Mapa de questões · 1º dia
Questão 11 — ENEM 2023 PPL
A solidão nas cidades grandes é muito mais um sinal da precariedade do sentido da comunidade e da convivência, é mais um problema sociocultural do que de escolha individual.
Certamente ela reflete a impossibilidade de retornar às florestas, como um dia fez Henry Thoreau. As florestas estão em extinção, assim como, curiosamente, a ideia de humanidade. Resta fugir para a moderna caverna na selva de pedra — sem querer reeditar lugares-comuns — que é a casa de cada um.
A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.
A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos.
TIBURI, M. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br. Acesso em: 7 out. 2011.
Marcia Tiburi trata de um tema relevante para a sociedade moderna: a convivência interpessoal e a hiperconectividade vivenciada no ciberespaço. O texto classifica-se, quanto ao gênero textual, como artigo de opinião, porque
Alternativas
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Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação textual; Gêneros textuais (artigo de opinião)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está no vocabulário, mas em distinguir "informação verdadeira sobre o texto" de "razão que define o gênero", resistindo à tentação de literalizar as metáforas do texto.
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento do gênero textual argumentativo-opinativo a partir da identificação da tese defendida pela autora (Competência de Área 1 de Linguagens: reconhecer gêneros, suportes e funções sociocomunicativas dos textos).
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que, no texto de Marcia Tiburi, justifica classificá-lo como artigo de opinião?"
- Palavras-chave decisivas: classifica-se, gênero textual, artigo de opinião, porque
- Armadilha típica: confundir "trecho verdadeiro extraído do texto" com "razão que explica o gênero". Várias alternativas usam palavras que aparecem no texto (caverna, antipolítica, solidão), mas distorcem a relação lógica entre elas.
- O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa certa precisa, ao mesmo tempo, (1) ser fiel ao conteúdo do texto e (2) apontar o traço que define o artigo de opinião — a exposição explícita de um ponto de vista autoral sobre um tema atual e controverso.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Artigo de opinião: gênero jornalístico-argumentativo em que um autor identificado — aqui, Marcia Tiburi, filósofa e colunista, publicando na Revista Cult — expõe e sustenta, de forma explícita e subjetiva, uma tese sobre tema atual e relevante, articulando afirmação e argumentação com finalidade persuasiva.
- Marcas linguísticas do gênero: modalizadores de certeza ("Certamente ela reflete..."), juízos de valor ("mercadorias baratas", "fetiche"), neologismos críticos ("sociedade da antipolítica") e recursos retóricos (metáfora, intertextualidade) — traços ausentes de gêneros informativos neutros, como a notícia.
- Metáfora x explicação literal: a "moderna caverna na selva de pedra" e a referência a Henry Thoreau são recursos figurativos de persuasão, não comparações antropológicas literais. Reconhecer essa diferença evita cair em armadilhas de leitura.
- Tese central do texto: a solidão contemporânea é um problema sociocultural (não uma escolha individual), e o mal-estar que a sociedade projeta sobre a solidão decorre, na verdade, do "fetiche da hiperconectividade" — a ilusão tecnológica de companhia permanente.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "é mais um problema sociocultural do que de escolha individual" → já na abertura, a autora assume um diagnóstico avaliativo, não uma descrição neutra — primeira marca do texto opinativo.
- Evidência 2: "A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos" → frase de fechamento, que condensa a tese: o mal-estar atribuído à solidão é, na realidade, efeito da hiperconectividade.
- Síntese: do diagnóstico inicial (solidão = problema sociocultural) ao fechamento (hiperconectividade como causa do mal-estar), o texto constrói uma argumentação progressiva em defesa de um ponto de vista autoral — exatamente o comportamento que define o artigo de opinião.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o comportamento enunciativo do texto
Um texto se classifica por gênero não apenas pelo tema, mas por COMO o autor se posiciona diante dele. Tiburi não relata fatos de forma imparcial (o que caracterizaria uma notícia) nem testa hipóteses com dados (o que caracterizaria um texto científico): ela avalia, qualifica e defende uma leitura pessoal da realidade. Expressões como "muito mais um sinal", "certamente" e "curiosamente" marcam um enunciador presente, subjetivo, que conduz o leitor até sua própria conclusão. Autoria assumida somada a avaliação explícita é a primeira condição para reconhecer o artigo de opinião.
