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Mapa de questões · 1º dia
HumanasFilosofiaMédio

Questão 58ENEM 2023 PPL

TEXTO I

O dispositivo panóptico organiza unidades espaciais que permitem ver sem parar e reconhecer imediatamente. Em suma, o princípio da masmorra é invertido; ou antes, de suas três funções — trancar, privar de luz e esconder — só se conserva a primeira e suprimem-se as outras duas. A visibilidade é uma armadilha. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu exercício; que esse aparelho arquitetural seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987 (adaptado).

TEXTO II

LAERTE. Disponível em: www.laerte.art.br. Acesso em: 25 nov. 2021.

O objetivo do modelo de vigilância descrito nos textos I e II aponta para o(a)

Alternativas

Resolução em Vídeo

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Filosofia → Michel Foucault, sociedade disciplinar e dispositivos de vigilância; leitura comparada de texto teórico e charge
  • ⚡ Nível: Médio — o conceito de panóptico é conhecido, mas a questão só fecha se o candidato cruzar o texto teórico de Foucault com o que a tirinha de Laerte acrescenta a ele, e não apenas repetir a definição "de manual" do panoptismo
  • 🎯 Tema/Habilidade: Dispositivos de poder e controle social na sociedade contemporânea; leitura integrada de linguagem verbal (texto filosófico) e não verbal (charge/tirinha)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que o modelo de vigilância apresentado por Foucault e ironizado na tirinha de Laerte revela sobre o efeito real desse tipo de dispositivo de poder?"
  • Palavras-chave decisivas: "a visibilidade é uma armadilha", "vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação", "E se eu também ficasse te vigiando?"
  • Armadilha típica: parar a leitura no Texto I isoladamente e marcar de imediato a definição clássica de panóptico (a sensação de estar sempre sendo observado), ignorando o que a cena da tirinha faz com esse conceito ao colocar a vigiada respondendo à câmera e confrontando-a.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de articular os dois textos como um conjunto único — o comando pede o objetivo do modelo "descrito nos textos I e II", não apenas o que Foucault escreveu em Vigiar e Punir.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Panoptismo: dispositivo arquitetônico pensado por Bentham e analisado por Foucault em que uma torre central permite ver todas as celas sem ser vista, invertendo a lógica da masmorra (que trancava, escondia e privava de luz) para uma lógica de exposição total e contínua.
  • Poder relacional e difuso: para Foucault, o panóptico não depende de quem ocupa a torre — o mecanismo "sustenta uma relação de poder independente daquele que o exerce". O poder circula na própria estrutura, não pertence a uma pessoa.
  • Charge/tirinha como crítica visual: ao dar voz e reação à câmera (vigilante) e à mulher (vigiada), Laerte transforma o dispositivo mudo e assimétrico de Foucault em uma cena de diálogo, em que ambos os lados falam, acusam e se posicionam sobre o mesmo episódio.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "que esse aparelho arquitetural seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce" → mostra que o dispositivo de vigilância não é um confronto pontual entre duas pessoas, mas uma estrutura que continua funcionando e gerando efeitos mesmo quando os papéis se invertem ou se multiplicam.
  • Evidência 2: na tirinha, a mulher pergunta "E se eu também ficasse te vigiando?" e a câmera responde "Pode ficar" → o dispositivo, ao ser questionado, não impede que o vigiado também vigie; ele permite a inversão do olhar.
  • Evidência 3: no último quadro, a mulher aponta e afirma "Tava fumando!", e a câmera nega repetidas vezes: "Tava nada, tava nada" → a cena termina não em silêncio disciplinado, mas em duas versões divergentes sobre o mesmo fato, cada lado sustentando sua própria opinião.
  • Síntese: juntando as três evidências, o que os textos I e II descrevem, em conjunto, não é apenas "alguém sendo observado em silêncio", mas um dispositivo que, ao se generalizar e ser posto à prova, produz um jogo de olhares e falas cruzadas — cada parte vigiando e opinando sobre a outra.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — O modelo teórico do Texto I

Foucault descreve o panóptico como um dispositivo que inverte a lógica da prisão tradicional: em vez de esconder o preso na escuridão, ele o expõe permanentemente à possibilidade de ser visto. A eficácia do modelo está em tornar "inútil a atualidade" do exercício do poder — não é preciso vigiar o tempo todo, basta que a vigilância seja incerta e potencialmente permanente. Até aqui, isoladamente, o texto sustenta a ideia de que o efeito buscado é a interiorização da sensação de ser observado.

