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Mapa de questões · 1º dia
LinguagensPortuguêsDifícil

Questão 14ENEM 2023 PPL

Construindo uma irmandade da língua

A ideia de que a língua portuguesa é pertença de todos os seus falantes é hoje quase pacífica. Só meia dúzia de ultranacionalistas portugueses insiste ainda no disparate de se julgar proprietário exclusivo do idioma. Aliás, ao contrário da Commonwealth e da francofonia, a irmandade da língua portuguesa não tem um único centro ou voz dominante, e essa é precisamente uma das suas maiores virtudes.

AGUALUSA, J. E. O Globo, 8 maio 2021 (adaptado).

Nesse texto, o termo “Aliás” articula dois enunciados envolvidos numa mesma relação argumentativa, construindo, para o segundo, uma ideia de

Alternativas

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Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Coesão textual e operadores argumentativos (articulação lógico-semântica entre enunciados)
  • ⚡ Nível: Difícil — a alternativa correta exige inferir o referente implícito por trás de uma comparação explícita com outros dois blocos linguísticos, indo além da leitura literal do conectivo "Aliás"
  • 🎯 Tema/Habilidade: Função argumentativa dos operadores textuais na progressão do sentido (Competência de Área 1 — reconhecer recursos coesivos e seu papel na construção argumentativa)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que ideia o segundo enunciado — o que vem depois de 'Aliás' — constrói, dentro da relação argumentativa que mantém com o primeiro enunciado?"
  • Palavras-chave decisivas: Aliás, ao contrário da Commonwealth e da francofonia, não tem um único centro ou voz dominante
  • Armadilha típica: ler "Aliás" apenas como sinônimo de "além disso" e marcar a alternativa que fala em "acréscimo de fato comprobatório", sem perceber que a expressão "ao contrário de", logo depois dele, monta uma estrutura de COMPARAÇÃO por contraste — e que essa comparação, dado o assunto do texto, tem como par mais relevante as duas grandes vertentes nacionais do português.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar não apenas a classe do conectivo, mas o CONTEÚDO da relação lógica que ele instaura entre os dois enunciados.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Operadores argumentativos: palavras ou expressões que orientam a interpretação de um texto ao explicitar a relação lógica entre dois enunciados (adição, oposição, conclusão, comparação, retificação). Reconhecer o operador certo é reconhecer que tipo de raciocínio o autor propõe ao leitor.
  • "Aliás" com valor comparativo-argumentativo: embora costume introduzir um simples acréscimo, aqui ele prepara uma comparação explícita, marcada por "ao contrário de", usada para reforçar por diferença a tese do primeiro enunciado.
  • Contexto sociolinguístico do texto: Agualusa, escritor angolano-português, discute a "irmandade da língua portuguesa", expressão ligada à comunidade dos países de língua portuguesa. O eixo mais relevante dessa irmandade, por peso histórico e demográfico, é a relação entre Portugal (associado, no texto, aos "ultranacionalistas" que se dizem donos do idioma) e o Brasil (a maior comunidade de falantes do português no mundo).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Só meia dúzia de ultranacionalistas portugueses insiste ainda no disparate de se julgar proprietário exclusivo do idioma." → revela que o "alvo" da crítica do texto é a pretensão de Portugal — não do Brasil — de ser o centro exclusivo da língua; a tensão entre o polo europeu e as demais variantes já está armada antes do "Aliás".
  • Evidência 2: "Aliás, ao contrário da Commonwealth e da francofonia, a irmandade da língua portuguesa não tem um único centro ou voz dominante." → revela que o autor recorre a uma comparação com outros dois grandes blocos linguísticos justamente para demonstrar que, no português, nenhum polo nacional ocupa posição hierarquicamente superior a outro.
  • Síntese: o segundo enunciado não introduz um dado avulso; ele constrói, por comparação, a ideia de que a relação entre as duas grandes vertentes do português — a europeia e a brasileira — é de equivalência, diferentemente do que ocorre no mundo anglófono (centrado historicamente no Reino Unido) e francófono (centrado na França).

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar a relação lógica marcada por "Aliás"

No trecho, "Aliás" liga dois enunciados: (1) a crítica aos ultranacionalistas portugueses que se julgam donos exclusivos do idioma; (2) a afirmação de que a língua portuguesa, ao contrário da Commonwealth e da francofonia, não tem centro único. A expressão "ao contrário de", logo após "Aliás", é o marcador sintático que classifica essa relação como comparação por contraste — não como simples adição neutra de informação.

