Mapa de questões · 1º dia
Questão 86 — ENEM 2023 PPL
TEXTO I
Aquarela do Brasil
Brasil!
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Pra mim! Pra mim, pra mim
BARROSO, A. Rio de Janeiro: Odeon, 1939 (fragmento).
TEXTO II
Menestrel das Alagoas
Quem é esse que conhece
Alagoas e Gerais
E fala a língua do povo
Como ninguém fala mais?
Quem é esse?
De quem é essa ira santa
Essa saúde civil
Que tocando a ferida
Redescobre o Brasil?
Quem é esse peregrino
Que caminha sem parar
Quem é esse meu poeta
Que ninguém pode calar?
NASCIMENTO, M.; BRANT, F. Milton Nascimento ao vivo. São Paulo: Barclay, 1983 (fragmento).
Os trechos pertencem a canções que se tornaram emblemáticas, respectivamente, dos seguintes fatos históricos:
Alternativas
Resolução em Vídeo
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: História → a canção como documento histórico; Era Vargas e nacionalismo (samba-exaltação); Redemocratização e campanha das Diretas Já
- ⚡ Nível: Difícil — exige datar duas canções pelo ano de composição/gravação e reconhecer uma referência histórica indireta (o apelido de uma figura política), e não apenas "sentir" o clima da letra
- 🎯 Tema/Habilidade: Música como fonte histórica — relacionar produções culturais a seus contextos de produção (leitura de documentos não escritos e situação no tempo)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Descubra a qual processo histórico brasileiro cada uma das duas canções — Texto I e, depois, Texto II — ficou associada, na mesma ordem em que aparecem."
- Palavras-chave decisivas: "respectivamente", "canções que se tornaram emblemáticas", "fatos históricos"
- Armadilha típica: julgar as canções só pelo "clima" da letra — achar que qualquer samba de exaltação é "genérico" e pode ser de qualquer época, ou que a expressão "ira santa" do Texto II soa tão combativa que "deve" ser sobre luta armada. Quem cai nessa armadilha ignora a informação mais objetiva do enunciado: a referência bibliográfica com o ano de cada gravação.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de datar cada canção pelo crédito (1939 e 1983), identificar o contexto histórico em que cada uma foi produzida e eliminar alternativas cujas datas não fecham com nenhum dos dois períodos.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Era Vargas e o samba-exaltação (1930-1945): durante o Estado Novo (1937-1945), o governo Vargas usou o rádio e a cultura popular — sobretudo por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) — para construir uma identidade nacional oficial, otimista e conciliadora. Surge assim o "samba-exaltação", subgênero que celebra a natureza, o povo e a grandeza do Brasil. "Aquarela do Brasil" (1939), de Ary Barroso, é o marco fundador e mais célebre desse estilo.
- Teotônio Vilela, o "Menestrel das Alagoas": senador alagoano eleito pela Arena (partido de sustentação do regime militar), Vilela rompeu com o governo, tornou-se voz destacada da campanha pela Lei da Anistia (1979) e, já doente de câncer, viajou o país pregando a redemocratização até morrer em maio de 1983. Ficou conhecido como "menestrel" por circular como um trovador, cantando a esperança democrática — daí o título e os versos "peregrino que caminha sem parar" e "ira santa".
- Diretas Já (1983-1984): movimento de mobilização popular pela aprovação da Emenda Constitucional Dante de Oliveira, que restabeleceria eleições diretas para presidente. Teve comícios multitudinários e trilha sonora própria — "Coração de Estudante" (Milton Nascimento/Fernando Brant) e "O Menestrel das Alagoas" (1983) tornaram-se hinos dessa mobilização, esta última já composta como homenagem póstuma a Vilela.
- Contraponto necessário (períodos das alternativas erradas): a Política dos Governadores vigorou de 1898 a 1930 (acordo café-com-leite entre oligarquias estaduais, encerrado pela Revolução de 1930); a luta armada contra a ditadura (ALN, MR-8, Guerrilha do Araguaia) concentrou-se entre 1968 e meados dos anos 1970, sendo praticamente desarticulada pela repressão até 1974-1975 — quase uma década antes de 1983.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "BARROSO, A. Rio de Janeiro: Odeon, 1939" → a canção foi gravada em 1939, no auge do Estado Novo, época de forte propaganda nacionalista oficial — não em 1930 ou antes, quando vigorava a Política dos Governadores.
- Evidência 2: "NASCIMENTO, M.; BRANT, F. ... 1983" somado ao título "Menestrel das Alagoas" → remete diretamente a Teotônio Vilela e ao clímax da campanha das Diretas Já, e não ao período de luta armada, já encerrado quase dez anos antes.
- Síntese: as datas de composição (1939 e 1983) e o conteúdo textual — exaltação da terra e do povo no Texto I; homenagem a um militante da redemocratização que "redescobre o Brasil" no Texto II — apontam com precisão para a euforia nacionalista da Era Vargas e para a mobilização das Diretas Já, respectivamente.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Datando e contextualizando o Texto I
"Aquarela do Brasil" nasce em 1939, dentro do projeto de construção de identidade nacional do Estado Novo. Versos como "Brasil, meu Brasil brasileiro" e "terra de Nosso Senhor" traduzem exatamente o tom eufórico e conciliador que a Era Vargas queria projetar sobre o país: um Brasil mestiço, musical, abençoado e unido em torno do Estado. Não há, nesse ano, qualquer relação com a Política dos Governadores (encerrada em 1930), com o alinhamento ao Ocidente na Guerra Fria (que só faz sentido após 1945) ou com o milagre econômico (1969-1973). Texto I conecta-se, portanto, à euforia social da Era Vargas.
