Mediafashion, 2008.
No texto, o uso do artigo definido anteposto aos nomes próprios dos escritores brasileiros
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Pré-Modernismo brasileiro (Lima Barreto) e recursos estilísticos do narrador
- ⚡ Nível: Difícil — exige separar a voz do narrador da voz do personagem e captar uma ironia sutil, sustentada por uma pista linguística discreta.
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido de recursos expressivos no texto literário — reconhecer como uma escolha linguística pontual (artigo definido antes de nome próprio) revela o ponto de vista crítico do narrador.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: “O que o uso de ‘o’ antes dos nomes dos escritores revela sobre a atitude de quem descreve a biblioteca de Policarpo?”
- Palavras-chave decisivas: artigo definido + nome próprio, “tidos como tais”, narrador (não o personagem)
- Armadilha típica: atribuir o efeito ao personagem, como se ele falasse com intimidade dos autores — mas o trecho é narração em 3ª pessoa: quem constrói esse efeito é o narrador, comentando o personagem de fora.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o artigo, somado à ressalva “ou tidos como tais”, cria distanciamento crítico do narrador diante do critério nacionalista e pouco criterioso da biblioteca.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Pré-Modernismo e Lima Barreto: movimento de transição (1902-1922) de forte crítica social; Lima Barreto ironiza os exageros da Primeira República, entre eles o nacionalismo inflamado e acrítico.
- “Triste Fim de Policarpo Quaresma”: narra um funcionário público de patriotismo hiperbólico; o romance satiriza esse nacionalismo, e o narrador vai sempre um passo à frente do personagem, sinalizando ao leitor os seus exageros.
- Artigo definido + nome próprio (“o Fulano”): construção coloquial/popular, não exigida pela norma culta; usada diante de nomes consagrados, produz rebaixamento — desnível proposital entre o peso literário dos autores e o modo displicente como são nomeados.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: “autores nacionais ou tidos como tais” → a ressalva relativiza e ironiza o critério de seleção: nem todos seriam, de fato, autores nacionais de mérito — alguns só “passam por” isso aos olhos indiscriminados do colecionador.
- Evidência 2: “o Bento Teixeira... o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo)” → o artigo repetido mecanicamente, sem hierarquia, coloca Alencar e Gonçalves Dias — cânones — ao lado de Macedo, autor menor, no mesmo plano, sugerindo catálogo movido por quantidade e “nacionalidade”, não por mérito estético.
- Síntese: o narrador descreve, com distanciamento e leve zombaria, uma coleção organizada por critério nacionalista raso — “ser brasileiro” basta para entrar na estante. É comentário do narrador sobre o personagem, não marca de fala ou de conhecimento de Policarpo.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar quem fala no trecho
O excerto é narração em 3ª pessoa (“Quaresma despiu-se, lavou-se... veio para a biblioteca”); não há discurso direto do personagem sobre os livros. O efeito de sentido ligado à nomeação dos autores é escolha do narrador, não marca de fala de Policarpo — o que já descarta leituras que atribuam o recurso ao personagem.
Subpasso 4.2 — Função do artigo somado a “tidos como tais”
O artigo “o” antes de nomes consagrados (Bento Teixeira, Alencar, Gonçalves Dias) é construção informal, incomum em comentário erudito sobre o cânone. Usada justamente para apresentar “grandes nomes”, cria contraste irônico: nomeia com displicência quase caseira autores que mereceriam tratamento reverente. Somada a “ou tidos como tais”, o narrador avisa que nem todo aquele acervo é, de fato, de autores nacionais — o efeito é o de um narrador que zomba, com fina ironia, do critério nacionalista automático que rege a biblioteca de Quaresma.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa correta precisa (i) atribuir o recurso ao narrador, não ao personagem; (ii) ler o efeito como depreciativo, não elogioso; e (iii) ancorar isso em evidência textual explícita. Só uma alternativa reúne os três critérios ao citar literalmente “tidos como tais” como reforço do tom depreciativo do narrador.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) demonstra a familiaridade e o conhecimento que o personagem tem dos autores nacionais e de suas obras.
❌ Incorreta: inverte o sujeito do recurso — quem nomeia os autores é o narrador, não o personagem; “tidos como tais” desmente a ideia de conhecimento seguro, pois questiona a legitimidade de chamá-los de “nacionais”.
B) consiste em um regionalismo que tem a função de caracterizar a fala pitoresca do personagem principal.
❌ Incorreta: o artigo antes de nome próprio é traço de oralidade geral da língua, não regionalismo; além disso, o trecho não reproduz fala de Policarpo — é narração, não diálogo.
C) é uma marca da linguagem culta cuja função é enfatizar o gosto do personagem pela literatura brasileira.
❌ Incorreta: contraria a norma — o artigo antes de nome próprio marca registro coloquial, não linguagem culta; a função do recurso é insinuar crítica, não elogiar o “gosto” do personagem.
D) constitui um recurso estilístico do narrador para mostrar que o personagem vem de uma classe social inferior.
❌ Incorreta: acerta o sujeito (o narrador), mas erra o alvo — Policarpo é funcionário público instruído, de posição social média; a passagem satiriza seu nacionalismo ingênuo, não sua origem social.
E) indica o tom depreciativo com o qual o narrador se refere aos autores nacionais, reforçado pela expressão “tidos como tais”.
✅ Correta: reúne os três elementos comprovados — sujeito (o narrador), recurso (artigo nivelando/rebaixando nomes consagrados) e reforço textual explícito (“tidos como tais”), produzindo tom depreciativo e irônico coerente com a sátira de Lima Barreto ao nacionalismo exagerado de Policarpo.
🏆 Gabarito: E — o artigo definido antes dos nomes, somado a “tidos como tais”, revela a ironia do narrador diante do critério nacionalista raso que organiza a biblioteca do personagem.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a E localiza corretamente o sujeito do julgamento (o narrador) e o efeito de sentido (depreciação/ironia), apoiada em evidência textual explícita.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra trechos de prosa em que é preciso distinguir a voz do narrador da do personagem, sobretudo em textos irônicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Aluísio Azevedo).
- Generalização: diante de um recurso linguístico em narração (não em fala/diálogo), pergunte “quem está falando aqui?” — em 3ª pessoa, o efeito pertence ao narrador, não ao personagem descrito.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que atribuam o recurso à “fala do personagem” sem discurso direto no trecho, e desconfie de opções elogiosas quando houver ressalva de dúvida como “tidos como tais”.
- Conexões: narrador irônico em Machado de Assis; nacionalismo literário do Pré-Modernismo (Os Sertões, de Euclides da Cunha).
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