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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaDifícil

Questão 48ENEM 2023 PPL

Estudiosos do Instituto de Antropologia Evolucionária de Leipzig, na Alemanha, colocaram um chimpanzé em um quarto com a visão de suculentos pedaços de comida trancados dentro de um armário. A um segundo chimpanzé era dada, então, a oportunidade de liberar a comida, porém, sem usufruir dela. Em aproximadamente 80% das vezes, eles tomaram a decisão mais caridosa e liberaram o alimento para o outro chimpanzé.

Estudos mostram caridade no mundo animal. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com. Acesso em: 17 out. 2021.

Considerando nossa relação com outros, o experimento envolvendo os chimpanzés ilustra qual tipo de comportamento moral humano?

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Ética normativa e metaética; teorias da ação moral (hedonismo, altruísmo, deontologia, retribuição)
  • ⚡ Nível: Difícil — a resposta correta exige distinguir hedonismo psicológico de altruísmo puro, indo além da leitura intuitiva do enunciado
  • 🎯 Tema/Habilidade: Comportamento moral humano e suas bases motivacionais — analisar, a partir de uma situação concreta, os fundamentos de diferentes teorias éticas
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual conceito ético explica, com mais precisão, o motivo pelo qual o chimpanzé liberou o alimento para o outro?"
  • Palavras-chave decisivas: liberaram o alimento, sem usufruir dela, decisão mais caridosa, aproximadamente 80% das vezes
  • Armadilha típica: ler "não come o alimento" como sinônimo de "não há ganho nenhum" e marcar direto "altruísta" — é a leitura mais confortável, mas conceitualmente incompleta.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que ausência de recompensa material não é o mesmo que ausência de recompensa psicológica — e que é justamente essa recompensa interna, subjetiva, que define o comportamento como hedonista.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Hedonismo (ético/psicológico): doutrina segundo a qual o prazer — não apenas o sensorial, mas também o emocional e subjetivo (satisfação, alívio, bem-estar) — é o motor de toda ação voluntária. Para o hedonismo psicológico, até atos aparentemente generosos são, no fundo, buscas por um estado interno mais agradável para quem age.
  • Altruísmo: termo cunhado por Auguste Comte, em oposição a "egoísmo", para designar a ação motivada exclusivamente pelo bem do outro, sem qualquer retorno para quem age — nem material, nem emocional. É o padrão mais exigente de desinteresse moral.
  • Comportamento retributivo: lógica de troca — ajudo porque recebi ou para receber depois; pressupõe reciprocidade explícita entre as partes.
  • Ética deontológica (Kant): a ação moral vale pelo cumprimento de um dever formal e universalizável, independente de inclinação ou consequência; exige autonomia racional do agente.
  • Meritocracia moral: distribuição de um benefício de acordo com o merecimento demonstrado previamente por quem o recebe.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "a oportunidade de liberar a comida, porém, sem usufruir dela" → o chimpanzé que ajuda não obtém ganho material (não come o alimento); isso descarta leituras retributivas e meritocráticas, mas não descarta, por si só, um ganho psicológico.
  • Evidência 2: "em aproximadamente 80% das vezes" → o comportamento é recorrente, mas não universal nem fixo (não é 100%) — padrão típico de resposta ligada a um estado emocional variável, e não de cumprimento de um dever formal e incondicional.
  • Evidência 3: "tomaram a decisão mais caridosa" → o texto já nomeia a ação como fruto de uma escolha, sugerindo deliberação movida por disposição interna do agente, não por imposição externa.
  • Síntese: o experimento mostra ausência de recompensa alimentar, comportamento repetido (mas não obrigatório) e uma escolha qualificada como "caridosa" — pistas que apontam para uma recompensa subjetiva (prazer, alívio, satisfação) como verdadeiro motor da ação, e não para o desinteresse total exigido pelo altruísmo em sentido estrito.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Eliminar o que o experimento claramente NÃO mostra

Não há troca entre os dois chimpanzés (o beneficiado nada devolve ao que libera o alimento) → isso elimina a leitura retributiva. Não há linguagem de "regra" ou "dever" — é uma escolha probabilística (80%), não uma norma seguida em 100% dos casos → isso enfraquece fortemente a leitura deontológica. Não há avaliação de mérito do chimpanzé trancado, que recebe o alimento independentemente de qualquer desempenho → isso elimina a leitura meritocrática. Restam, portanto, apenas duas alternativas plausíveis: A (hedonista) e B (altruísta) — e é exatamente aí que a questão testa a precisão conceitual do candidato.