Subpasso 4.2 — Datando e contextualizando o Texto II
"Menestrel das Alagoas" é de 1983 e presta uma homenagem explícita a Teotônio Vilela, figura central da luta pela redemocratização, falecido naquele mesmo ano em plena campanha das Diretas Já. Os versos "quem é esse peregrino / que caminha sem parar" descrevem literalmente as viagens de Vilela pelo país, já debilitado pela doença, defendendo eleições diretas; "ira santa" e "essa saúde civil" traduzem sua indignação legítima diante dos abusos da ditadura. Em 1983, a luta armada já havia sido esmagada havia quase dez anos — o que está em curso é a mobilização de massas pelas Diretas Já. Texto II conecta-se, portanto, à mobilização em torno da campanha pelas Diretas Já.
Subpasso 4.3 — Verificação cruzada com as alternativas
Buscando a alternativa que combine simultaneamente "Era Vargas" (1939) e "Diretas Já" (1983), chega-se à alternativa C. Testando as datas contra as demais opções, nenhuma outra combinação fecha com os dois anos-fonte ao mesmo tempo — confirmando C como a única leitura cronologicamente consistente.
🏆 Gabarito: C — "Aquarela do Brasil" (1939) representa a euforia nacionalista construída pela Era Vargas, e "Menestrel das Alagoas" (1983), homenagem a Teotônio Vilela, é hino da mobilização pelas Diretas Já; nenhuma outra alternativa faz as datas e os contextos das duas canções coincidirem.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) O desenvolvimento econômico dos anos JK e a crise inflacionária da Nova República.
❌ Incorreta: o governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) é posterior a 1939 e não tem relação com "Aquarela do Brasil"; a crise inflacionária da Nova República (a partir de 1985) também é posterior à morte de Vilela em 1983 — nenhuma das duas datas-fonte bate.
B) A expansão do PIB no milagre econômico e o confisco financeiro do início dos anos 1990.
❌ Incorreta: o milagre econômico (1969-1973) fica trinta anos depois da gravação de "Aquarela do Brasil" (1939); o confisco de poupança do Plano Collor (1990) é posterior à composição de "Menestrel das Alagoas" (1983) e à própria morte de Teotônio Vilela.
C) A euforia social da Era Vargas e a mobilização em torno da campanha pelas Diretas Já.
✅ Correta: "Aquarela do Brasil" (1939) é o símbolo maior do samba-exaltação que traduziu a euforia nacionalista fomentada pelo Estado Novo; "Menestrel das Alagoas" (1983), em homenagem a Teotônio Vilela, tornou-se hino da campanha pelas Diretas Já — as duas datas e os dois contextos se encaixam perfeitamente, na ordem pedida pelo enunciado.
D) O alinhamento ao Ocidente na Guerra Fria e as reformas liberalizantes do fim do século XX.
❌ Incorreta: o alinhamento explícito ao bloco ocidental se consolida sobretudo após 1945 (Guerra Fria), não em 1939; as reformas liberalizantes (privatizações, abertura comercial) concentram-se nos anos 1990, período posterior à composição de "Menestrel das Alagoas".
E) A consolidação da política dos governadores e a luta armada contra o Regime Militar.
❌ Incorreta: a política dos governadores vigorou de 1898 a 1930 e foi encerrada pela Revolução de 1930 — nove anos antes de "Aquarela do Brasil" ser gravada (1939), o que torna a associação cronologicamente impossível; a luta armada contra a ditadura concentrou-se entre 1968 e meados da década de 1970, estando praticamente desarticulada quase dez anos antes de 1983, ano de "Menestrel das Alagoas" — que na verdade celebra a via pacífica e institucional das Diretas Já, não a luta armada.
🏆 Gabarito: C — a única alternativa em que os dois fatos históricos coincidem, na ordem certa, com as datas de composição e o conteúdo das duas canções.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa em que ambos os marcos históricos — Era Vargas e Diretas Já — se encaixam ao mesmo tempo nas datas (1939 e 1983) e no conteúdo das canções apresentadas.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorre com frequência a canções (Ary Barroso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, entre outros) como "documentos" para testar se o estudante sabe situar uma obra cultural no tempo e relacioná-la ao seu contexto de produção — e não apenas interpretar a letra isoladamente.
- Generalização: em questões de "canção como fonte histórica", o primeiro passo é sempre localizar a data de composição/gravação na referência bibliográfica e comparar com os períodos oferecidos nas alternativas; quem não bate cronologicamente pode ser eliminado de imediato, mesmo que o "tom" da letra pareça combinar.
- Dica de eliminação rápida: grife os anos 1939 e 1983 assim que os vir nos créditos dos textos. Qualquer alternativa cujo primeiro processo histórico seja posterior a 1939 (elimina A, pois JK é de 1956) ou anterior a ele (elimina E, pois a política dos governadores acabou em 1930) já pode ser descartada; o mesmo vale para o segundo processo em relação a 1983 (elimina B e D, ambos ligados aos anos 1990).
- Conexões: samba-exaltação e propaganda do Estado Novo (DIP); Lei da Anistia de 1979 e Emenda Dante de Oliveira (1984) no processo de redemocratização.
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