Subpasso 4.2 — Localizar a tese e testar a cadeia argumentativa
A pergunta pede o "porquê" da classificação, então a alternativa certa precisa nomear o CONTEÚDO da tese defendida, não apenas repetir palavras do texto. Reconstituindo a lógica argumentativa: (a) a solidão é tratada pela sociedade como mal-estar e pena; (b) essa sociedade — chamada por Tiburi de "antipolítica" — evita encarar o problema real; (c) o problema real é o fetiche da hiperconectividade, que cria a ilusão de companhia constante. Logo, a tese final é: o mal-estar da sociedade contemporânea decorre da hiperconectividade.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa tese reconstruída com as cinco alternativas, apenas uma reproduz fielmente o conteúdo e a estrutura compatível com o gênero opinativo — apresentar uma tese causal e defendê-la abertamente. As demais atribuem ao texto uma função que ele não exerce (resolver, definir cientificamente) ou distorcem elementos figurativos e lógicos do texto (a metáfora da caverna, o sujeito da preservação da intimidade). Resultado confirmado: gabarito D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) busca resolver a causa da perda de sentido ocorrida na convivência interpessoal.
❌ Incorreta: erro de função textual. O artigo de opinião defende uma tese, mas não tem como finalidade "resolver" o problema que denuncia — Tiburi diagnostica e critica, não propõe solução prática. Atribuir ao texto uma função resolutiva é confundi-lo com um gênero prescritivo (manual, proposta de intervenção), o que ele não é.
B) procura definir a solidão como uma epidemia que está além das doenças humanas.
❌ Incorreta: distorção de conteúdo. Em nenhum momento o texto usa os termos "epidemia" ou "doença" — a alternativa importa um discurso contemporâneo sobre "epidemia da solidão" que não está no texto de Tiburi, cuja abordagem é sociocultural e política, não médica.
C) tenta explicar o comportamento do homem contemporâneo tendo como padrão o homem das cavernas.
❌ Incorreta: literalização de metáfora. A "moderna caverna na selva de pedra" é imagem figurada para a casa isolada dentro da cidade ("selva de pedra"), não uma comparação histórico-antropológica com o homem pré-histórico. Tomar a metáfora ao pé da letra transforma um recurso estilístico em conteúdo literal que o texto não sustenta.
D) objetiva expressar o ponto de vista de que o mal-estar provocado na sociedade decorre da hiperconectividade.
✅ Correta: reproduz com fidelidade a tese defendida no fechamento do texto ("o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos") e nomeia exatamente o traço que define o gênero — a defesa explícita de um ponto de vista autoral sobre um tema atual e relevante.
E) procura discutir os desejos dos antipolíticos que destroem a intimidade na tentativa de preservar a subjetividade.
❌ Incorreta: inversão lógica de sujeito. No texto, é a própria solidão — não "os antipolíticos" — que tenta preservar subjetividade e intimidade ("Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade..."). A alternativa troca o sujeito da ação e cria uma relação de causa e efeito inexistente no texto original.
🏆 Gabarito: D — o texto se classifica como artigo de opinião porque expressa, de forma argumentada e explícita, o ponto de vista de Marcia Tiburi de que o mal-estar social atribuído à solidão decorre, na verdade, do fetiche da hiperconectividade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: D é a única alternativa que une fidelidade ao conteúdo do texto e correspondência com a função definidora do gênero opinativo — expressar e defender um ponto de vista sobre um tema atual.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência a classificação de gêneros textuais (artigo de opinião, notícia, editorial, crônica, resenha), sempre pedindo o "porquê" — e a resposta certa nomeia a função comunicativa do texto, não apenas repete um trecho de conteúdo.
- Generalização: em questões de gênero textual com "porque", elimine alternativas que descrevem uma ação que o texto não realiza (resolver, definir cientificamente, narrar de forma neutra) e desconfie de alternativas que parecem "quase certas" mas invertem o sujeito ou a causa do que está escrito.
- Dica de eliminação rápida: primeiro corte alternativas com termos ausentes do texto (B: "epidemia"); depois corte metáforas tomadas ao pé da letra (C: "homem das cavernas"); por fim, confira se o sujeito da frase bate com o sujeito do texto (E troca "solidão" por "antipolíticos").
- Conexões: gêneros jornalístico-argumentativos (editorial, crônica, resenha crítica); intertextualidade e alusão literária (Thoreau); crítica da hiperconectividade e da cultura digital contemporânea.
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