Subpasso 4.2 — Identificar o conteúdo comparado

A comparação de superfície envolve três sistemas linguísticos internacionais: o português, o inglês (Commonwealth) e o francês (francofonia). Apenas o português é descrito como isento de "centro único ou voz dominante". Como o primeiro enunciado já havia identificado Portugal como o polo que reivindica esse "centro" (os ultranacionalistas), a ausência de centro único no português só faz sentido argumentativo se houver, de fato, outro polo de peso equivalente dentro da própria língua — e esse polo é o Brasil, maior nação lusófona do mundo. É esse par (português europeu × português brasileiro) que a comparação evidencia como equivalente, sem hierarquia entre si.

Subpasso 4.3 — Verificação

Checando as cinco alternativas contra essa leitura: nenhuma cita literalmente "inglês" e "francês", o que já indica que a banca não quer o nível mais superficial da comparação, e sim o que ela representa dentro do universo da língua portuguesa. A única alternativa que preserva a ideia de COMPARAÇÃO (compatível com "ao contrário de") aplicada às duas vertentes nacionais do português é a alternativa D. As demais fogem do núcleo semântico "comparação" ou atribuem ao texto teses que ele não sustenta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) questionamento da origem da língua portuguesa.

❌ Incorreta: o texto não discute de onde vem a língua portuguesa (formação histórica, etimologia); discute quem pode reivindicar sua posse hoje. Questionar origem e questionar propriedade/centralidade são operações argumentativas diferentes, e o trecho após "Aliás" não remete a nenhuma origem.

B) semelhança de condições sociais dos falantes do português.

❌ Incorreta: o texto não trata de classe social, escolaridade ou condição socioeconômica dos falantes; trata da distribuição geopolítica do poder simbólico sobre o idioma. "Condições sociais" é um critério simplesmente ausente do trecho analisado.

C) acréscimo de fato comprobatório sobre a língua portuguesa.

❌ Incorreta: é a alternativa mais tentadora, porque "aliás" costuma mesmo introduzir um acréscimo. Mas ela é genérica demais — não especifica que TIPO de acréscimo ocorre. O enunciado após "Aliás" não é um dado solto que apenas "comprova" a tese anterior: ele é estruturado como uma comparação explícita ("ao contrário de"), isto é, constrói sentido por diferença entre sistemas linguísticos, não por mera confirmação factual.

D) comparação entre o português brasileiro e o europeu.

✅ Correta: "Aliás" introduz uma comparação por contraste que, ancorada na crítica anterior aos ultranacionalistas portugueses, tem como par argumentativamente relevante o português europeu (associado a Portugal, já questionado no primeiro enunciado) e o português brasileiro (a vertente majoritária, implícita na ideia de "irmandade" sem centro único). O segundo enunciado constrói exatamente essa ideia de equivalência entre as duas vertentes.

E) relevância do português sobre o inglês e o francês.

❌ Incorreta: o texto não hierarquiza línguas nem afirma que o português é "mais relevante" que o inglês ou o francês. A comparação serve para descrever uma diferença estrutural — centralização versus descentralização —, não para estabelecer superioridade de um idioma sobre outro.

🏆 Gabarito: D — "Aliás" introduz uma comparação por contraste que, ancorada na crítica anterior aos ultranacionalistas portugueses, constrói a ideia de equivalência entre o português europeu e o português brasileiro dentro de uma "irmandade" sem centro único.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que preserva o valor comparativo do trecho introduzido por "Aliás" (marcado pela expressão "ao contrário de") e o aplica ao par mais relevante do contexto argumentativo do texto: português europeu e português brasileiro.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente a função de operadores argumentativos (mas, porém, aliás, portanto, ou seja, além disso), pedindo que o candidato explique não apenas a classe gramatical do conectivo, mas o efeito de sentido que ele produz entre dois enunciados.
  • Generalização: sempre que um conectivo antecede uma estrutura do tipo "ao contrário de", "diferentemente de" ou "enquanto", desconfie de alternativas genéricas (como "acréscimo de informação") e priorize a alternativa que nomeia explicitamente uma relação de comparação ou contraste.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que trazem elementos ausentes do texto — origem da língua, condição social, superioridade entre idiomas (A, B, E); entre as duas remanescentes (C e D), escolha a que respeita a estrutura sintática do trecho (comparação), não a que apenas descreve genericamente uma função textual.
  • Conexões: operadores argumentativos e conectivos (mas, porém, contudo, aliás); coesão referencial e sequencial; textos sobre variação linguística e política da língua (útil também para questões de Sociolinguística).

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