Subpasso 4.2 — A virada proposta pelo Texto II

A tirinha de Laerte não ilustra passivamente esse conceito: ela o testa. No primeiro quadro, a personagem pergunta diretamente à câmera se pode vigiá-la de volta, e obtém permissão ("Pode ficar"). Isso já desloca o modelo: se o dispositivo "sustenta uma relação de poder independente de quem o exerce", então qualquer um pode ocupar a posição de observador — inclusive quem antes era só observado. No último quadro, essa inversão se completa: a mulher acusa a câmera de estar "fumando" (ou seja, de ter falhado em vigiar, de ter se distraído) e a câmera nega. O resultado não é obediência silenciosa nem punição — é um confronto de versões, de opiniões diferentes sobre o mesmo episódio.

Subpasso 4.3 — Verificação

Se o objetivo do modelo, lido nos dois textos juntos, fosse simplesmente gerar uma sensação individual de estar sendo observado, a tirinha não precisaria mostrar a câmera sendo confrontada, questionada e contestada. O fato de a charge terminar em um "ele disse, ela disse" — cada lado com sua própria opinião sobre o ocorrido — é o elemento que os dois textos, somados, apontam como resultado do modelo: uma estrutura de vigilância generalizada acaba colocando vigilante e vigiado em posição de trocar (divergentes) opiniões sobre o que aconteceu. Essa leitura integrada é o que sustenta a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) intercâmbio de opinião diversa.

✅ Correta: é o que a tirinha dramatiza ao dar voz aos dois lados do dispositivo. Quando o modelo de vigilância se generaliza — a ponto de o vigiado também vigiar e questionar o vigilante —, o resultado registrado no último quadro é justamente um confronto de opiniões diferentes ("tava fumando" vs. "tava nada, tava nada"), e não mais um monólogo silencioso de poder.

B) desenvolvimento de sujeito crítico.

❌ Incorreta: o panóptico, tal como descrito por Foucault, não tem como finalidade formar sujeitos autônomos capazes de julgamento independente — ao contrário, ele busca automatizar o controle a ponto de dispensar a reflexão do vigiado sobre a própria conduta. A tirinha mostra reação e confronto, não desenvolvimento de senso crítico como projeto do dispositivo.

C) sentimento de observação constante.

❌ Incorreta nesta questão: reproduz apenas a definição textual do Texto I isolado (o efeito clássico do panóptico), mas ignora o que o Texto II acrescenta à leitura. A cena de Laerte não termina em alguém apenas "se sentindo vigiado" — termina em um embate de falas e opiniões contrárias, o que exige uma resposta que dê conta dos dois textos conjuntamente, não só do conceito teórico isolado.

D) movimento de revolta individual.

❌ Incorreta: a personagem não se rebela contra o dispositivo nem tenta destruí-lo ou escapar dele — ela dialoga com a câmera, pede permissão para vigiar de volta e depois debate o que aconteceu. Não há ruptura nem enfrentamento revolucionário, apenas um jogo de olhares e opiniões dentro da própria lógica da vigilância.

E) criação de liberdade efetiva.

❌ Incorreta: em nenhum momento o dispositivo deixa de operar ou de vigiar; a câmera continua lá, o poder continua "independente de quem o exerce". Não há libertação do olhar de controle, apenas a multiplicação de quem participa dele.

🏆 Gabarito: A — o cruzamento dos dois textos aponta para um dispositivo de vigilância que, ao se generalizar e ser questionado, produz um intercâmbio de opiniões divergentes entre vigilante e vigiado, e não apenas uma sensação silenciosa e unilateral de estar sendo observado.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que dá conta da cena completa da tirinha (pergunta, permissão, acusação, negativa) somada ao conceito teórico do Texto I — as demais alternativas descrevem efeitos que os textos não sustentam (crítica, revolta, liberdade) ou capturam apenas parte do Texto I, sem incorporar o que o Texto II movimenta.
  • Padrão de cobrança: o ENEM gosta de combinar um texto teórico denso (Foucault é recorrente em Filosofia e Sociologia) com uma linguagem não verbal — charge, tirinha, foto — que reelabora ou tensiona o conceito. A resposta certa quase sempre exige a leitura dos dois juntos, não de um isoladamente.
  • Generalização: sempre que o comando disser "os textos I e II apontam para...", desconfie de qualquer alternativa que só resuma o texto teórico; ela tende a ser um distrator para quem não olhou com atenção para o texto não verbal.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que descrevam ganho de liberdade, crítica ou revolta (E, B, D) sempre que o texto-base for sobre um dispositivo de controle e vigilância — esses sentidos vão na direção contrária da lógica de poder disciplinar apresentada.
  • Conexões: Vigiar e Punir (Foucault), o panóptico de Jeremy Bentham, biopoder, sociedade de controle (Deleuze) e o debate contemporâneo sobre vigilância digital e redes sociais.

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