Subpasso 4.2 — Distinguir hedonismo de altruísmo com rigor

A diferença entre A e B não está em "há ganho material?" (não há, em nenhuma das duas leituras), mas em "há absolutamente qualquer ganho para quem age?". O altruísmo, na definição forte usada pela Filosofia desde Comte, exige ausência total de retorno — inclusive emocional: é o desinteresse radical. Já o hedonismo psicológico sustenta que toda ação voluntária busca prazer, e esse prazer pode ser puramente subjetivo — alívio da angústia de ver o outro impedido de comer, satisfação de "fazer o bem", reforço do vínculo social. A psicologia social descreve esse debate através de duas hipóteses concorrentes: a hipótese da empatia-altruísmo (Batson), que defende motivação genuinamente desinteressada, e o modelo do alívio do estado negativo (Cialdini), que argumenta que ajudar o outro serve, antes de tudo, para aliviar o próprio desconforto de quem observa a necessidade alheia — um ganho interno, portanto hedonista. Estudos de neurociência (como os de Jorge Moll e colaboradores, no NIH) mostram ainda que atos de generosidade ativam os mesmos circuitos de recompensa — a via mesolímbica de dopamina — acionados por prazeres diretos: é o chamado "helper's high". A taxa de 80%, e não 100%, reforça essa leitura: trata-se de resposta a um estado interno variável (mais ou menos incômodo, mais ou menos prazeroso), não de uma regra moral fixa e universal.

Subpasso 4.3 — Verificação

Se o comportamento fosse altruísmo puro, o enunciado não precisaria destacar que se trata de uma "decisão" nem informar a taxa de recorrência — bastaria constatar a ausência de benefício material. O fato de a ação ser variável, deliberada e qualificada como "caridosa" (um juízo de valor associado a reconhecimento e bem-estar) confirma a leitura hedonista: o chimpanzé busca o prazer pessoal de um estado interno mais satisfatório, mesmo sem tocar no alimento. Resultado confirmado: alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) Hedonista, anseia o prazer pessoal.

✅ Correta: o chimpanzé não obtém alimento, mas a repetição do comportamento (80%, não 100%) e sua descrição como "decisão mais caridosa" indicam busca por um estado interno mais agradável — alívio, satisfação, bem-estar subjetivo. O hedonismo psicológico não exige prazer sensorial: basta que a ação vise ao próprio bem-estar emocional de quem a pratica, e é isso que o experimento sugere ao mostrar uma escolha reiterada, porém não universal.

B) Altruísta, promove o bem-estar imparcial.

❌ Incorreta: é a leitura mais intuitiva, mas conceitualmente incompleta. O altruísmo genuíno pressupõe ausência total de retorno para quem age, inclusive emocional — um desinteresse radical incompatível com uma ação que produz, no próprio agente, alívio ou satisfação. Chamar o comportamento de "imparcial" ignora que ele nasce de um estado afetivo do próprio chimpanzé que ajuda, não de uma neutralidade desinteressada.

C) Retributivo, busca um retorno equivalente.

❌ Incorreta: retribuição pressupõe troca ou reciprocidade explícita entre as partes (dou porque recebi, ou para receber depois). O enunciado não menciona qualquer devolução por parte do chimpanzé beneficiado — a relação descrita é unidirecional, o que descarta a lógica de equivalência.

D) Deontológico, cumpre uma obrigação formal.

❌ Incorreta: o comportamento deontológico segue uma regra universal e incondicional, cumprida por dever, independentemente da inclinação do agente. Um índice de 80% — e não 100% — mostra justamente o oposto de uma norma seguida por obrigação formal: é uma resposta variável, ligada a disposição interna, não a um imperativo categórico.

E) Meritocrático, valoriza o merecimento individual.

❌ Incorreta: a meritocracia condiciona o benefício a algum desempenho ou mérito prévio de quem o recebe. No experimento, o chimpanzé trancado não faz nada para "merecer" a liberação do alimento — ele apenas ocupa a posição de receptor, o que torna essa leitura incompatível com os dados descritos.

🏆 Gabarito: A — o experimento evidencia um comportamento hedonista porque a ausência de ganho alimentar não elimina a busca por um ganho subjetivo (satisfação, alívio, prazer emocional), o que explica por que a "generosidade" ocorre com alta frequência, mas não como regra absoluta.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A resiste à checagem dos quatro elementos do experimento (ausência de troca, ausência de regra fixa, ausência de critério de mérito e presença de recorrência variável ligada a estado interno) — as demais falham em pelo menos um desses testes.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma usar experimentos com animais (chimpanzés, primatas em geral) para discutir as bases biológicas e psicológicas da moralidade humana, cruzando Filosofia com Biologia evolutiva e Psicologia social — é um recorte típico de humanidades interdisciplinares.
  • Generalização: sempre que uma questão de ética opuser "hedonismo" a "altruísmo", verifique se o enunciado permite excluir com certeza qualquer ganho subjetivo/emocional do agente. Só nesse caso o altruísmo se sustenta; havendo sinais de recompensa interna (recorrência variável, linguagem de "escolha", satisfação), o hedonismo psicológico costuma ser a leitura mais rigorosa.
  • Dica de eliminação rápida: procure por marcas textuais de troca ("retribuição" exige reciprocidade explícita), de regra fixa ("dever" exige universalidade, normalmente próxima de 100% dos casos) e de desempenho prévio ("mérito" exige critério de julgamento sobre quem recebe o benefício). Se nenhuma dessas marcas aparecer, a disputa real fica entre prazer próprio (hedonismo) e desinteresse total (altruísmo).
  • Conexões: hipótese da empatia-altruísmo (Batson) x modelo do alívio do estado negativo (Cialdini); primatologia de Frans de Waal sobre empatia e moralidade evolutiva; hedonismo de Epicuro e sua releitura no utilitarismo de Bentham e Mill.

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